Slash é o primeiro álbum de estúdios do guitarrista britânico/americano Slash. Seu lançamento oficial ocorreu em 31 de março de 2010, através dos selos EMI, Universal, Roadrunner e Sony Music. As gravações ocorreram entre março e novembro de 2009, no Barefoot Recording Studio, nos EUA. A produção ficou por conta de Eric Valentine, Kid Rock e Big Chris Flores.
A trajetória que conduziu Saul Hudson — o Slash — à sua carreira solo oficial, culminando no lançamento de Slash (2010), não pode ser compreendida como um gesto súbito ou oportunista. Trata-se, antes, de um processo histórico, artístico e até psicológico, que se desenrola ao longo de mais de uma década de transições, dissoluções e reinvenções. Para um músico que ajudou a definir a estética do hard rock no final dos anos 1980, a decisão de assumir plenamente o protagonismo criativo sob seu próprio nome foi, paradoxalmente, tanto um retorno às origens quanto um salto estratégico diante de um cenário musical em mutação.
Do colapso do Guns ao Snakepit
Desde
o colapso progressivo da formação clássica do Guns N’ Roses,
em meados da década de 1990, Slash passou a viver uma espécie
de diáspora artística. Sua saída formal da banda em 1996, motivada
principalmente por divergências irreconciliáveis com Axl Rose —
tanto no campo musical quanto na condução administrativa do grupo —
marcou o início de uma busca por autonomia criativa. Essa ruptura
não apenas dissolveu uma das parcerias mais emblemáticas da
história do rock, como também obrigou Slash a repensar seu
papel: de guitarrista coadjuvante em uma banda icônica para possível
arquiteto de projetos próprios.
Nesse
primeiro momento, a resposta veio com o Slash’s Snakepit,
projeto que funcionou mais como válvula de escape do que como uma
reinvenção estética radical. O próprio Slash reconheceu
que a iniciativa era uma forma de “relembrar por que fazia música”,
afastando-se da grandiosidade e das tensões que haviam marcado os
últimos anos do Guns N’ Roses. Ainda que o álbum It’s
Five O’Clock Somewhere (1995) tenha alcançado sucesso
comercial significativo, vendendo mais de um milhão de cópias, o
projeto não possuía a coesão ou a ambição necessárias para
estabelecer uma nova identidade duradoura.
Caos no Velvet Revolver
A
virada mais consistente viria apenas nos anos 2000, com a formação
do Velvet Revolver. Reunindo ex-integrantes do Guns N’
Roses — Slash, Duff McKagan e Matt Sorum — ao lado de Scott
Weiland, ex-Stone Temple Pilots, o supergrupo parecia oferecer
uma síntese madura das experiências anteriores. O sucesso inicial,
especialmente com o álbum Contraband (2004), sugeria que
Slash havia encontrado novamente um ambiente fértil para sua
criatividade. No entanto, as tensões internas, sobretudo envolvendo
o comportamento errático de Weiland, acabariam por minar a
estabilidade do grupo.
A
dissolução do Velvet Revolver, oficializada em 2008 após
conflitos públicos e a demissão de Weiland, foi um ponto de
inflexão crucial. Pela segunda vez em pouco mais de uma década,
Slash se via sem uma banda — mas, desta vez, o contexto era
diferente. Como observou a revista Guitar World, ele se encontrava,
“para todos os efeitos, um homem sem banda”, mas não sem
direção. Ao contrário do período pós-Guns N’ Roses,
quando ainda buscava uma identidade, agora ele possuía um capital
simbólico consolidado: era reconhecido globalmente como um dos
maiores guitarristas de sua geração, com uma assinatura sonora
imediatamente identificável.
Transição para o trabalho solo
Esse
momento de transição coincidiu com uma mudança mais ampla na
indústria musical. O modelo tradicional de bandas fixas perdia
espaço para colaborações pontuais, projetos paralelos e uma lógica
mais fluida de produção artística. Slash, atento a esse
cenário, concebeu uma ideia que se revelaria decisiva: em vez de
formar outra banda, ele produziria um álbum solo baseado em
colaborações com diferentes vocalistas — muitos deles ídolos
pessoais ou parceiros de longa data.
A
concepção do álbum Slash nasce, portanto, de uma combinação
de fatores: o esgotamento do formato de banda tradicional em sua
trajetória recente; o desejo de liberdade criativa; e a
possibilidade de dialogar diretamente com uma ampla rede de
influências e amizades construídas ao longo da carreira. Como o
próprio guitarrista declarou, a ideia inicial era trabalhar com
artistas com quem já tinha relações estabelecidas, como Iggy
Pop, Lemmy e Ozzy Osbourne — figuras que não
apenas influenciaram sua formação, mas também representavam
diferentes vertentes do rock.
O disco Slash
O
resultado, lançado em 2010, foi um álbum que se distingue não
apenas pela variedade de vozes, mas pela unidade estética
proporcionada pela guitarra de Slash. Participaram do disco
nomes como Ozzy Osbourne, Fergie, Chris Cornell,
Iggy Pop, Lemmy Kilmister e Adam Levine, entre
outros, criando um mosaico sonoro que transita entre o hard rock
clássico, o metal e até incursões mais pop.
Composição: curadoria autoral e colaboração dirigida
Do
ponto de vista composicional, Slash não é um álbum
“coletivo” no sentido tradicional, mas sim um projeto autoral com
colaboradores convidados. A estrutura criativa partiu
majoritariamente de Slash, que compôs riffs, bases harmônicas
e estruturas das músicas, convidando vocalistas específicos para
completar cada faixa.
Isso explica por que cada faixa parece moldada ao estilo do intérprete convidado (Ozzy Osbourne, Chris Cornell, Fergie, Iggy Pop, etc.), mas mantém coerência sonora. O guitarrista atuou como diretor artístico central, selecionando cuidadosamente os colaboradores com base em afinidade estética e admiração pessoal.
Gravação: método híbrido com base fixa
O álbum foi gravado entre 4 de março e 4 de novembro de 2009, com sessões concentradas principalmente no Barefoot Recording Studios, em Hollywood (Los Angeles). Há também evidências de gravações pontuais em outros espaços, como o estúdio pessoal de Kid Rock para a faixa “I Hold On”.
Embora o disco conte com múltiplos vocalistas, a gravação não foi caótica. Pelo contrário: houve um núcleo instrumental estável, composto principalmente por Chris Chaney (baixo), Josh Freese (bateria) e, óbvio, Slash (guitarras).
Outro aspecto técnico relevante é que o álbum foi gravado inteiramente com equipamento analógico, segundo registros especializados. Essa escolha não é trivial: em 2009, a indústria já era amplamente digital.
Produção: Eric Valentine e o controle de coesão
O
principal responsável pela produção foi Eric Valentine, conhecido
por trabalhos com Queens of the Stone Age e All-American
Rejects. Ele atuou não apenas como produtor, mas também como
engenheiro e mixer, centralizando decisões técnicas.
Esse
ponto é crucial: em um álbum com tantos colaboradores, o risco de
fragmentação é alto. Valentine funciona como elemento de coesão,
ao lado do próprio Slash.
Além dele, há créditos adicionais pontuais: Kid Rock aparece como produtor em faixas específicas e Big Chris Flores também contribui em produção. Ainda assim, a espinha dorsal do disco permanece sob o comando de Valentine, o que explica a consistência sonora entre faixas tão distintas.
Arte da capa: identidade visual e simbolismo
Embora
as fontes técnicas disponíveis sejam mais escassas quanto à
autoria detalhada da capa, há informações relevantes sobre sua
concepção e apresentação pública.
A arte do álbum foi divulgada oficialmente antes do lançamento, como parte da estratégia promocional. A imagem mais conhecida do disco mostra o nome “Slash” acompanhado de um crânio estilizado com cartola, remetendo diretamente à iconografia clássica do guitarrista.
Vamos às faixas:
GHOST
A musicalidade é um Hard Rock, com pegada mais swingada que remete justamente ao The Cult.
Vocal: Ian Astbury
Liricamente, “Ghost” trabalha com a ideia de presenças espectrais como metáfora emocional, evocando perda, memória e identidade fragmentada — temas recorrentes na obra de Astbury com o The Cult.
CRUCIFY THE DEAD
A música oscila entre calmaria e a intensidade mais pesada.
Vocal: Ozzy
Uma das faixas mais comentadas do disco, amplamente interpretada como uma crítica direta a Axl Rose, embora nunca confirmada oficialmente por Slash. A letra aborda traição, ego e decadência moral. Musicalmente, remete ao heavy metal clássico.
BEAUTIFUL DANGEROUS
Uma música que apresenta um Hard Rock com forte viés pop.
Vocal: Fergie
A letra trata de sedução obsessiva e relações perigosas, com uma abordagem quase teatral.
Foi um single que ganhou videoclipe, mas sem maiores repercussões em termos de paradas de sucesso.
BACK FROM CALI
Um Hard Rock com pegada alternativa, sendo bem criativo.
Vocal: Myles Kennedy
A letra aborda queda, redenção e retorno — frequentemente associada à própria trajetória de Slash em Los Angeles.
PROMISE
A excelente voz de Cornell é um grande diferencial. A sonoridade é um rock mais contido.
Vocal: Chris Cornell
Liricamente, trata de compromissos quebrados, desilusão e fragilidade emocional.
BY THE SWORD
Uma música que bebe nas fontes riquíssimas do rock setentista, trazendo à mente ecos de Led Zeppelin.
Vocal: Andrew Stockdale
A letra gira em torno de destino, conflito e fatalismo (“viver e morrer pela espada”).
Foi mais um single do álbum, atingindo pouca repercussão em termos de paradas desta natureza.
GOTTEN
Típica balada romântica, mas confesso que a voz de Levine não me comove e acaba prejudicando uma sonoridade envolvente.
Vocal: Adam Levine
Balada emocional centrada em arrependimento e perda amorosa.
Foi mais um single para promoção do disco, mas sem maiores repercussões.
DOCTOR ALIBI
A canção possui uma pegada que traz à mente o Motörhead e só por isso já merece destaque.
Vocal: Lemmy
A letra reflete o estilo de Lemmy: niilismo, excesso e vida sem arrependimentos.
WATCH THIS
Faixa instrumental que destaca o lado técnico e improvisacional. Sem letra, funciona como interlúdio energético, remetendo ao hard rock clássico. Conta com com Dave Grohl e Duff McKagan.
I HOLD ON
Um rock básico, com reminiscências até do próprio Guns N’ Roses.
Vocal: Kid Rock
A letra aborda resiliência pessoal e persistência, com elementos autobiográficos típicos de Kid Rock.
NOTHING TO SAY
Uma das músicas mais pesadas do disco, possui influências do Avenged Sevenfold.
Vocal: M. Shadows
Liricamente, aborda alienação, silêncio emocional e tensão interna.
STARLIGHT
“Starlight” é uma balada emocional e com belos solos de Slash, além de ótima interpretação por parte de Miles Kennedy.
Vocal: Miles Kennedy
A letra fala sobre distância, solidão e busca por conexão.
SAINT IS A SINNER TOO
Bastante suave, musicalmente, tem forte influência blues.
Vocal: Rocco DeLucca
A letra explora a dualidade moral — a ideia de que até figuras “santas” possuem falhas.
WE’RE ALL GONNA DIE
Um rock bastante caótico fecha o disco, com vocais despojados e a guitarra de Slash brilhando.
Vocal: Iggy Pop
A letra aborda mortalidade com humor ácido e niilismo punk.
Considerações Finais
Após o lançamento, Slash entrou nas paradas da Billboard 200 em terceiro lugar, com 61 mil cópias vendidas durante a primeira semana. O álbum também estreou em primeiro lugar no Canadá, Áustria, Nova Zelândia e Suécia, enquanto também alcançou o top 20 na Alemanha, Finlândia, Austrália, França, Noruega, Polônia e Suíça. Atingiu a 17ª colocação na parada britânica.
O álbum recebeu críticas geralmente mistas a positivas. O escritor da MTV News, Kyle Anderson, chamou o álbum de "uma tremenda coleção de músicas de hard rock que giram em torno dos riffs robustos e rodopiantes característicos do homem do machado... No geral, é um álbum excelente, e é bom ter aquele som clássico do Slash de volta”.
Em 4 de fevereiro de 2010, Slash anunciou através de um blog no MySpace que "Myles Kennedy estará liderando a banda na próxima turnê. Algo que me deixa muito feliz. Myles cantou uma faixa matadora no disco e acho que ele está por perto. de longe um dos melhores cantores de rock and roll da atualidade. Estou muito honrado e orgulhoso de trabalhar com ele”.
Antes da turnê, Slash confirmou que seu próprio material solo e músicas do Guns N' Roses, Velvet Revolver e Slash's Snakepit, bem como material do Alter Bridge ("Rise Today") seriam tocadas.
Para promover o álbum, Slash embarcou em sua primeira turnê mundial solo com Myles Kennedy do Alter Bridge - que também apareceu no álbum - nos vocais, Bobby Schneck na guitarra base, Todd Kerns no baixo e Brent Fitz na bateria. Slash abriu para Ozzy Osbourne em uma etapa da Scream World Tour de Osbourne.
As faixas lançadas como singles foram "Sahara" (exclusivamente no Japão), "By the Sword" e "Beautiful Dangerous".
Slash supera a casa de 100 mil cópias vendidas nos Estados Unidos.
Formação:
Slash – Guitarra solo e base, Violão
Chris Chaney – Baixo, Guitarra
Josh Freese – Bateria, Percussão
Lenny Castro – Percussão
Músicos Adicionais:
Izzy Stradlin, Taylor Hawkins, Kevin Churko, Joe Sandt, Deron Johnson, Anton Patzner, Lewis Patzner, Mark Robertson, Alyssa Park, Julie Rogers, Sam Fischer, Grace Oh, Songa Lee, Maia Jasper, Lisa Liu, Steve Ferrone
Músicos Convidados:
Ian Astbury, Ozzy Osbourne, Fergie, Myles Kennedy, Chris Cornell, Andrew Stockdale, Adam Levine, Lemmy Kilmister, Dave Grohl, Duff McKagan, Kid Rock, M. Shadows, Rocco DeLuca, Iggy Pop, Koshi Inaba
Faixas:
01. Ghost (Slash/Astbury) - 3:34
02. Crucify the Dead (Slash/Osbourne/Churko) - 4:04
03. Beautiful Dangerous (Slash/Fergie) - 4:41
04. Back from Cali (Slash/Kennedy) - 3:35
05. Promise (Slash/Cornell) - 4:41
06. By the Sword (Slash/Stockdale) - 4:50
07. Gotten (Slash/Levine) - 5:05
08. Doctor Alibi (Slash/Kilmister) - 3:07
09. Watch This (Slash) - 3:46
10. I Hold On (Slash/Rock) - 4:10
11. Nothing to Say (Slash/Shadows) - 5:27
12. Starligh (Slash/Kennedy) - 5:25
13. Saint Is a Sinner Too (Slash/Deluca) - 3:28
14. We're All Gonna Die (Slash/Iggy Pop) - 4:30
Opinião do Blog:
Evidentemente, o guitarrista Slash dispensa maiores apresentações. Seu nome já estava na história quando lançou seu primeiro álbum solo, autointitulado, pois sua atuação foi decisiva para o sucesso do Guns ‘N Roses.
E nesta sua estreia, Slash esteve longe de tentar reinventar a roda. Ele apostou naquilo que sempre fez de melhor: um Hard Rock simples, agressivo e com boas melodias.
Seu tiro foi certeiro ao convidar um time incrível de vocalistas, oferecendo uma vasta gama de possibilidades para suas composições. Outro acerto foram os competentes músicos que o acompanham nos instrumentos, com direito a outros membros do Guns, garantindo um sentimento nostálgico para os fãs da lendária banda.
Tanto nos riffs quanto nos solos, Slash demonstra sua inegável categoria e é, de fato, o grande expoente do trabalho.
“Beautiful Dangerous” possui vocais de Fergie e isso traz uma atmosfera bem interessante, com um clima oitentista inegável. A pesada e instrumental “Whatch This” traz a guitarra de Slash feroz, enquanto “We're All Gonna Die” é um rock simples, com vocais de Iggy Pop, e bem cativante.
O peso praticamente metálico dá as caras na excelente “Crucify the Dead”, a qual lembra a carreira-solo do Madman. “Starlight” marca a parceria bem-sucedida parceria de Slash com Myles Kennedy, mas nossa preferida é para a rápida e visceral “Doctor Alibi”.
Em suma, se a estreia solo do Slash não vai mudar a vida de ninguém que o ouvir, ao menos uma diversão garantida para fãs de Hard Rock, com uma sonoridade simples, padrão, mas com nuances diferentes a cada canção, muito por conta dos convidados de peso que nela estão.









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