Know Your Enemy é o terceiro álbum de estúdios da banda norte-americana Laaz Rockit, lançado originalmente em 16 de setembro de 1987, através dos selos Enigma/Roadrunner. A produção ficou a cargo de Roy M. Rowland.
A história da Lȧȧz Rockit é um retrato bastante representativo da chamada segunda linha do thrash metal norte-americano dos anos 1980. Embora jamais tenha alcançado a projeção comercial de contemporâneos como Metallica, Slayer ou Megadeth, o grupo conquistou enorme respeito entre músicos, críticos e aficionados pelo gênero graças à consistência de sua discografia e à evolução artística demonstrada em poucos anos. Até o lançamento de Know Your Enemy, em 1987, a banda percorreu um caminho que ilustra tanto a rápida transformação do heavy metal norte-americano quanto a consolidação da histórica cena da Bay Area de São Francisco.
As
origens da banda remontam a 1981, quando o vocalista Michael Coons e
o guitarrista Aaron Jellum fundaram um grupo chamado Depth Charge,
inicialmente em Berkeley, na Califórnia. Ambos eram extremamente
jovens — Coons ainda estava concluindo o ensino médio —, mas
compartilhavam o interesse por um heavy metal mais agressivo do que
aquele que dominava as rádios americanas. O cenário musical vivia
um momento de transição: a Nova Onda do Heavy Metal Britânico
ainda exercia enorme influência, enquanto grupos como Motörhead,
Venom e os primeiros trabalhos do Metallica começavam
a redefinir os limites entre velocidade, peso e técnica.
Após
diversas mudanças na formação inicial, a banda encontrou maior
estabilidade com a chegada do guitarrista Phil Kettner e do baterista
Victor Agnello. Em 1983, o baixista Willy Lange completou a formação
clássica que gravaria os primeiros discos. Nesse período, o nome
Depth Charge foi abandonado. Surgia então Lȧȧz Rockit, um
trocadilho inspirado no sistema de armamento portátil LAWS ("Light
Anti-tank Weapons System"), mencionado no filme The Enforcer,
estrelado por Clint Eastwood. A grafia incomum procurava transmitir
justamente a ideia de explosão, impacto e energia, características
que o grupo desejava associar à sua música e às apresentações ao
vivo.
Ainda
em 1983, a banda lançou a demo Prelude to Death, registro que
chamou atenção dentro do circuito underground da Califórnia.
Embora bastante rudimentar em termos de produção, a fita já
revelava uma sonoridade que transitava entre o heavy metal
tradicional e aquilo que logo seria identificado como speed metal.
Era um momento em que praticamente toda a Bay Area fervilhava de
novas bandas, e a competição por espaço era intensa. Clubes como o
Ruthie's Inn tornavam-se pontos de encontro para músicos e fãs,
ajudando a formar uma comunidade extremamente fértil para o
nascimento do thrash metal.
O
álbum de estreia, City's Gonna Burn (1984), refletia
exatamente essa fase de transição. Musicalmente, ainda havia forte
presença do heavy metal clássico e do power metal americano, mas
riffs mais velozes, bateria acelerada e uma abordagem vocal agressiva
indicavam que a banda caminhava em direção ao thrash. A produção
relativamente modesta não escondia a competência instrumental,
especialmente da dupla de guitarras formada por Aaron Jellum e Phil
Kettner, cujo diálogo entre bases pesadas e solos melódicos se
tornaria uma das marcas registradas do grupo.
No
ano seguinte veio No Stranger to Danger (1985), um disco
frequentemente visto como uma etapa intermediária na evolução do
Lȧȧz Rockit. Embora apresentasse uma execução mais segura
e uma produção superior à do debut, o álbum ainda dividia espaço
entre influências do heavy metal tradicional e os elementos mais
extremos que começavam a dominar a Bay Area. Retrospectivamente,
muitos críticos consideram esse trabalho menos impactante que os
álbuns seguintes, mas ele foi fundamental para consolidar a
reputação do grupo como excelente atração ao vivo.
A
importância do Lȧȧz Rockit durante esse período não pode
ser medida apenas por seus discos. A banda tornou-se presença
constante em shows ao lado de praticamente todos os nomes relevantes
da cena norte-americana. Dividiu palco com Metallica, Slayer,
Megadeth, Anthrax, Exodus, Dark Angel,
Suicidal Tendencies, Armored Saint e diversos outros
grupos que posteriormente se tornariam referências absolutas do
metal pesado. Essa intensa atividade ao vivo fortaleceu sua reputação
como uma das bandas mais competentes da Bay Area, ainda que o sucesso
comercial permanecesse limitado.
Em
1986 ocorreu outro passo importante. A banda realizou sua primeira
turnê europeia como grupo de apoio do Motörhead. A
experiência teve enorme impacto artístico. O contato com públicos
europeus mais receptivos ao metal extremo reforçou a decisão de
abandonar definitivamente os resquícios do heavy metal tradicional
em favor de uma abordagem muito mais agressiva. Diversos relatos
posteriores dos integrantes apontam essa viagem como um momento
decisivo para a identidade musical que seria apresentada no álbum
seguinte.
Esse
amadurecimento culminou em Know Your Enemy, lançado em
setembro de 1987 pelos selos Roadrunner e Enigma. Produzido por Roy
M. Rowland nos Prairie Sun Studios, o disco representa uma clara
mudança estética em relação aos trabalhos anteriores.
Composição
Os créditos oficiais apenas informam que as músicas pertencem à banda, sem detalhar o processo criativo faixa a faixa. Também não existem entrevistas conhecidas em que Michael Coons, Aaron Jellum ou Phil Kettner descrevam a composição de cada música ou expliquem a inspiração por trás das letras.
Gravação
A
informação oficial disponível é bastante limitada. As fontes
convergem apenas em afirmar que o álbum foi gravado ao longo de 1987
no Prairie Sun Recorders, em Cotati, Califórnia. Nenhuma fonte
primária (encarte original, entrevistas da época ou registros do
estúdio) publica as datas exatas de início e término das sessões.
Produção
A
produção ficou a cargo de Roy M. Rowland, profissional bastante
ligado ao Prairie Sun Recorders. Além de produzir, Rowland também
foi o engenheiro de gravação, enquanto Kay Arbuckle atuou como
engenheira assistente.
A
masterização foi realizada por Eddy Schreyer, no Capitol Records
Mastering Lab, um dos nomes mais respeitados da masterização do
heavy metal na década de 1980.
Capa
A documentação oficial identifica os responsáveis, mas praticamente não há entrevistas explicando o conceito visual.
Os
créditos informam:
Jeff Sadowski — conceito do álbum e arte (Artwork)
Jeff Weller — conceito do álbum e produtor executivo
Patrick Pending — direção de arte
Fotografias de Robert Janover, Keith Madigan e Neil Zlozower.
DEMOLITION
Construída sobre guitarras pesadas, efeitos de explosões e uma atmosfera militarizada, a pequena instrumental “Demolition” prepara o ouvinte para os temas centrais do álbum: guerra, violência, destruição e paranoia nuclear.
LAST BREATH
“Last Breathe” já aposta no chamado speed metal, sendo de andamento muito acelerado e vocais impactantes de Coons.
A letra trabalha sentimentos de medo, sobrevivência e inevitabilidade do fim, sem recorrer ao sobrenatural, privilegiando uma abordagem bastante física e psicológica.
EUROSHIMA
Baseada em um bom riff, “Euroshima” é um thrash com pitada de metal tradicional, sendo uma das melhores do disco.
O próprio título une as palavras Europe e Hiroshima, sugerindo um cenário de guerra nuclear em território europeu durante o auge da Guerra Fria. A letra descreve uma humanidade caminhando para a autodestruição, refletindo o temor bastante comum na segunda metade dos anos 1980 diante da corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética.
MOST DANGEROUS GAME
Combinando momentos mais Heavy tradicional com um poderoso Thrash, “Most Dangerous Game” é uma faixa absolutamente poderosa.
Sua inspiração é amplamente reconhecida como derivada do conto clássico "The Most Dangerous Game", de Richard Connell, publicado em 1924.
SHOT TO HELL
A seção rítmica trabalha muito bem na infernal “Shot to Hell”, oferecendo ainda mais peso à canção.
A letra descreve personagens lançados em situações extremas de violência e destruição, utilizando a expressão "shot to hell" como metáfora para uma existência completamente devastada.
SAY GOODBYE M. F.
“Say Goodbye M. F.” possui uma pegada mais elaborada, parecendo ser influenciada pelo trabalho do Metallica.
Apesar do título provocativo ("M.F." corresponde à abreviação de um conhecido palavrão em inglês), a música não se resume à agressividade verbal. A letra trata de rompimento definitivo com indivíduos considerados falsos, manipuladores ou traidores, funcionando quase como um manifesto de independência pessoal.
SELF DESTRUCT
“Self Destruct” é um Thrash Metal baseado em uma riferama infernal, com vocais bem agressivos de Michael Coons, sendo uma das melhores do trabalho.
Outra composição fortemente influenciada pelo clima político da Guerra Fria. A letra aborda o comportamento autodestrutivo da humanidade, especialmente através da corrida armamentista e da incapacidade das nações em interromper ciclos de violência.
MEANS TO AN END
Outra vez com boas doses de Heavy Metal tradicional, “Means to an End” é uma das mais incríveis composições do grupo.
A letra gira em torno da ideia de utilizar qualquer recurso para atingir determinado objetivo.
I’M ELECTRIC
“I’m Electric” é uma versão bem agressiva para a canção do Saxon, originalmente lançada no disco Rock the Nations.
MAD AXE ATTACK
Instrumental, “Mad Axe Attack” funciona como vitrine para a dupla de guitarristas Aaron Jellum e Phil Kettner, privilegiando harmonizações, solos rápidos e grande virtuosismo técnico.
SHIT’S UGLY
“Shit’s Ugly” mantém a proposta instrumental, mas apresenta uma atmosfera mais descontraída.
Considerações Finais
Ao contrário de muitos discos contemporâneos lançados por bandas como Metallica, Anthrax ou Megadeth, Know Your Enemy não entrou em nenhuma parada nacional conhecida.
Na época, observou-se que a banda havia praticamente abandonado as influências mais tradicionais do heavy metal, presentes em City's Gonna Burn (1984) e No Stranger to Danger (1985), adotando definitivamente uma sonoridade ligada ao thrash metal da Bay Area. Essa mudança foi vista como um passo artístico importante.
Willy Lange, em primeiro plano
Independentemente das diferenças de avaliação, existe hoje um consenso bastante claro entre jornalistas especializados e veículos dedicados ao heavy metal: Know Your Enemy representa a verdadeira transformação do Lȧȧz Rockit em uma banda de thrash metal. O álbum é visto como um elo entre o heavy metal tradicional dos dois primeiros discos e o thrash mais técnico e agressivo que culminaria em Annihilation Principle (1989).
"Euroshima",
"Most Dangerous Game", "Last Breath" e "Self
Destruct" são frequentemente apontadas como as melhores
composições do trabalho. A maior crítica recorrente recai sobre os
dois instrumentais finais, considerados dispensáveis por parte da
imprensa especializada.
Após o lançamento do álbum em 16 de setembro de 1987, a banda iniciou uma intensa agenda de apresentações nos Estados Unidos e na Europa para promover o disco. Diferentemente da excursão europeia de 1986, quando atuou como banda de abertura do Motörhead, desta vez o Lȧȧz Rockit já chegava com uma identidade musical consolidada e um repertório fortemente baseado no novo álbum.
O principal documento dessa fase é European Meltdown, lançado em 1988. Ao contrário de um álbum ao vivo convencional gravado em uma única noite, trata-se de um EP registrando apresentações da turnê europeia.
Formação:
Michael Coons – Vocal
Aaron Jellum – Guitarras
Phil Kettner – Guitarras
Willy Lange – Baixo
Victor Agnello – Bateria
Músicos adicionais:
Scott Singer – Teclados, Programação
Faixas:
01. Demolition - 1:14
02. Last Breath - 4:37
03. Euroshima - 3:52
04. Most Dangerous Game - 6:10
05. Shot to Hell - 3:57
06. Say Goodbye M.F. - 4:14
07. Self Destruct - 5:37
08. Means to an End - 4:47
09. I'm Electric - 3:03
10. Mad Axe Attack (Instrumental) - 2:13
11. Shit's Ugly (Instrumental) - 1:47
Opinião do Blog:
Certamente, o conhecimento sobre o Laaz Rockit é mais restirto a fãs de Heavy Metal, especialmente a aqueles que se aprofundam no Thrash Metal norte-americano, como é o meu caso.
A realidade, porém, é que Know Your Enemy é o primeiro verdadeiro esforço do grupo abraçando mais explicitamente o Thrash Metal. Não que a banda não o fizesse antes, mas neste terceiro disco a vertente Thrash está mais aflorada.
O ponto alto aqui, neste quesito de Thrash Metal, é o aporte feito pela dupla de guitarristas Aaron Jellum e Phil Kettner, com uma rifferama infernal acompanhada por uma seção rítmica bem competente.
Os vocais de Michael Coons também são um ponto forte do grupo, combinando bem com a proposta sonora. Nos momentos de calmaria, a sua categoria como cantor fica mais evidente.
“Euroshima”, “Shot to Hell” e a versão para “I'm Electric” são porradas Thrash que grandes bandas do gênero assinariam sem nenhum constrangimento. “Most Dangerous Game” e “Means to an End” abraçam mais o Heavy Metal tradicional e demonstram que o grupo conseguiria, facilmente, caminhar por outros territórios com a mesma eficiência.
Mas escolhemos a matadora “Self Destruct” como nossa preferida, Thrash Metal com T maiúsculo.
Enfim, Know Your Enemy é um ótimo álbum de Thrash Metal, muito menos falado e conhecido que deveria, mas que penso que fãs desta vertente do Metal deveriam procurá-lo.






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