Head On é o segundo álbum de estúdios da carreira da banda britânica Samson. Seu lançamento oficial aconteceu em 27 de junho de 1980, através dos selos GEM/RCA. As gravações ocorreram no Kingsway Recorders, em Londres, na Inglaterra. A produção ficou a cargo da própria banda.
Quando se fala na chamada New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), os nomes mais lembrados costumam ser Iron Maiden, Saxon e Def Leppard. Entretanto, existe uma série de grupos fundamentais para a consolidação daquele movimento que acabaram ocupando um espaço mais cultuado do que propriamente massivo. Entre eles, poucos possuem uma trajetória tão emblemática quanto a do Samson. Surgida na efervescente cena londrina do fim dos anos 1970, a banda ajudou a moldar a estética e a sonoridade do heavy metal britânico moderno, funcionando inclusive como plataforma inicial para um jovem cantor chamado Bruce Dickinson — ainda creditado como “Bruce Bruce” — antes de sua entrada definitiva no Iron Maiden.
Origens
A
gênese do Samson está diretamente ligada ao guitarrista e
compositor Paul Samson. Nascido em Norwich, Paul havia passado por
diferentes projetos durante a década de 1970, incluindo grupos de
blues rock e hard rock profundamente influenciados por nomes como
Deep Purple, Free e Led Zeppelin. Como muitos
músicos britânicos daquele período, ele viveu a transição entre
o hard rock setentista e a explosão de agressividade que começava a
caracterizar o heavy metal nascente.
O
Samson foi oficialmente formado em Londres em 1977. A primeira
formação relevante reunia Paul Samson na guitarra e voz, Chris
Aylmer no baixo e Clive Burr na bateria. Burr posteriormente se
tornaria conhecido mundialmente ao integrar o Iron Maiden em
discos clássicos como The Number of the Beast. A própria
circulação de músicos entre bandas da NWOBHM ilustra como aquela
cena funcionava quase como uma comunidade criativa compartilhada.
Desde
o início, o Samson procurou diferenciar-se pela combinação
entre riffs pesados e um senso melódico bastante britânico. Ao
contrário da abordagem mais sombria do Black Sabbath ou da
velocidade quase punk do Motörhead, o grupo apostava numa
sonoridade que preservava elementos do hard rock tradicional, mas
executados com energia muito mais agressiva. Esse equilíbrio se
tornaria uma das marcas centrais da NWOBHM.
Primeiros anos e Thunderstick
Nos
primeiros anos, a banda circulou intensamente pelos pubs e pequenos
clubes londrinos. Era um circuito extremamente competitivo, mas
também fértil. Casas como o Music Machine e o Marquee Club
tornaram-se verdadeiros laboratórios para grupos emergentes. O
Samson conquistou reputação especialmente pela força de
suas apresentações ao vivo e pela presença de palco pouco
convencional de seu baterista substituto, Barry “Thunderstick”
Purkis, que assumiu a bateria após a saída de Clive
Burr.
Thunderstick transformou-se rapidamente em uma
figura icônica da cena. Aparecia mascarado, vestido em couro preto e
frequentemente tocava dentro de uma espécie de gaiola metálica no
palco. Em retrospecto, sua estética antecipava vários elementos
teatrais posteriormente explorados por bandas do metal oitentista. O
visual extravagante contrastava com o caráter ainda cru e
subterrâneo da NWOBHM, criando uma identidade visual imediatamente
reconhecível para o Samson.
A estreia e Bruce Dickinson
Em
1979, a banda lançou seu álbum de estreia, Survivors, pela
pequena gravadora Lazer Records. O disco ainda trazia Paul Samson
dividindo funções vocais, já que o grupo não possuía um frontman
definitivo durante parte das gravações. Musicalmente, Survivors
apresentava um heavy metal direto e sem polimento excessivo,
sustentado sobretudo pelos riffs cortantes de Paul Samson e pela
bateria inventiva de Thunderstick. Embora o álbum não tenha obtido
grande repercussão comercial, ele chamou atenção dentro do
circuito underground britânico.
Foi
justamente nesse período que surgiu a peça decisiva para a
consolidação da banda: a entrada de Bruce Dickinson. À época,
Dickinson cantava no grupo Shots e era conhecido por sua potência
vocal incomum. Segundo relatos posteriores do próprio cantor, o
Samson enxergou nele a possibilidade de expandir sua
sonoridade para algo mais grandioso e dramático. Dickinson entrou na
banda no fim de 1979, adotando o apelido “Bruce Bruce”, numa
mistura de irreverência punk e teatralidade tipicamente britânica.
A
chegada do novo vocalista representou uma mudança importante. Bruce
possuía alcance vocal impressionante, além de uma presença cênica
muito mais agressiva do que a habitual no hard rock da época. O
Samson passou então a soar mais épico, mais rápido e mais
ambicioso. Diversos críticos e historiadores da NWOBHM consideram
esse momento como a verdadeira definição artística da banda.
O disco
Em
1980, o grupo lançou Head On, seu segundo álbum e o primeiro
com Bruce Dickinson nos vocais. O disco foi gravado entre abril e
maio daquele ano no Kingsway Recorders, em Londres, sendo lançado
oficialmente em julho de 1980 pela GEM/RCA.
Composição
Do ponto de vista da composição, Head On representa uma fase de transição extremamente fértil para a banda. Diversas fontes retrospectivas indicam que boa parte do material foi desenvolvida rapidamente após a chegada de Dickinson ao grupo. O portal Metal Academy, especializado em heavy metal tradicional e NWOBHM, menciona que a maior parte das músicas teria sido escrita nos primeiros dias da permanência do cantor na banda.
Os créditos de composição do álbum mostram um funcionamento relativamente coletivo da banda naquele momento. Quase todas as músicas são assinadas por Bruce Dickinson, Paul Samson, Chris Aylmer e Thunderstick. A exceção mais famosa é “Thunderburst”, que também credita Steve Harris.
Essa
composição acabou se tornando um pequeno episódio lendário da
NWOBHM. A música derivava de ideias surgidas quando Thunderstick
passou brevemente pelo Iron Maiden em 1977. Pouco depois, o
Maiden reutilizou parte da estrutura musical em “The Ides of
March”, abertura instrumental de Killers (1981). Segundo
relatos posteriores, isso gerou irritação entre integrantes do
Samson, sobretudo porque Steve Harris acabou assinando sozinho
a versão do Maiden.
Gravação
As gravações ocorreram no Kingsway Recorders, estúdio londrino utilizado por vários artistas do rock britânico naquele período. A engenharia de som ficou a cargo de Paul “Chas” Watkins e Bob Broglia, enquanto as remixagens foram realizadas posteriormente no Trident Studios por Tony Platt e Craig Milliner.
Produção
Tony Platt merece atenção especial nesse contexto. Embora ainda não fosse o produtor renomado que se tornaria posteriormente, ele já começava a construir reputação no hard rock britânico e acabaria associado a trabalhos importantes com AC/DC e outros nomes do rock pesado. Sua participação nas remixagens ajudou a dar maior impacto ao material, especialmente às guitarras e aos vocais. Ainda assim, a sonoridade do álbum preserva certa crueza típica da NWOBHM inicial. Críticos posteriores frequentemente observam que a mixagem privilegia excessivamente a bateria de Thunderstick e deixa as guitarras relativamente “finas” em comparação com padrões posteriores do heavy metal dos anos 1980.
Capa
Visualmente, Head On também se tornou um marco importante da iconografia da NWOBHM. A capa traz Thunderstick mascarado e vestido com couro preto, segurando uma foice em uma composição quase teatral. A fotografia da capa foi realizada por Simon Fowler, enquanto o design ficou a cargo do coletivo Hothouse.
HARD TIMES
“Hard Times”, a faixa de abertura do disco já traz Dickinson soltando a voz em um Heavy Metal simples, mas bem eficaz.
Liricamente, “Hard Times” trabalha um tema recorrente do hard rock britânico do período: dificuldades econômicas, pressão cotidiana e resistência individual. O tom é urbano e direto, refletindo o clima social da Grã-Bretanha do fim dos anos 1970, marcada por desemprego, greves e tensão econômica.
Foi um single do álbum, sem maiores repercussões.
TAKE IT LIKE A MAN
“Take It Like a Man” possui um clima de urgência, embora sua sonoridade seja bem influenciada pelo hard setentista.
A letra explora masculinidade, orgulho e resistência emocional — temas bastante comuns no heavy metal da época. O refrão sugere enfrentamento direto das adversidades, dentro daquela estética quase “operária” da NWOBHM.
VICE VERSA
“Vice Versa” é uma canção mais cadenciada, com bela atuação de Bruce e de Samson nas guitarras.
Liricamente, a canção parece abordar relações humanas marcadas por manipulação e ambiguidade emocional. O próprio título sugere inversão de papéis e instabilidade psicológica. Embora a letra não seja excessivamente complexa, ela demonstra tentativa de ir além das fórmulas simplistas do hard rock tradicional.
MANWATCHER
“Manwatcher” traz a bateria de Thunderstick frenética, sendo o ponto alto da canção.
A letra trabalha observação, perseguição e vigilância, aproximando-se vagamente de temas de ficção científica e suspense psicológico.
TOO CLOSE TO ROCK
A pegada com uma linha quase invisível entre hard rock e heavy metal continua em “Too Rock to Close”, na qual o solo de Paul Samson se destaca.
A letra parece tratar dos excessos, riscos e sedução da vida musical, em tom parcialmente autobiográfico.
THUNDERBUST
Instrumental curta e extremamente importante historicamente. A faixa nasceu parcialmente de ideias musicais desenvolvidas quando Thunderstick passou rapidamente pelo Iron Maiden em 1977.
HAMMERHEAD
“Hammerhead” traz fortes influências do Judas Priest setentista e bons vocais de Bruce.
Liricamente, a faixa trabalha confrontação física e psicológica, usando imagens violentas e diretas típicas do heavy metal inicial. Há menos sofisticação narrativa aqui; o objetivo parece ser impacto imediato.
HUNTED
“Hunted” oscila entre passagens mais calmas e outras mais pesadas, sendo interessante.
A letra retrata alguém acuado, observado ou perseguido, reforçando o tom paranoico presente em outras faixas do disco.
TAKE ME TO YOUR LEADER
“Take Me to Your Leader” é uma típica música da NWOBHM, acelerada, dinâmica e com peso, sendo uma das melhores do disco.
O título remete ao clichê clássico associado a alienígenas em filmes B e cultura pop. Entretanto, a música não funciona apenas como humor sci-fi. Existe certo sarcasmo direcionado à autoridade, liderança e submissão coletiva. Esse tipo de ironia britânica aparece com frequência em bandas da NWOBHM.
WALKING OUT ON YOU
A música que encerra o disco é também a mais longa, mas nela já é audível as influências progressivas que Dickinson sempre teve.
A letra aborda rompimento, abandono e ressentimento afetivo. Dickinson explora nuances interpretativas mais amplas, alternando melancolia e explosões vocais intensas.
Considerações Finais
Head On, foi lançado em julho de 1980 e alcançou a posição 34 na parada britânica de discos.
A crítica especializada britânica de 1980 enxergou Head On principalmente como um avanço importante em relação ao debut Survivors (1979). Diversas retrospectivas posteriores citam que a entrada de Bruce Dickinson deu ao grupo uma dimensão mais profissional, mais teatral e mais competitiva dentro da NWOBHM.
Com o passar das décadas, Head On passou por significativa reavaliação crítica. Atualmente, o disco costuma ser tratado como uma obra importante — ainda que não essencial — da primeira geração da NWOBHM. O banco de dados crítico Album of the Year compila avaliação positiva derivada do AllMusic, indicando reconhecimento tardio do álbum como registro relevante do heavy metal britânico inicial.
A turnê de divulgação de Head On marcou um dos períodos mais turbulentos — e, ao mesmo tempo, decisivos — da história do Samson. Entretanto, apesar do crescimento artístico e da atenção crescente da imprensa especializada, a estrutura empresarial do grupo estava longe de acompanhar sua evolução musical. As próprias biografias da banda em inglês e espanhol destacam que a turnê de suporte ao álbum foi “cheia de controvérsias e problemas legais”, principalmente por conflitos envolvendo empresariamento e organização financeira.
Ainda
assim, o Samson passou boa parte de 1980 na estrada. A banda
circulou intensamente pelo circuito britânico da NWOBHM, tocando em
teatros, clubes e festivais, num período em que o movimento começava
finalmente a receber atenção nacional da imprensa musical inglesa.
O grupo ganhou reputação especialmente pela energia das
apresentações ao vivo e pelo contraste visual entre o vocalista
Bruce Dickinson — ainda creditado como “Bruce Bruce” — e o
baterista mascarado Thunderstick.
Ao mesmo tempo, os problemas administrativos começavam a desgastar seriamente o grupo. Segundo diferentes relatos posteriores, o Samson enfrentava dificuldades relacionadas a contratos, pagamentos e gestão de carreira justamente quando começava a atingir um patamar mais competitivo dentro da NWOBHM. Isso acabaria sendo determinante para os acontecimentos seguintes.
Algumas faixas do álbum Survivors (1979), originalmente gravadas antes da entrada de Dickinson, tiveram os vocais regravados com Bruce. Essas versões permaneceram arquivadas por anos até serem recuperadas em relançamentos posteriores nos anos 1990.
A turnê continuou até o final do ano, quando o Samson entrou em estúdio para gravar seu terceiro álbum, Shock Tactics.
Formação:
"Bruce Bruce" Dickinson – Vocal
Paul Samson – Guitarra, BV, Mixagem
Chris Aylmer – Baixo
Thunderstick – Bateria, BV
Faixas:
Todas as faixas de Bruce Dickinson, Paul Samson, Chris Aylmer e Thunderstick, exceto "Thunderburst" de Dickinson, Samson, Aylmer, Thunderstick e Steve Harris
01. Hard Times - 4:42
02. Take It Like a Man - 4:09
03. Vice Versa - 4:44
04. Manwatcher - 3:37
05. Too Close to Rock - 3:36
06. Thunderburst (instrumental) - 2:06
07. Hammerhead - 3:40
08. Hunted - 3:00
09. Take Me to Your Leader - 3:49
10. Walking Out on You - 6:36
Opinião do Blog:
Não há dúvidas de que a adição de Bruce Dickinson, um vocalista de primeira linha do Heavy Metal, trouxe o Samson a um patamar muito mais alto, bem como sua saída para o Iron Maiden praticamente condenou as chances do grupo.
Embora Head On seja um trabalho de bom nível, ele também explica o porquê de que o grupo nunca teve o mesmo nível de reconhecimento de outras bandas da NWOBHM.
As composições são consideravelmente simples, cruas e bem diretas, e as letras chegam a ser inocentes de tão pueris. Mas, mesmo assim, trata-se de um disco bastante divertido.
“Take It Like a Man” é bem curiosa, com um andamento veloz e a guitarra de Samson afiada. “Too Close to Rock” se baseia em um bom riff e “Take Me to Your Leader” é agressiva e direta, com os vocais de Bruce bem agressivos. E “Thunderburst” é Maideniana, literalmente.
Destacamos a excêntrica e divertida “Vice Versa” e, claro, nossa preferida “Walking Out on You”, com seus toques progressivos bem exaltados.
Enfim, Head Out não mudará a vida de ninguém que o ouvir, mas pode ser uma indicação divertida para fãs da NWOBHM e, também, vale pela curiosidade de se ouvir Bruce Dickinson antes de entrar no Iron Maiden.







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