13 de abril de 2026

SLASH - SLASH (2010)

 


Slash é o primeiro álbum de estúdios do guitarrista britânico/americano Slash. Seu lançamento oficial ocorreu em 31 de março de 2010, através dos selos EMI, Universal, Roadrunner e Sony Music. As gravações ocorreram entre março e novembro de 2009, no Barefoot Recording Studio, nos EUA. A produção ficou por conta de Eric Valentine, Kid Rock e Big Chris Flores.





A trajetória que conduziu Saul Hudson — o Slash — à sua carreira solo oficial, culminando no lançamento de Slash (2010), não pode ser compreendida como um gesto súbito ou oportunista. Trata-se, antes, de um processo histórico, artístico e até psicológico, que se desenrola ao longo de mais de uma década de transições, dissoluções e reinvenções. Para um músico que ajudou a definir a estética do hard rock no final dos anos 1980, a decisão de assumir plenamente o protagonismo criativo sob seu próprio nome foi, paradoxalmente, tanto um retorno às origens quanto um salto estratégico diante de um cenário musical em mutação.


Do colapso do Guns ao Snakepit


Desde o colapso progressivo da formação clássica do Guns N’ Roses, em meados da década de 1990, Slash passou a viver uma espécie de diáspora artística. Sua saída formal da banda em 1996, motivada principalmente por divergências irreconciliáveis com Axl Rose — tanto no campo musical quanto na condução administrativa do grupo — marcou o início de uma busca por autonomia criativa. Essa ruptura não apenas dissolveu uma das parcerias mais emblemáticas da história do rock, como também obrigou Slash a repensar seu papel: de guitarrista coadjuvante em uma banda icônica para possível arquiteto de projetos próprios.


Nesse primeiro momento, a resposta veio com o Slash’s Snakepit, projeto que funcionou mais como válvula de escape do que como uma reinvenção estética radical. O próprio Slash reconheceu que a iniciativa era uma forma de “relembrar por que fazia música”, afastando-se da grandiosidade e das tensões que haviam marcado os últimos anos do Guns N’ Roses. Ainda que o álbum It’s Five O’Clock Somewhere (1995) tenha alcançado sucesso comercial significativo, vendendo mais de um milhão de cópias, o projeto não possuía a coesão ou a ambição necessárias para estabelecer uma nova identidade duradoura.


Slash



Caos no Velvet Revolver


A virada mais consistente viria apenas nos anos 2000, com a formação do Velvet Revolver. Reunindo ex-integrantes do Guns N’ Roses — Slash, Duff McKagan e Matt Sorum — ao lado de Scott Weiland, ex-Stone Temple Pilots, o supergrupo parecia oferecer uma síntese madura das experiências anteriores. O sucesso inicial, especialmente com o álbum Contraband (2004), sugeria que Slash havia encontrado novamente um ambiente fértil para sua criatividade. No entanto, as tensões internas, sobretudo envolvendo o comportamento errático de Weiland, acabariam por minar a estabilidade do grupo.


A dissolução do Velvet Revolver, oficializada em 2008 após conflitos públicos e a demissão de Weiland, foi um ponto de inflexão crucial. Pela segunda vez em pouco mais de uma década, Slash se via sem uma banda — mas, desta vez, o contexto era diferente. Como observou a revista Guitar World, ele se encontrava, “para todos os efeitos, um homem sem banda”, mas não sem direção. Ao contrário do período pós-Guns N’ Roses, quando ainda buscava uma identidade, agora ele possuía um capital simbólico consolidado: era reconhecido globalmente como um dos maiores guitarristas de sua geração, com uma assinatura sonora imediatamente identificável.


Transição para o trabalho solo


Esse momento de transição coincidiu com uma mudança mais ampla na indústria musical. O modelo tradicional de bandas fixas perdia espaço para colaborações pontuais, projetos paralelos e uma lógica mais fluida de produção artística. Slash, atento a esse cenário, concebeu uma ideia que se revelaria decisiva: em vez de formar outra banda, ele produziria um álbum solo baseado em colaborações com diferentes vocalistas — muitos deles ídolos pessoais ou parceiros de longa data.


A concepção do álbum Slash nasce, portanto, de uma combinação de fatores: o esgotamento do formato de banda tradicional em sua trajetória recente; o desejo de liberdade criativa; e a possibilidade de dialogar diretamente com uma ampla rede de influências e amizades construídas ao longo da carreira. Como o próprio guitarrista declarou, a ideia inicial era trabalhar com artistas com quem já tinha relações estabelecidas, como Iggy Pop, Lemmy e Ozzy Osbourne — figuras que não apenas influenciaram sua formação, mas também representavam diferentes vertentes do rock.


O disco Slash


O resultado, lançado em 2010, foi um álbum que se distingue não apenas pela variedade de vozes, mas pela unidade estética proporcionada pela guitarra de Slash. Participaram do disco nomes como Ozzy Osbourne, Fergie, Chris Cornell, Iggy Pop, Lemmy Kilmister e Adam Levine, entre outros, criando um mosaico sonoro que transita entre o hard rock clássico, o metal e até incursões mais pop.


Slash



Composição: curadoria autoral e colaboração dirigida


Do ponto de vista composicional, Slash não é um álbum “coletivo” no sentido tradicional, mas sim um projeto autoral com colaboradores convidados. A estrutura criativa partiu majoritariamente de Slash, que compôs riffs, bases harmônicas e estruturas das músicas, convidando vocalistas específicos para completar cada faixa.


Isso explica por que cada faixa parece moldada ao estilo do intérprete convidado (Ozzy Osbourne, Chris Cornell, Fergie, Iggy Pop, etc.), mas mantém coerência sonora. O guitarrista atuou como diretor artístico central, selecionando cuidadosamente os colaboradores com base em afinidade estética e admiração pessoal.


Gravação: método híbrido com base fixa


O álbum foi gravado entre 4 de março e 4 de novembro de 2009, com sessões concentradas principalmente no Barefoot Recording Studios, em Hollywood (Los Angeles). Há também evidências de gravações pontuais em outros espaços, como o estúdio pessoal de Kid Rock para a faixa “I Hold On”.


Embora o disco conte com múltiplos vocalistas, a gravação não foi caótica. Pelo contrário: houve um núcleo instrumental estável, composto principalmente por Chris Chaney (baixo), Josh Freese (bateria) e, óbvio, Slash (guitarras).


Outro aspecto técnico relevante é que o álbum foi gravado inteiramente com equipamento analógico, segundo registros especializados. Essa escolha não é trivial: em 2009, a indústria já era amplamente digital.


Produção: Eric Valentine e o controle de coesão


O principal responsável pela produção foi Eric Valentine, conhecido por trabalhos com Queens of the Stone Age e All-American Rejects. Ele atuou não apenas como produtor, mas também como engenheiro e mixer, centralizando decisões técnicas.


Esse ponto é crucial: em um álbum com tantos colaboradores, o risco de fragmentação é alto. Valentine funciona como elemento de coesão, ao lado do próprio Slash.


Além dele, há créditos adicionais pontuais: Kid Rock aparece como produtor em faixas específicas e Big Chris Flores também contribui em produção. Ainda assim, a espinha dorsal do disco permanece sob o comando de Valentine, o que explica a consistência sonora entre faixas tão distintas.


Slash



Arte da capa: identidade visual e simbolismo


Embora as fontes técnicas disponíveis sejam mais escassas quanto à autoria detalhada da capa, há informações relevantes sobre sua concepção e apresentação pública.


A arte do álbum foi divulgada oficialmente antes do lançamento, como parte da estratégia promocional. A imagem mais conhecida do disco mostra o nome “Slash” acompanhado de um crânio estilizado com cartola, remetendo diretamente à iconografia clássica do guitarrista.


Vamos às faixas:


GHOST


A musicalidade é um Hard Rock, com pegada mais swingada que remete justamente ao The Cult.


Vocal: Ian Astbury


Liricamente, “Ghost” trabalha com a ideia de presenças espectrais como metáfora emocional, evocando perda, memória e identidade fragmentada — temas recorrentes na obra de Astbury com o The Cult.


CRUCIFY THE DEAD


A música oscila entre calmaria e a intensidade mais pesada.


Vocal: Ozzy


Uma das faixas mais comentadas do disco, amplamente interpretada como uma crítica direta a Axl Rose, embora nunca confirmada oficialmente por Slash. A letra aborda traição, ego e decadência moral. Musicalmente, remete ao heavy metal clássico.


BEAUTIFUL DANGEROUS


Uma música que apresenta um Hard Rock com forte viés pop.


Vocal: Fergie


A letra trata de sedução obsessiva e relações perigosas, com uma abordagem quase teatral.





Foi um single que ganhou videoclipe, mas sem maiores repercussões em termos de paradas de sucesso.


BACK FROM CALI


Um Hard Rock com pegada alternativa, sendo bem criativo.


Vocal: Myles Kennedy


A letra aborda queda, redenção e retorno — frequentemente associada à própria trajetória de Slash em Los Angeles.


PROMISE


A excelente voz de Cornell é um grande diferencial. A sonoridade é um rock mais contido.


Vocal: Chris Cornell


Liricamente, trata de compromissos quebrados, desilusão e fragilidade emocional.


BY THE SWORD


Uma música que bebe nas fontes riquíssimas do rock setentista, trazendo à mente ecos de Led Zeppelin.


Vocal: Andrew Stockdale


A letra gira em torno de destino, conflito e fatalismo (“viver e morrer pela espada”).





Foi mais um single do álbum, atingindo pouca repercussão em termos de paradas desta natureza.


GOTTEN


Típica balada romântica, mas confesso que a voz de Levine não me comove e acaba prejudicando uma sonoridade envolvente.


Vocal: Adam Levine


Balada emocional centrada em arrependimento e perda amorosa.


Foi mais um single para promoção do disco, mas sem maiores repercussões.


DOCTOR ALIBI


A canção possui uma pegada que traz à mente o Motörhead e só por isso já merece destaque.


Vocal: Lemmy


A letra reflete o estilo de Lemmy: niilismo, excesso e vida sem arrependimentos.


WATCH THIS


Faixa instrumental que destaca o lado técnico e improvisacional. Sem letra, funciona como interlúdio energético, remetendo ao hard rock clássico. Conta com com Dave Grohl e Duff McKagan.


I HOLD ON


Um rock básico, com reminiscências até do próprio Guns N’ Roses.


Vocal: Kid Rock


A letra aborda resiliência pessoal e persistência, com elementos autobiográficos típicos de Kid Rock.


NOTHING TO SAY


Uma das músicas mais pesadas do disco, possui influências do Avenged Sevenfold.


Vocal: M. Shadows


Liricamente, aborda alienação, silêncio emocional e tensão interna.


STARLIGHT


Starlight” é uma balada emocional e com belos solos de Slash, além de ótima interpretação por parte de Miles Kennedy.


Vocal: Miles Kennedy


A letra fala sobre distância, solidão e busca por conexão.


SAINT IS A SINNER TOO


Bastante suave, musicalmente, tem forte influência blues.


Vocal: Rocco DeLucca


A letra explora a dualidade moral — a ideia de que até figuras “santas” possuem falhas.


WE’RE ALL GONNA DIE


Um rock bastante caótico fecha o disco, com vocais despojados e a guitarra de Slash brilhando.


Vocal: Iggy Pop


A letra aborda mortalidade com humor ácido e niilismo punk.


Considerações Finais


Após o lançamento, Slash entrou nas paradas da Billboard 200 em terceiro lugar, com 61 mil cópias vendidas durante a primeira semana. O álbum também estreou em primeiro lugar no Canadá, Áustria, Nova Zelândia e Suécia, enquanto também alcançou o top 20 na Alemanha, Finlândia, Austrália, França, Noruega, Polônia e Suíça. Atingiu a 17ª colocação na parada britânica.


Myles Kennedy e Slash



O álbum recebeu críticas geralmente mistas a positivas. O escritor da MTV News, Kyle Anderson, chamou o álbum de "uma tremenda coleção de músicas de hard rock que giram em torno dos riffs robustos e rodopiantes característicos do homem do machado... No geral, é um álbum excelente, e é bom ter aquele som clássico do Slash de volta”.


Em 4 de fevereiro de 2010, Slash anunciou através de um blog no MySpace que "Myles Kennedy estará liderando a banda na próxima turnê. Algo que me deixa muito feliz. Myles cantou uma faixa matadora no disco e acho que ele está por perto. de longe um dos melhores cantores de rock and roll da atualidade. Estou muito honrado e orgulhoso de trabalhar com ele”.


Antes da turnê, Slash confirmou que seu próprio material solo e músicas do Guns N' Roses, Velvet Revolver e Slash's Snakepit, bem como material do Alter Bridge ("Rise Today") seriam tocadas.


Para promover o álbum, Slash embarcou em sua primeira turnê mundial solo com Myles Kennedy do Alter Bridge - que também apareceu no álbum - nos vocais, Bobby Schneck na guitarra base, Todd Kerns no baixo e Brent Fitz na bateria. Slash abriu para Ozzy Osbourne em uma etapa da Scream World Tour de Osbourne.


As faixas lançadas como singles foram "Sahara" (exclusivamente no Japão), "By the Sword" e "Beautiful Dangerous".


Slash supera a casa de 100 mil cópias vendidas nos Estados Unidos.





Formação:

Slash – Guitarra solo e base, Violão

Chris Chaney – Baixo, Guitarra

Josh Freese – Bateria, Percussão

Lenny Castro – Percussão

Músicos Adicionais:

Izzy Stradlin, Taylor Hawkins, Kevin Churko, Joe Sandt, Deron Johnson, Anton Patzner, Lewis Patzner, Mark Robertson, Alyssa Park, Julie Rogers, Sam Fischer, Grace Oh, Songa Lee, Maia Jasper, Lisa Liu, Steve Ferrone

Músicos Convidados:

Ian Astbury, Ozzy Osbourne, Fergie, Myles Kennedy, Chris Cornell, Andrew Stockdale, Adam Levine, Lemmy Kilmister, Dave Grohl, Duff McKagan, Kid Rock, M. Shadows, Rocco DeLuca, Iggy Pop, Koshi Inaba


Faixas:

01. Ghost (Slash/Astbury) - 3:34

02. Crucify the Dead (Slash/Osbourne/Churko) - 4:04

03. Beautiful Dangerous (Slash/Fergie) - 4:41

04. Back from Cali (Slash/Kennedy) - 3:35

05. Promise (Slash/Cornell) - 4:41

06. By the Sword (Slash/Stockdale) - 4:50

07. Gotten (Slash/Levine) - 5:05

08. Doctor Alibi (Slash/Kilmister) - 3:07

09. Watch This (Slash) - 3:46

10. I Hold On (Slash/Rock) - 4:10

11. Nothing to Say (Slash/Shadows) - 5:27

12. Starligh (Slash/Kennedy) - 5:25

13. Saint Is a Sinner Too (Slash/Deluca) - 3:28

14. We're All Gonna Die (Slash/Iggy Pop) - 4:30


Opinião do Blog:

Evidentemente, o guitarrista Slash dispensa maiores apresentações. Seu nome já estava na história quando lançou seu primeiro álbum solo, autointitulado, pois sua atuação foi decisiva para o sucesso do Guns ‘N Roses.


E nesta sua estreia, Slash esteve longe de tentar reinventar a roda. Ele apostou naquilo que sempre fez de melhor: um Hard Rock simples, agressivo e com boas melodias.


Seu tiro foi certeiro ao convidar um time incrível de vocalistas, oferecendo uma vasta gama de possibilidades para suas composições. Outro acerto foram os competentes músicos que o acompanham nos instrumentos, com direito a outros membros do Guns, garantindo um sentimento nostálgico para os fãs da lendária banda.


Tanto nos riffs quanto nos solos, Slash demonstra sua inegável categoria e é, de fato, o grande expoente do trabalho.


Beautiful Dangerous” possui vocais de Fergie e isso traz uma atmosfera bem interessante, com um clima oitentista inegável. A pesada e instrumental “Whatch This” traz a guitarra de Slash feroz, enquanto “We're All Gonna Die” é um rock simples, com vocais de Iggy Pop, e bem cativante.


O peso praticamente metálico dá as caras na excelente “Crucify the Dead”, a qual lembra a carreira-solo do Madman. “Starlight” marca a parceria bem-sucedida parceria de Slash com Myles Kennedy, mas nossa preferida é para a rápida e visceral “Doctor Alibi”.


Em suma, se a estreia solo do Slash não vai mudar a vida de ninguém que o ouvir, ao menos uma diversão garantida para fãs de Hard Rock, com uma sonoridade simples, padrão, mas com nuances diferentes a cada canção, muito por conta dos convidados de peso que nela estão.

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