Tunes of War é o sétimo álbum de estúdios da banda alemã Grave Digger. Seu lançamento oficial ocorreu em 25 de agosto de 1996, através do selo GUN Records. As gravações foram realizadas em maio daquele ano, no Principal Studios, em Munster, na Alemanha. A produção ficou a cargo de Chris Boltendahl e Uwe Lulis.
Hora de traçarmos a história de Tunes of War, da grande banda Grave Digger.
Origens
Originada no coração industrial da Alemanha em um momento em que o metal tradicional se afirmava como uma força cultural e sonora decisiva, a banda Grave Digger representa uma das expressões mais duradouras e autênticas do género heavy/power metal germânico.
Formada em 1980 na cidade de Gladbeck, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, por Chris Boltendahl e Peter Masson, a banda inicialmente emergiu como parte de uma cena local vibrante que produziu nomes como Helloween, Running Wild e Rage — grupos que viriam a consolidar a chamada First Wave of German Heavy Metal (FWOGHM) e a tornar a Alemanha um dos polos centrais da música pesada mundial.
Os
anos de formação e os primeiros passos
Nos
primeiros anos de existência, o Grave Digger percorreu clubs
e pequenos festivais, construindo uma reputação baseada na
intensidade de suas performances. Seu primeiro registro gravado foi a
contribuição para a coletânea Rock From Hell, em 1983, um
movimento que lhes valeu um contrato com a Noise Records, um selo
então importante na cena metálica europeia.
O álbum de
estreia, Heavy Metal Breakdown (1984), lançado pela Noise,
cristalizou o estilo cru e energético do grupo: riffs pesados,
bateria marcante e um vocal rasgado de Boltendahl que ecoava o ethos
do metal tradicional com influências claras do som de bandas como
Accept. O disco apresentou faixas que rapidamente se tornaram
símbolos do repertório metal, como “Headbanging Man” e a faixa
título — canções que celebravam a cultura headbanger e
cimentaram o título de banda cult que o Grave Digger
carregaria pelas décadas seguintes.
A
carreira discográfica prosseguiu com Witch Hunter (1985), em
que a banda explorou sonoridades mais densas dentro do espectro do
speed/heavy metal, solidificando sua identidade musical. Em 1986,
lançaram War Games, terceiro álbum que continuou a tradição
de composições rápidas, vigorosas e impregnadas de uma energia que
remetia tanto à urgência do punk quanto à grandiosidade do metal
clássico.
Apesar
de uma base fiel de fãs, a recepção comercial desses primeiros
lançamentos não traduziu em grandes vendas fora dos círculos
especializados. Isso motivou uma crise criativa e uma tentativa de
adaptação: em 1987, a banda encurtou o nome para Digger e
lançou o álbum Stronger Than Ever, com uma proposta mais
comercial que visava se aproximar de tendências populares da época.
Contudo, o resultado foi um fracasso crítico e de público, levando
à dissolução momentânea da banda.
The
Reaper e o retorno às raízes
Após
um período de hiato, o Grave Digger voltou à ativa em 1991,
com Chris Boltendahl e Uwe Lulis relançando o nome e convidando
novos membros para reconstruir o projeto. Essa fase culminou em The
Reaper (1993), um álbum que foi recebido como um retorno às
origens — um registro mais alinhado com a estética pesada e direta
apresentada nos primeiros trabalhos do grupo. A formação também
incluiu músicos como Tomi Göttlich e o renomado baterista Jörg
Michael (conhecido por sua passagem por Rage e Running
Wild).
A
década de 1990 foi um período de consolidação para Grave
Digger, que viu também a saída e entrada de músicos e a
exploração de temas mais sombrios e complexos. Em 1995, o álbum
Heart of Darkness trouxe uma sonoridade mais obscura e
intensa, refletindo influências tanto do metal tradicional quanto de
tendências mais modernas — uma elisão entre peso, melodia e
dramatização lírica que prenunciaria os caminhos conceituais
futuros da banda.
Composição
Tunes
of War é um álbum conceitual cujas letras e estrutura musical
foram concebidas coletivamente pela banda, com todos os temas sendo
creditados como composições e arranjos do próprio Grave Digger
(independentemente de variações colaborativas mais pontuais nos
bastidores).
A
ideia central é traçar, em forma de música pesada, a longa luta
histórica da Escócia pela independência frente à Inglaterra —
começando nos conflitos clânicos da Idade Média e se estendendo
até a rebelião jacobita do século XVIII.
As letras
abrangem figuras e episódios como William Wallace e Mary, Queen of
Scots, traduzindo conflitos políticos e identitários em canções
que misturam imagens beligerantes e evocação épica.
Musicalmente,
a banda combina seu tradicional heavy metal com influências do power
metal, enfatizando refrões marcantes e melodias que reforçam a
sensação de “crônica histórica em som”. Embora a maioria das
faixas esteja enraizada em guitarras e bateria, o uso pontual de
gaita de foles (bagpipes) — instrumento fortemente associado à
Escócia — serve como recurso simbólico em momentos específicos
do álbum, ligando diretamente o tema às tradições culturais que
inspiraram o trabalho.
Gravação
Tunes
of War foi gravado e mixado em maio de 1996 no Principal Studios,
que fica em Senden, perto de Münster, na Alemanha — um local
frequentemente utilizado pelo próprio Grave Digger ao longo
dos anos 90.
Além
da banda, o álbum, também aparecem músicos convidados e
colaboradores:
Hansi Kürsch (conhecido vocalista do Blind
Guardian) contribuiu com vocais de apoio em trechos selecionados,
adicionando profundidade às harmonias e reforçando o caráter épico
de algumas faixas.
Scott
Cochrane executa as partes de gaita de foles, um toque narrativo e
temático — embora não dominante, cumprir papel de assinatura
cultural nas faixas onde aparece.
Hans
Peter Katzenburg aparece em teclados, complementando algumas texturas
sonoras. A masterização foi realizada por John Cremer, enquanto o
engenheiro e responsável pela mixagem foi Suno Fabitch.
Produção
A
produção executiva do álbum ficou principalmente a cargo de Chris
Boltendahl e Uwe Lulis, que além de liderarem a composição também
conduziram decisões de arranjos, dinâmica e direção de estúdio.
A dupla de produtores já vinha colaborando nos trabalhos anteriores
da banda, garantindo uma continuidade estética e técnica no som
geral — uma mistura de peso tradicional com clareza e polimento
superiores aos primeiros álbuns do grupo.
As
sessões no Principal Studios buscavam um som contundente mas
acessível, com bateria e guitarras destacadas sem sacrificar a
nitidez melódica dos refrões — algo especialmente relevante em um
álbum conceitual.
O disco não se apoia excessivamente em
sintetizadores ou efeitos, mantendo-se fiel à tradição do
heavy/power metal dos anos 90, mas com seções instrumentais mais
arranjadas, adequadas ao drama histórico narrado.
A
arte da capa de Tunes of War é da autoria do artista alemão Andreas
Marschall, um dos nomes mais célebres no metal europeu quando se
trata de ilustrações para capas de álbuns.
Marschall
já havia trabalhado anteriormente com o Grave Digger (Heart
of Darkness, 1995) e também com grandes nomes do metal como
Blind Guardian, HammerFall e Dimmu Borgir.
A
estética geral sugere soldados, clãs ou elementos simbólicos
bélicos, uma escolha coerente para um disco que aborda batalhas
históricas e heroísmo popular.
Além das pinturas
principais do Marschall, a produção da arte também contou com
layout e elementos adicionais de Peter Dell, com fotografia de
Andreas Schöwe e suporte visual de Ines Phillip no encarte.
Vamos às faixas:
THE BRAVE
Como introdução instrumental, “The Brave” inaugura o conceito e o clima épico do álbum. Baseada na melodia tradicional atribuída ao hino “Scotland the Brave”, ela utiliza gaitas de foles e texturas guerrilheiras para imediatamente situar o ouvinte na atmosfera histórica e guerreira que será explorada ao longo do disco.
SCOTLAND UNITED
“Scotland United” começa o disco com muito peso, embora não seja na velocidade que se espera de um power metal. Ótimo início.
A letra evoca a unificação dos escoceses sob a bandeira de Malcolm II e as primeiras campanhas militares decisivas (compiladas com licença poética própria da obra, mas alinhadas com a história da formação do Reino da Escócia no início do século XI).
THE DARK OF THE SUN
Baseada em um riff poderoso, no melhor estilo NWOBHM, a canção possui uma pegada “maideniana”, com guitarras muito poderosas.
Embora a letra não corresponda a um fato único documentado, ela representa o conceito dramático de uma luta intensa e sangrenta em condições adversas, evocando a dureza das campanhas militares da época.
Também foi um single sem maiores repercussões nas principais paradas desta natureza.
WILLIAM WALLACE (BRAVE HEART)
Esta clássica música da banda aposta em uma alta intensidade, oscilando com passagens mais suavizadas. Brilhante.
Aqui a banda centra seu foco em William Wallace, uma das figuras mais emblemáticas das Guerras de Independência Escocesas (fim do século XIII). A canção toma empréstimos tanto do registro histórico quanto de sua reconstrução popular — em especial a partir da cultura massiva do filme Braveheart (1995) — para exaltar a coragem e o papel desse líder.
THE BRUCE (THE LION KING)
“The Bruce” é mais cadenciada, embora não abra mão do peso e de sua intensidade.
“The Bruce” traz à tona Robert the Bruce, outra figura central da independência escocesa. Sua alcunha “The Lion King” (como usada por Grave Digger) remete ao simbolismo de liderança e nobreza associados a ele.
THE BATTLE OF FLODDEN
Esta música é um Power Metal vigoroso, com bastante peso e vocais incríveis do Chris Boltendahl.
O título refere-se à Batalha de Flodden (1513), um dos mais devastadores confrontos entre escoceses e ingleses, no qual as forças escocesas foram pesadamente derrotadas.
THE BALLAD OF MARY (QUEEN OF SCOTS)
Esta faixa é mais suave e mais contida, sendo realmente muito bonita.
Aqui a narrativa muda de foco para Mary Stuart (Mary, Queen of Scots), figura trágica e central na história do século XVI. A letra assume um tom mais introspectivo, como uma balada, refletindo a vida de uma rainha que foi capturada, deposta e executada após longos conflitos políticos e religiosos.
THE TRUTH
“Truth” flerta com o Judas Priest em um riff inspiradíssimo a la British Steel, com pegada, mas também um certo balanço.
“The Truth” se distancia um pouco de uma referência histórica direta. A canção parece explorar temas de verdade, fé e desilusão, possivelmente refletindo o ambiente de conflitos religiosos e políticos que permearam a história escocesa (como as tensões entre protestantes e católicos).
CRY FOR FREEDOM (JAMES THE VI)
Novamente contando com velocidade e sentido de urgência, “Cry for Freedom” tem um refrão pegajoso, no melhor sentido.
A letra desta faixa é associada a James VI da Escócia (que também foi James I da Inglaterra), sugerindo um grito por liberdade e autonomia. James é uma figura histórica complexa: herdeiro de um reino que buscou reunificação com sua potência vizinha e posteriormente tornou-se monarca sobre ambos os países, ao mesmo tempo em que enfrentou dissidências e conflitos internos.
KILLING TIME
“Killing Time” é uma porrada, curta e direta.
A letra, agressiva e compacta, reforça a atmosfera de tensão constante.
REBELLION (THE CLANS ARE MARCHING)
Sua sonoridade tem toques de Hard Rock e Heavy Metal em uma faixa poderosa.
“Rebellion” celebra a união dos clãs escoceses na marcha contra a dominação inglesa.
Foi o primeiro single lançado para a promoção do disco.
CULLODEN MUIR
“Cullodem Muir” possui riffs de inspiração Thrash com peso extremo, muita agressividade e muita intensidade.
A letra de “Culloden Muir” refere-se diretamente à Batalha de Culloden (1746), o confronto que significou a derrota decisiva dos jacobitas escoceses e o fim de seus esforços de independência naquele ciclo histórico.
THE FALL OF THE BRAVE
Como faixa de encerramento instrumental, “The Fall of the Brave” evoca a atmosfera sombria que se segue ao conflito — o silêncio após as batalhas, o peso das perdas, a reflexão sobre os bravos que caíram.
Considerações Finais
O álbum alcançou posição nas paradas alemãs, chegando à colocação nº 84 na Alemanha, o que, embora modesto em termos de chart, era um resultado relevante para uma banda de metal tradicional em meados dos anos 90, especialmente considerando que muitos lançamentos do gênero raramente figuravam em rankings oficiais na época.
A imprensa especializada, mesmo em resenhas feitas anos depois, identifica Tunes of War como um disco em que a banda encontrou sua melhor fórmula criativa até aquele momento — não apenas pela qualidade das composições, mas pela coerência entre conceito, estrutura musical e arranjos. A temática da luta escocesa pela independência, inspirada também pelo zeitgeist cultural impulsionado em parte pelo filme Braveheart, foi vista como um forte diferencial narrativo para um álbum de heavy/power metal.
A repercussão entre o público, especialmente entre fãs do metal tradicional e do power metal, foi também forte desde o lançamento. Faixas como “Rebellion (The Clans Are Marching)” tornaram-se verdadeiros hinos nos shows da banda e continuaram a ser entoadas em apresentações mesmo décadas depois — um indicador claro de que o álbum encontrou ressonância duradoura entre os headbangers.
Após o lançamento de Tunes of War, o Grave Digger embarcou em uma fase intensa de turnês para a divulgação do álbum, realizando shows na Europa e em outras regiões importantes do circuito metal. Embora registros detalhados de datas e regiões sejam escassos em fontes amplamente indexadas, set lists preservados de apresentações de 1997 confirmam que várias faixas do Tunes of War — como “The Brave (Intro)”, “Scotland United”, “The Dark of the Sun”, “William Wallace” e o hino “Rebellion (The Clans Are Marching)” — estabeleceram-se como pilares dos concertos dessa fase.
Foi durante essa turnê que os alemães também fizeram sua primeira visita ao Brasil em 1997, compartilhando palcos com outras bandas europeias como o Rage, ainda que a divulgação local tenha sido considerada um tanto complicada na época.
Este álbum foi a primeira parte da Trilogia da Idade Média. O segundo álbum, Knights of the Cross, com Jens Becker como baixista, foi lançado em 1998 e tratava da ascensão e queda dos Cavaleiros Templários.
A parte final da trilogia terminou em 1999 com Excalibur. Este álbum explorou a lenda do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Pouco depois, uma turnê seguiu com o tecladista Hans-Peter Katzenburg, que mais tarde se tornou um membro permanente da banda.
Formação:
Chris Boltendahl – Vocal
Uwe Lulis – Guitarras
Tomi Göttlich – Baixo
Stefan Arnold – Bateria
Músicos Adicionais:
Hansi Kürsch - Backing vocals
Scott Cochrane - Gaita de foles
Hans Peter Katzenburg - Teclados
Faixas:
01. The Brave (Intro) - 2:24
02. Scotland United - 4:35
03. The Dark of the Sun - 4:32
04. William Wallace (Braveheart) - 5:01
05. The Bruce - 6:57
06. The Battle of Flodden - 4:04
07. The Ballad of Mary (Queen of Scots) - 5:00
08. The Truth - 3:50
09. Cry for Freedom (James the VI) - 3:16
10. Killing Time - 2:52
11. Rebellion (The Clans Are Marching) - 4:05
12. Culloden Muir - 4:05
13. The Fall of the Brave (Outro) - 1:58
(Todas as canções compostas pelo Grave Digger).
Opinião do Blog:
Primeiramente, é muito bom falar sobre uma banda como o Grave Digger, um dos grupos do chamado Big 4 do Power Metal alemão (com Helloween, Rage, Running Wild).
Tunes of War, um álbum de muitas qualidades, talvez seja menos falado por alguns motivos: o primeiro é que o Grave Digger é uma banda muito produtiva, com uma discografia de estúdio que supera 2 dezenas de álbuns. O segundo motivo plausível, é que o disco se encontra imediatamente anterior a 2 dos trabalhos mais exaltados da banda, Knight of the Cross e Excalibur.
Mas qualidades exaltadas nestes dois discos posteriores já podem ser encontradas por aqui: um álbum conceitual em que as letras se casam perfeitamente com a musicalidade, alternância de sonoridades e intensidades, riffs bem construídos, composições inspiradas.
A base continua sendo o Power Metal, com pequenos resquícios das origens Thrash Metal da banda, mas por diversas vezes o grupo mistura sonoridades ao seu Power Metal.
Como se tem uma temática escocesa, a música celta é muitas vezes referenciada. Faixas como a linda balada "The Ballad of Mary (Queen of Scots)" e a porrada “The Truth” tem flertes deliberados com o Hard Rock. O Power Metal mais padrão – e brilhante – está em faixas como “Culloden Muir”.
“Rebellion (The Clans Are Marching)” traz pequenos resquícios de Thrash Metal e é ótima, enquanto “The Bruce” é mais lenta, densa e atmosférica.
Mas nossa preferida é mesmo “The Dark of the Sun”, composição maiúscula que flerta Power e NWOBHM.
Em suma, Tunes of War pode ser uma belíssima porta de entrada para novos ouvintes conhecerem a voz rasgada de Chris Boltendahl e os riffs de Uwe Lulis, numa das mais icônicas bandas do metal alemão, o Grave Digger.








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