Humble é o autointitulado terceiro álbum de estúdios da banda britânica de mesmo nome. O lançamento oficial aconteceu em julho de 1970, pelo selo A&M. As gravações ocorreram no Plimpic Studios, em Londres, na Inglaterra. A produção ficou a cargo de Glyn Johns.
A história do Humble Pie começa em um momento particularmente fértil do rock britânico, no final da década de 1960. Em poucos anos, o cenário musical do Reino Unido havia passado por transformações profundas: a explosão da chamada British Invasion, a consolidação da psicodelia e, logo depois, o surgimento de uma geração de grupos que buscavam retornar às raízes do rock, do blues e do rhythm & blues. Nesse contexto, a formação do Humble Pie representou tanto a convergência de trajetórias já estabelecidas quanto um esforço consciente de seus integrantes para redefinir suas identidades artísticas. Entre 1969 e 1970, o grupo construiu rapidamente um catálogo inicial significativo, lançando três álbuns e consolidando uma estética que misturava folk, blues e hard rock.
O
encontro entre Steve Marriott e Peter Frampton
A
gênese da banda está intimamente ligada à amizade entre dois
músicos que, apesar da diferença de idade, compartilhavam
experiências semelhantes na indústria musical: Steve Marriott e
Peter Frampton. No final dos anos 1960, ambos haviam alcançado fama
precoce como líderes de grupos populares, mas também enfrentavam
frustrações criativas. Marriott era o carismático vocalista e
guitarrista do Small Faces, uma das bandas centrais do
movimento mod britânico, enquanto Frampton era o jovem astro do
grupo pop The Herd.
Apesar
do sucesso comercial, ambos eram frequentemente tratados pela
imprensa como “ídolos adolescentes”, um rótulo que não
refletia suas ambições musicais mais profundas. No final de 1968,
Marriott e Frampton desenvolveram uma amizade baseada justamente
nesse desejo de romper com a imagem fabricada pelo mercado e explorar
um som mais sério, ancorado no blues e no rock de raízes.
Inicialmente,
Marriott chegou a considerar a possibilidade de integrar Frampton aos
Small Faces como segundo guitarrista. Algumas apresentações
experimentais chegaram a ocorrer, e os dois músicos tocaram juntos
em sessões de gravação em Paris para o cantor francês Johnny
Hallyday. Entretanto, os outros integrantes do Small Faces
resistiram à ideia de ampliar a formação.
A
situação atingiu seu ponto de ruptura na virada de 1968 para 1969.
Durante um show no Alexandra Palace, em Londres, Marriott abandonou o
palco no meio da apresentação e anunciou sua saída da banda. Pouco
depois, convidou Frampton para formar um novo grupo com ele. Esse
momento marca, de fato, o nascimento do projeto que se tornaria o
Humble Pie.
A
formação de um “supergrupo”
A
nova banda foi completada com dois músicos vindos de outras
formações importantes da cena britânica. O baixista Greg Ridley
havia tocado no grupo Spooky Tooth, enquanto o baterista Jerry
Shirley — então com apenas 17 anos — vinha da banda The
Apostolic Intervention.
A
reunião desses quatro músicos levou a imprensa a rotular
imediatamente o Humble Pie como um supergroup, termo cada vez
mais utilizado na virada da década para designar bandas formadas por
integrantes já conhecidos de outros projetos. Curiosamente, o
próprio nome da banda tinha um tom irônico em relação a essa
percepção. A expressão inglesa “to eat humble pie” refere-se
ao ato de “engolir o orgulho” ou “descer do pedestal”, uma
espécie de autocrítica preventiva diante da atenção exagerada que
o grupo recebia antes mesmo de lançar seu primeiro disco.
As
primeiras sessões e o espírito coletivo
Nos
primeiros meses de 1969, o quarteto se refugiou em uma casa rural
pertencente a Marriott, em Essex, onde passou longos períodos
ensaiando e compondo. A convivência intensa ajudou a consolidar um
método de trabalho relativamente democrático, no qual tanto
Marriott quanto Frampton contribuíam com vocais, guitarras e
composições.
Esse
ambiente criativo gerou rapidamente material suficiente para um álbum
de estreia. A banda assinou contrato com a gravadora Immediate
Records, fundada pelo empresário e produtor Andrew Loog Oldham,
conhecido por seu trabalho com os The Rolling Stones.
O
primeiro álbum: As Safe as Yesterday Is (1969)
O
álbum de estreia, As Safe as Yesterday Is, foi lançado em
1969. Gravado em grande parte na casa de Marriott, o disco
apresentava um som eclético que refletia as múltiplas influências
do grupo: folk rock, blues elétrico, rock psicodélico e até
elementos de country.
O
single principal, “Natural Born Boogie”, tornou-se rapidamente um
sucesso nas paradas britânicas, alcançando o Top 5. O desempenho da
música ajudou a estabelecer o Humble Pie como uma nova força no
rock britânico.
Musicalmente,
o álbum ainda refletia um equilíbrio entre as sensibilidades de
Marriott e Frampton. Enquanto o primeiro trazia um vocal poderoso e
profundamente influenciado pelo rhythm & blues americano, o
segundo apresentava composições mais melódicas e introspectivas,
muitas vezes com forte presença de violões acústicos.
Town
and Country e o lado acústico
Ainda
em 1969, a banda lançou seu segundo álbum, Town and Country.
Diferentemente do debut, este trabalho explorava mais intensamente o
lado folk e acústico do grupo. Canções como “Take Me Back” e
“Home and Away”, escritas por Frampton, demonstravam uma
abordagem mais pastoral e intimista.
Esse
contraste estilístico refletia uma divisão estética dentro da
banda. Frampton inclinava-se para composições melódicas e arranjos
delicados, enquanto Marriott preferia um rock mais pesado e visceral.
Apesar dessas diferenças, o álbum revelou a versatilidade do Humble
Pie e ampliou seu repertório sonoro.
A crise da Immediate Records e a mudança de direção
No
final de 1969, a trajetória do grupo sofreu uma reviravolta
inesperada. A Immediate Records entrou em colapso financeiro,
deixando vários artistas da gravadora em situação incerta. O
Humble Pie precisou buscar rapidamente um novo contrato.
Foi
nesse contexto que o grupo assinou com a A&M Records e passou a
trabalhar com o produtor Glyn Johns, uma figura central na engenharia
de som do rock britânico e colaborador de artistas como Led
Zeppelin e The Who.
Além
disso, o grupo passou a ser gerenciado pelo empresário americano Dee
Anthony, que incentivou uma mudança significativa de direção
musical. Anthony acreditava que a banda deveria enfatizar um som mais
pesado e direto, capaz de competir com o emergente hard rock do
início da década de 1970.
Sessões de gravação
As gravações ocorreram em 1970 no Olympic Studios, em Londres, um dos estúdios mais importantes da cena britânica da época. O álbum foi produzido e engenheirado por Glyn Johns, uma figura central na engenharia de som do rock britânico e ajudou a moldar a sonoridade mais direta e pesada que a banda buscava naquele momento.
Composição
O álbum contém oito faixas, com composições distribuídas principalmente entre os integrantes do grupo, embora também inclua material de origem externa. O material revela claramente a dualidade criativa que marcava a banda naquele momento: de um lado, o blues-rock vigoroso impulsionado por Marriott; de outro, composições mais delicadas e introspectivas vindas de Frampton.
Arte da capa
Um
dos aspectos mais distintivos do álbum é sua arte gráfica. A capa
apresenta uma ilustração inspirada nas obras do artista britânico
Aubrey Beardsley, figura importante do movimento estético do final
do século XIX. Por causa dessa referência, o disco ficou conhecido
entre fãs e colecionadores como “Beardsley Album”.
Vamos às Faixas:
LIVE WITH ME
Com peso, intensidade e alguma influência Prog, a canção se alterna com algumas passagens mais intimistas. Incrível.
Liricamente, a canção aborda o desejo físico e a atração direta entre duas pessoas, tema recorrente no blues e no rock de inspiração soul.
ONLY A ROACH
“Only a Roach” flerta com a country music, tendo um clima mais suave e mais bucólico.
A letra gira em torno de uma situação aparentemente banal — um personagem que encontra apenas uma “roach”, gíria que pode significar a ponta de um cigarro de maconha já consumido. O tom é leve e irônico, refletindo o humor típico da contracultura do final dos anos 1960.
ONE EYED TROUSER SNAKE RUMBA
“One Eyed Trouser Snake” é hard rock na veia, com a presença das guitarras mais notável.
“One Eyed Trouser Snake” é uma expressão humorística do inglês britânico que funciona como metáfora sexual. A letra segue essa linha de duplo sentido, típica do blues e do rock de tradição boogie. O narrador utiliza metáforas sugestivas para descrever desejo e sedução, mantendo o tom jocoso que permeia a canção.
EARTH AND WATER SONG
Um folk rock muito sentimental, uma música em que Peter Frampton começava a identificar a sonoridade que o levaria ao sucesso na metade final daquela década.
A letra utiliza imagens naturais — terra, água e elementos da paisagem — para explorar temas de harmonia e reflexão interior. O texto sugere uma busca por equilíbrio emocional e espiritual.
I’M READY
Uma versão bem agressiva para “I’m Ready”, de Willie Dixon” transforma o original em um hard/blues rock vigoroso.
“I’m Ready” é uma composição clássica de Willie Dixon, um dos maiores compositores do blues de Chicago. A letra segue a tradição desse estilo: um narrador que afirma estar pronto para o amor, com confiança e certo tom de bravata masculina.
THEME FROM SKINT (SEE YOU LATER LIQUIDATOR)
Em “Theme from Skint (See You Later Liquidator”, o grupo retorna ao folk rock inspiradíssimo, contando com uma passagem eletrificada ao final.
Esta é uma das letras mais curiosas do disco. Escrita por Steve Marriott, a canção faz referência direta ao colapso financeiro da Immediate Records, gravadora que havia lançado os dois primeiros álbuns da banda. A palavra “skint” é uma gíria britânica que significa “sem dinheiro”, e o subtítulo “See You Later Liquidator” alude ironicamente ao processo de liquidação da empresa.
RED LIGHT MAMMA, RED HOT!
“Red Light Mama, Red Hot!” é uma faixa impressionante, contando com riffs e solos impressionantes de Frampton, um Hard Rock bastante intenso com ótimos vocais.
A expressão “red light” remete aos distritos de prostituição, e a letra descreve uma mulher sensual e independente que domina o imaginário do narrador.
SUCKING ON THE SWEET VINE
O disco é encerrado com outra faixa introspectiva, “Sucking on the Sweet Vine”, na qual a steel guitar de BJ Cole traz um sabor especial.
A letra sugere a busca por satisfação e liberdade, refletindo o espírito hedonista que permeava grande parte da música rock no início da década de 1970.
Considerações Finais
Diferentemente do single de estreia “Natural Born Bugie”, que havia alcançado o 4º lugar no UK Singles Chart em 1969, o álbum Humble Pie (1970) teve impacto comercial relativamente modesto.
Fontes
discográficas indicam que o disco não alcançou posições
relevantes nas principais paradas britânicas ou norte-americanas,
situação relativamente comum para álbuns da banda nesse período
inicial.
Publicações britânicas da época, como Melody Maker e New Musical Express, reconheceram a intensidade vocal de Marriott e a habilidade instrumental da banda, mas observaram que o álbum parecia ainda em busca de uma identidade definitiva.
O site AllMusic descreve o álbum como um trabalho de transição, destacando que ele antecipa a direção mais pesada que a banda adotaria posteriormente. Segundo a análise, o disco já indica a mudança para um som mais robusto e orientado ao blues, incentivada pelo novo empresário americano Dee Anthony.
Depois do lançamento do disco, o Humble Pie passou grande parte de 1970 em turnê, especialmente nos Estados Unidos. Naquele momento, embora os álbuns ainda não tivessem grande desempenho nas paradas, a banda começava a construir uma reputação sólida como uma das atrações ao vivo mais energéticas do rock britânico.
Sob
a orientação de Dee Anthony, o grupo abandonou gradualmente o
repertório acústico que havia marcado o álbum anterior, Town
and Country (1969), e passou a enfatizar apresentações mais
pesadas, centradas no blues-rock e em improvisações extensas de
palco. Esse direcionamento foi decisivo para consolidar a imagem do
grupo junto ao público americano.
Um episódio curioso dessa turnê ocorreu em dezembro de 1970, durante apresentações no Fillmore West, em San Francisco. Ali, Peter Frampton enfrentou problemas técnicos com sua guitarra Gibson semiacústica devido ao volume elevado do palco. Após o show, um fã chamado Mark Mariana emprestou ao guitarrista uma Gibson Les Paul Custom de 1954, instrumento que Frampton adotaria como sua guitarra principal durante muitos anos.
No início de 1971, o Humble Pie voltou ao estúdio para gravar seu quarto disco, Rock On, novamente com produção de Glyn Johns.
Formação:
Steve Marriott – Vocais (1-3, 5-7), Guitarra (1-3, 5-7), Piano Wurlitzer (1, 4, 8), Órgão (4), Bateria (6), Gaita (7)
Peter Frampton – Vocais (1-7), Órgão (1), Percussão (2), Guitarra (3-8)
Greg Ridley – Baixo (todas as faixas), Vocais (1-3, 5-8), Guitarra (8)
Jerry Shirley – Bateria (1, 3-5, 7, 8), Piano (2, 6), Vocal (2), Percussão (6, 7)
Músicos adicionais:
BJ Cole – guitarra pedal steel (2, 6, 8)
Willie Wilson – bateria (2)
Faixas:
01. Live With Me – (Humble Pie) – 7:55
02. Only a Roach – (Shirley) – 2:49
03. One Eyed Trouser Snake Rumba – (Humble Pie) – 2:51
04. Earth and Water Song – (Frampton) – 6:18
05. I'm Ready – (Willie Dixon) – 4:59
06. Theme from Skint (See You Later Liquidator) – (Marriott) – 5:43
07. Red Light Mamma, Red Hot! – (Humble Pie) – 6:16
08. Sucking on the Sweet Vine – (Ridley) – 5:46
Opinião do Blog:
É com pesar que afirmo que o Humble Pie, nos dias atuais, seja relegado a um segundo plano entre as bandas do Hard setentista e seu terceiro e autointitulado álbum seja, ainda menos, reconhecido.
Aqui vemos a banda transicionar sua sonoridade para se voltar mais ao Hard Rock, ganhando peso, intensidade e muito vigor. Não que abandone suas características mais suaves, mas elas começaram a perder espaço.
Com músicos de primeira linha, é claro que o resultado é especial. Steve Marriott é um frontman de primeira e um hábil compositor – e afiado vocalista.
Peter Frampton rouba a cena com seus riffs e solos incríveis e se sai excelente quando assume os vocais. Sua sensibilidade melódica já impressionava neste disco.
O Hard Rock é exaltado em faixas diretas e intensas como “One Eyed Trouser Snake Rumba” e na versão para “I'm Ready” de Willie Dixon. O mesmo pode ser dito de “Red Light Mamma, Red Hot!”, possivelmente minha preferida no disco.
O Folk Rock encontra seu espaço na belíssima “Earth and Water Song” e na sóbria “Only a Roach”. E destacamos a fusão de Hard e Prog na ótima faixa de abertura, “Live With Me”.
Enfim, incrivelmente Humble Pie não é o melhor álbum da banda de mesmo nome, mas já trazia o grupo encontrando sua faceta mais proeminente, além de apresentar o talento do excepcional Peter Frampton. Álbum que merece ser resgatado.


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