8 de junho de 2026

SUPERTRAMP - CRIME OF THE CENTURY (1974)


Crime of the Century é o terceiro álbum de estúdios da banda britânica Supertramp. O lançamento aconteceu em 25 de outubro de 1974, através do selo A&M. As gravações ocorreram entre fevereiro e junho daquele ano nos estúdios Trident, Ramport, Scorpio; todos em Londres, na Inglaterra. A produção ficou a cargo de Ken Scott e Supertramp.





A trajetória do Supertramp até Crime of the Century (1974) é, em muitos aspectos, paradigmática do rock britânico da virada dos anos 1960 para os 1970: uma combinação de idealismo artístico, instabilidade inicial e, finalmente, um refinamento estético que dialoga tanto com o progressivo quanto com a canção pop.


Origens

A gênese do grupo remonta a 1969, quando o tecladista e vocalista Rick Davies recebeu apoio financeiro do milionário neerlandês Stanley August Miesegaes — figura decisiva para viabilizar a formação inicial da banda.


Esse patrocínio não apenas permitiu a Davies montar um conjunto, como também lhe deu relativa liberdade para experimentar musicalmente em um momento em que o rock britânico se expandia para territórios mais ambiciosos.


É nesse contexto que surge a parceria com Roger Hodgson, guitarrista, cantor e compositor cuja sensibilidade melódica contrastava — e complementava — o viés mais bluesy e introspectivo de Davies. A tensão criativa entre ambos, frequentemente destacada por críticos e pelos próprios músicos, tornar-se-ia um dos motores estéticos do Supertramp.


Rick Davies



Primeiros lançamentos e crise


Os primeiros passos discográficos, contudo, foram marcados por incerteza. Os álbuns de estreia — Supertramp (1970) e Indelibly Stamped (1971) — não obtiveram sucesso comercial significativo, o que levou à dissolução parcial da formação original e ao fim do financiamento de Miesegaes em 1972.


Esse período de crise obrigou Davies e Hodgson a repensarem não apenas a formação da banda, mas também sua identidade sonora.


Roger Hodgson



A reconstrução se deu ao longo de 1972–73, com a entrada de músicos que seriam fundamentais para a chamada “formação clássica”: o baixista Dougie Thomson, o baterista Bob Siebenberg e o multi-instrumentista John Helliwell. Essa configuração estabilizou o grupo tanto musical quanto tecnicamente, permitindo uma abordagem mais sofisticada dos arranjos, com uso expressivo de sopros, teclados e texturas harmônicas.


Paralelamente, consolidava-se uma linguagem própria: um híbrido elegante entre o rock progressivo — em sua vertente mais acessível — e uma escrita pop altamente melódica. O piano elétrico Wurlitzer, frequentemente associado a Hodgson, tornou-se elemento identitário do som da banda, ao lado de estruturas composicionais que conciliavam ambição formal e apelo radiofônico.


Esse amadurecimento encontra sua síntese em Crime of the Century, lançado em setembro de 1974. Trata-se do terceiro álbum de estúdio do grupo, mas, mais significativamente, do primeiro com a formação estabilizada e com uma direção estética plenamente definida.


Datas de gravação e lançamento


O terceiro álbum do Supertramp foi gravado entre fevereiro e junho de 1974, em Londres, e lançado oficialmente em 25 de outubro de 1974 pela A&M Records.

As sessões ocorreram em três estúdios principais: Trident Studios, Ramport Studios (pertencente ao The Who) e no Scorpio Sound.


Joh Anthony Helliwell



Composição: método, volume e curadoria


Um dos dados mais reveladores sobre o processo criativo é o volume de material produzido. Durante a preparação do disco, Rick Davies e Roger Hodgson chegaram a compor e registrar cerca de 42 demos, das quais apenas oito foram selecionadas para o álbum final.


Um ponto foi o rigor curatorial incomum: o repertório final é fruto de forte seleção, não de escassez criativa. Outro ponto é sua dualidade autoral consolidada: todas as faixas são creditadas à dupla Davies/Hodgson, embora cada um mantivesse estilos distintos — Davies mais ligado ao rhythm & blues e Hodgson a uma escrita mais introspectiva e melódica.


Há ainda um dado curioso: algumas composições tiveram origem em material concebido anteriormente para a trilha do filme Extremes (1971).


Produção e engenharia de som


A produção foi assinada conjuntamente por Ken Scott e pela própria banda.


Scott não era um nome qualquer: engenheiro e produtor com passagens por David Bowie e The Beatles, ele trouxe ao projeto um nível técnico e uma sensibilidade sonora que ajudaram a transformar o disco em referência de qualidade de gravação.


Os engenheiros de som incluíram John Jansen e o próprio Scott, e os créditos revelam um cuidado minucioso com os arranjos — inclusive com participação do arranjador de cordas Richard Hewson.


Arte da capa: conceito e execução


A capa de Crime of the Century é um caso exemplar de diálogo entre música e imagem no rock dos anos 1970. O responsável foi o fotógrafo Paul Wakefield, em seu primeiro trabalho para capas de álbuns. O projeto foi supervisionado pelo diretor de arte Fabio Nicoli.


O processo criativo partiu de um briefing incomum: Wakefield foi convidado ao estúdio para ler as letras do álbum antes de conceber a imagem. A partir disso, ele combinou: o título Crime of the Century e uma linha da música “Asylum” (referente a confinamento e alienação).


A ideia final — aprovada pela banda — apresenta uma janela de cela flutuando no espaço, com mãos segurando as grades, sugerindo isolamento psicológico e social. Tecnicamente, a imagem foi construída com múltiplas exposições fotográficas e efeitos de estúdio, incluindo um “céu” artificial criado com perfurações em um fundo escuro iluminado.


Dougie Thomson



SCHOOL


A criativa “School” apresenta uma sonoridade melodicamente cativante, começando o disco em alta.


A abertura do álbum já estabelece o eixo temático: a escola como metáfora de condicionamento social. A letra questiona autoridade, conformismo e a perda da individualidade.


BLOODY WELL RIGHT


Bloody Well Right” traz uma forte pegada bluesy, sendo mais direta, ‘roqueira’ e objetiva.


A letra aborda desigualdade social e privilégios de classe, com ironia mordaz. É um raro momento em que o Supertramp adota um tom quase confrontacional.


A canção foi um single que atingiu a 35a colocação na principal parada dos Estados Unidos desta natureza.


HIDE IN YOUR SHELL


Com boas presenças do baixo e do saxofone, além do empolgante vocal de Hodgson, “Hide in Your Shell” é mais intimista e mais introspectiva.


A letra trata de isolamento emocional, medo de rejeição e a dificuldade de conexão humana. Há um tom empático — quase terapêutico — sugerindo acolhimento em vez de julgamento.


ASYLUM


A teatralidade de “Asylum” é notável, com suas alternâncias de dinâmicas e os vocais divididos de Hodgson e Davies contribuindo muito para sua dramaticidade.


A narrativa mergulha na loucura institucionalizada — ou na percepção social da loucura. A letra sugere paranoia e desintegração mental, ao mesmo tempo em que questiona quem define a “sanidade”.





DREAMER


Dreamer” é uma composição que demonstra a evidente e fortíssima veia Pop do grupo.


A letra contrapõe sonho e pragmatismo, refletindo a tensão entre imaginação e realidade — tema recorrente na obra do Supertramp.





Foi lançada como single e atingiu a 13ª posição da parada britânica.


RUDY


Com grande atuação dos teclados e vocais excelentes de Davies, “Rudy” é uma faixa muito inspirada e com ótimas intervenções de guitarras.


Narrativa quase cinematográfica sobre um personagem marginalizado que tenta escapar de sua condição — possivelmente através de um ato impulsivo ou fuga.


IF EVERYONE WAS LISTENING


If Everyone Was Listening” apresenta uma musicalidade mais contida e um saxofone em tom lamurioso.


Uma reflexão metalinguística sobre comunicação e incompreensão. A letra sugere que mensagens — inclusive artísticas — se perdem porque ninguém realmente escuta.


CRIME OF THE CENTURY


Tocante, suave e profunda, “Crime of the Century” é uma composição incrível e difícil de se descrever, contando com solos perfeitos da guitarra de Hodgson.


O “crime” sugerido não é literal, mas simbólico: a repressão da individualidade, a patologização do diferente.


Considerações Finais


Crime of the Century atingiu a 38ª posição da principal parada norte-americana e a excelente 4ª colocação da correspondente britânica. "Dreamer" foi bem na parada de singles britânica no mesmo mês. O álbum foi particularmente bem-sucedido no Canadá, permanecendo na parada de álbuns por mais de dois anos, alcançando a quarta posição e sendo certificado como Diamante, significando vendas de mais de um milhão de cópias.


Bob Siebenberg



O crítico do Village Voice, Robert Christgau, foi ambivalente em relação ao "art-rock direto" do álbum, que ele chamou de "Queen sem preening. Sim, sem pianística e mudanças de métrica". A crítica retrospectiva de Adam Thomas no Sputnikmusic descreveu-o como um dos melhores álbuns da década de 1970 por sua poderosa expressão de confusão e alienação de jovens adultos, e por seu contraste consistente entre elementos progressivos e pop.


Após o lançamento do álbum em outubro de 1974, o Supertramp embarcou em uma extensa turnê que se estendeu por 1974 e ao longo de 1975, especialmente no Reino Unido, Europa e América do Norte.


Com um álbum de sucesso no currículo, as pressões sobre a banda aumentaram e o álbum seguinte, Crisis? What Crisis? teve que ser gravado nos poucos meses entre as turnês programadas. Como consequência, a maior parte do material consistia em sobras de canções do Crime of the Century.


Prêmios


  • Em 1978, Crime of the Century ficou em 108º lugar na The World Critic Lists, que reconheceu os 200 melhores álbuns de todos os tempos votados por notáveis críticos de rock e DJs.

  • Na edição de 1987 do The World Critic Lists, Geoff Edwards da CBC classificou Crime of the Century como o décimo melhor álbum de todos os tempos.

  • Uma pesquisa pública de 1998, agregando os votos de mais de 200.000 fãs de música, viu Crime of the Century votado entre os 1.000 melhores álbuns de todos os tempos.

  • Está no livro de 2005, 1001 Álbuns que você deve ouvir antes de morrer.

  • Em 2015, foi escolhido como o 27º maior álbum de rock progressivo pela Rolling Stone.


Resta dizer que Crime of the Century, segundo estimativas, supera a casa de 500 mil cópias vendidas apenas nos EUA.





Formação:

Rick Davies – Vocal, Teclados, Gaita

Roger Hodgson – Vocal, Guitarra, Pianos

John Anthony Helliwell – Saxofones, Clarinete, Backing Vocals

Dougie Thomson – Baixo

Bob Siebenberg (creditado como Bob C. Benberg) – Bateria, Percussão

Músicos adicionais:

Christine Helliwell – Backing Vocals (3)

Scott Gorham – backing vocals (3)

Vicky Siebenberg – backing vocals (3)

Músico de rua anônimo – serra (3)

Ken Scott – gongo de água


Faixas:

01. School (Davies/Hodgson) - 5:35

02. Bloody Well Right (Davies/Hodgson) - 4:32

03. Hide in Your Shell (Davies/Hodgson) - 6:49

04. Asylum (Davies/Hodgson) - 6:45

05. Dreamer (Davies/Hodgson) - 3:31

06. Rudy (Davies/Hodgson) - 7:17

07. If Everyone Was Listening (Davies/Hodgson) - 4:04

08. Crime of the Century (Davies/Hodgson) - 5:36


Opinião do Blog:

Amada por muitos e odiada por mais gente ainda, a banda Supertramp é inegavelmente um grande sucesso comercial.


Rick Davies e Rodger Hodgson foram as mentes criativas por trás da banda, forjando composições que misturavam influências de Rock Progressivo com música Pop. As melodias são criadas com absoluto bom gosto, mesclando suavidade às linhas melódicas, acessíveis e inspiradas.


Neste contexto, o grupo que apoia os dois compositores são extremamente competentes, e quando o saxofone John Anthony Helliwell aparece, é como um toque de midas.


Faixas com um viés roqueiro são especiais como “Asylum” e “Bloody Well Right”, esta com um saxofone encantador. “Rudy” funde melodias acessíveis com um viés progressivo muito interessante. “Dreamer” é de um apelo Pop inegável, mas com estilo e beleza.


Mas nossa preferida é a incrível faixa-título, com as guitarras de Hodgson bem afiadas, ótimos vocais de Davies e uma profundidade sóbria. Forte candidata a melhor composição do grupo.


Portanto, Crime of the Century é um excelente álbum ao misturar Rock Progressivo, melodias acessíveis, uma inapelável veia Pop e músicos compositores de raro talento. Merece ser resgatado.

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