March of the Saint é o álbum de estreia da banda estadunidense Armored Saint. Seu lançamento oficial aconteceu em 26 de setembro de 1984, através do selo Chrysalis. As gravações ocorreram naquele mesmo ano, nos estúdios Ocean Way Recording e Clover Recording, ambos em Hollywood, Estados Unidos. A produção ficou sob responsabilidade de Michael James Jackson.
Origens
A
história do Armored Saint começa em 1982, no Sul da
Califórnia, uma região que florescia como um dos epicentros do rock
pesado nos Estados Unidos. A banda foi formada por jovens que
compartilhavam não só o gosto musical, mas uma profunda amizade
desde os tempos de escola. Os irmãos Phil Sandoval (guitarra) e
Gonzo Sandoval (bateria), junto com o guitarrista Dave Prichard,
todos estudantes do Woodrow Wilson High School, deram o primeiro
passo criando a base instrumental do grupo. Logo depois, juntaram-se
a eles o vocalista John Bush e o baixista Joey Vera, completando a
formação que faria história no metal tradicional
norte-americano.
Uma anedota muitas vezes citada na
literatura sobre a banda é a origem do próprio nome “Armored
Saint”: segundo relatos, Gonzo Sandoval teria se inspirado no filme
Excalibur ao sair do cinema com os companheiros de banda — e teria
sugerido o nome depois de uma sessão fumando com os amigos. Não é
apenas um detalhe curioso, mas um reflexo do espírito irreverente e
imaginativo que moldaria o caráter criativo do grupo desde o início.
Nos
primeiros anos, enquanto o heavy metal tradicional britânico ainda
influenciava fortemente as bandas emergentes, o Armored Saint
procurava consolidar um som próprio — um heavy metal enérgico,
expressivo e com uma sensibilidade vocal menos típica do que as
vozes agudas e altamente polidas que dominavam parte da cena no
início dos anos 80. A voz de Bush, mais rasgada e poderosa, ajudaria
a definir essa distinção sonora.
A
Ascensão no Underground
Antes
de gravar seu primeiro álbum completo, o Armored Saint
percorreu o trajeto clássico de muitas bandas de heavy metal da
época: produzir demos caseiras, divulgar seu trabalho em compilações
e conquistar um público fiel nos circuitos underground.
Em
1982, o quinteto gravou uma demo de cinco músicas que acabou
chamando atenção ao ser incluída na compilação Metal Massacre
II, um projeto da gravadora Metal Blade Records que já havia
lançado trabalhos de bandas importantes da cena, como o Metallica.
A inclusão da faixa “Lesson Well Learned” nessa coletânea foi
um passo determinante na visibilidade inicial do Armored Saint
e consolidou sua entrada no circuito mais amplo do heavy metal
norte-americano.
A
partir do sucesso dessa demo, a própria Metal Blade Records ofereceu
ao grupo a oportunidade de gravar um EP autointitulado, lançado em
1983. Esse EP, com três faixas, mostrou um Armored Saint
diferente do que se via nas compilações: era uma banda pronta para
transformar suas ideias em um produto mais definido, erguendo a ponte
entre o underground e a indústria fonográfica mais estabelecida.
Esses
primeiros registros já delineavam a identidade que seria
posteriormente expandida em March of the Saint: riffs marcantes, um
senso de urgência nas composições e uma performance vocal visceral
que resistia à moldura estilística mais comercial da época.
Assinatura com a Chrysalis Records
O
EP de 1983 atraiu a atenção de gravadoras maiores e, em 1984, o
Armored Saint assinou com a Chrysalis Records, um selo com
alcance muito mais amplo do que a Metal Blade — e que oferecia a
promessa de exposição em uma escala nacional e internacional.
A
transição de uma gravadora independente para uma companhia maior
costuma implicar compromissos artísticos, ajustes de produção e
expectativas comerciais que nem sempre se alinham com a visão
criativa original da banda. Nesse sentido, a parceria com a Chrysalis
foi uma faca de dois gumes: por um lado, permitiu ao Armored Saint
alcançar um público mais amplo; por outro, colocou-os em rota de
colisão com as demandas de mercado e com uma produção que nem
sempre refletia o caráter cru e intenso do grupo.
March of the Saint: Composição
March
of the Saint é composto por 10 faixas que se tornaram parte do
repertório clássico da banda. Entre elas, “March of the Saint”,
“Can U Deliver” e “Mad House” destacam-se por serem
executadas consistentemente em shows ao longo da carreira do grupo.
As faixas apresentam variações temáticas: da energia e urgência heavy metal de “March of the Saint” à temática mais narrativa e rebelde de “Mutiny on the World”. Musicalmente, o álbum mistura elementos de heavy metal tradicional e power metal americano, com ênfase em riffs marcantes, linhas vocais expressivas de John Bush e duelos de guitarra entre Dave Prichard e Phil Sandoval.
Gravação e Produção
O
álbum foi gravado no Ocean Way Recording Studios e beliscou sessões
adicionais no Clover Recordings Studios, ambos em Hollywood,
Califórnia. As mixagens ocorreram em The Village Recorder, em West
Los Angeles — um estúdio renomado usado por inúmeros artistas de
grande porte da época.
Michael
James Jackson foi o produtor principal — conhecido por trabalhos
anteriores com a banda Kiss (incluindo Creatures of the
Night) — mas sua relação com o Armored Saint foi
tensionada. O processo de produção trouxe uma sonoridade
relativamente polida e comercial para os padrões do heavy metal
tradicional, possivelmente em parte orientado pela gravadora
Chrysalis Records.
A
banda, sobretudo Joey Vera (baixo) e John Bush (vocais), declarou em
entrevistas posteriores que ficou insatisfeita com o resultado final
da produção e da mixagem, sentindo que sua visão mais pesada foi
suavizada.
Em
entrevista, Joey Vera lembrou que a banda passou aproximadamente dois
meses no estúdio, em uma época em que tinham pouca experiência de
gravação profissional. O custo da produção foi excepcionalmente
alto para uma banda estreante (relatado em cerca de 300 mil dólares
pagos pela gravadora), algo que os próprios membros afirmaram ter
sido um peso financeiro, especialmente dada a sensação de falta de
controle criativo.
Michael
James Jackson, segundo relatos dos membros, não era um entusiasta de
heavy metal propriamente — e episódios como uma declaração de
que ele não gostava de Black Sabbath tornaram a colaboração
difícil.
Arte
da Capa
A
direção de arte foi conduzida por John Pasche, um designer
conhecido por trabalhos icônicos (incluindo símbolos visuais no
rock, como a língua logo dos Rolling Stones).
O
artista gráfico Gareth Williams assinou a arte da capa em si, com
fotografia de Neil Zlozower. A capa apresenta os membros da banda
como cavaleiros totalmente armados diante de uma paisagem
fortificada, tema que dialoga diretamente com o nome da banda
(Armored Saint = “Santo Blindado/Armado”).
Neil
Zlozower, um fotógrafo reverenciado no mundo do rock e metal (com
portfólios que incluem artistas como Van Halen, Ozzy
Osbourne e Megadeth), capturou as imagens da banda que
foram usadas no encarte e material promocional.
Vamos às faixas:
MARCH OF THE SAINT
A faixa-título abre o disco com um arrasa quarteirão de peso e intensidade, metal clássico com uma atuação incrível de John Bush.
A letra evoca imagens de batalha, força coletiva e afirmação de poder (“march of the saint…”), ecoando metáforas herdadas da tradição do heavy metal que associam o som da banda a um confronto quase mítico com desafios e adversários invisíveis.
CAN U DELIVER
“Can U Deliver” é a canção mais famosa do disco, baseada em um riff pristiano, com peso e intensidade bem expressivos.
Esta é a faixa que chegou a ser single e vídeo na MTV. Embora pareça uma música sobre relacionamentos românticos (ou de conotação sexual), a letra trata de uma expectativa relacional/afetiva: o eu-lírico questiona se a outra pessoa pode “entregar” aquilo que se espera — atenção, paixão, reciprocidade — sem ilusões.
MAD HOUSE
“Mad House” é acelerada, forte e intensa, com ótimos vocais de Bush.
O título e a letra apontam para a cultura de festa extrema, quase descontrolada.
TAKE A TURN
Contando com ótimos solos de Phil Sandoval, “Take a Turn” tem uma pegada mais acessível, porém é bem empolgante.
A letra se concentra na ideia de “dar uma volta” ou “fazer um movimento” num relacionamento, aguardando uma resposta ou uma mudança de direção entre duas pessoas.
SEDUCER
“Seducer” possui uma pegada mais amigável, com um certo toque hair metal, mas sendo interessante.
O texto fala de prisão metafórica e busca por escape, mencionando “bars of steel” e um narrador cansado de sua situação, preso numa vida que o oprime.
MUTINY ON THE WORLD
“Mutiny on the World” possui um certo senso de urgência, mas carece de mais peso.
O título sugere uma revolta global, e a interpretação mais comum gira em torno de rebelar-se contra o sistema ou contra as adversidades.
GLORY HUNTER
Em “Glory Hunter” há uma evidente tentativa de que a sonoridade se aproxime do Glam Metal oitenttista,
A letra indica uma reflexão sobre aqueles que buscam glória por meio de conquista ou visibilidade externa — possivelmente criticando o egoísmo ou o vaidoso impulso de se destacar às custas de outros.
STRICKEN BY FATE
“Stricken by Fate” é uma ótima música, mas a produção retirou um pouco de sua agressividade.
Os versos disponíveis indicam uma história de desilusão amorosa: o narrador descreve um relacionamento desgastado, onde ressentimento, dor e desejo de libertação se entrelaçam (“got to pack my bags… living with you was worse than hell”).
ENVY
“Envy” flerta mais com o hard rock da época, tendo um refrão grudento e ritmo atraente.
A letra descreve alguém vendo seu ex-parceiro nas mãos de um rival e lutando com emoções intensas de inveja e raiva.
FALSE ALARM
Sobra intensidade em “False Alarm”, com aceleração e muita potência.
Liricamente, False Alarm parece usar imagens de alarme e confusão mental — sons que perturbam, sirenes, “false alarms” — como metáforas para estados de alerta exagerados ou confusos, talvez refletindo ansiedade, medo ou um senso de urgência desproporcional.
Considerações Finais
Apesar de sua inquestionável categoria, March of the Saint atingiu apenas a posição 138 da Billboard 200.
Ao ser lançado em setembro de 1984, March of the Saint surgiu em um cenário dominado por bandas de metal mais comerciais e pelo glam/hard rock americano, especialmente na própria cena de Los Angeles. Existem poucos registros amplamente distribuídos de críticas impressas originais da época (em revistas como Kerrang! ou Rolling Stone), mas recortes históricos e resenhas retrospectivas com base em fontes de arquivo mostram que, em 1984, o disco não alcançou grandes aclamações na grande imprensa musical. Ainda assim, resenhas históricas – mesmo as escritas anos depois com base em percepções da época – ressaltam que March of the Saint era percebido como um álbum promissor, com riffs energéticos e presença vocal marcante de John Bush, mas com produção que em alguns momentos tentava conciliar sonoridades mais comerciais com a identidade pesada da banda.
Algumas análises europeias e atuais criticam o álbum como um exemplo de metal que, mesmo sólido, já soava “datado” na própria época de lançamento, sobretudo quando comparado ao que se fazia no cenário britânico do NWOBHM, como Iron Maiden e Saxon. Essa visão sugere que o disco perdeu impacto justamente por ter chegado ao público quando outras cenas já haviam evoluído além de seu estilo mais tradicional.
O crítico Eduardo Rivadavia, o qual dá uma nota 4,5 (em 5), afirma: “Ao longo dos anos 80, seria difícil encontrar uma banda americana de heavy metal que soasse mais britânica do que Armored Saint. Embora a maioria de seus contemporâneos parecesse preocupada com o rápido crescimento do movimento thrash metal, aqui estava um grupo de puristas comprometidos que estavam simplesmente atualizando o metal tradicional no seu melhor para a geração dos anos 80”.
O álbum de estreia rendeu um pequeno sucesso na MTV, com "Can U Deliver", mas, como apontamos, Joey Vera e John Bush mais tarde relembraram a gravação do álbum como uma experiência frustrante e decepcionante, explicando que a abordagem de Jackson era muito mais comercial que o som de heavy metal que a banda queria.
Embora March of the Saint não tenha explodido nas paradas mundiais, ele garantiu à banda um aumento substancial na atividade ao vivo no período imediatamente posterior ao seu lançamento em setembro de 1984. Registros de apresentações mostram que o Armored Saint realizou cerca de 33 shows em 1984, um número alto para uma banda emergente naquele ano. Em 1985, esse ritmo aumentou para mais de 60 concertos, segundo dados de histórico de shows — o que indica uma turnê extensa pelo formato tradicional de shows ao longo da América do Norte.
Após o ciclo de turnês que promoveu March of the Saint, a banda retornou ao estúdio em 1985 para gravar o sucessor, Delirious Nomad, novamente sob contrato com a Chrysalis Records. Foi durante esse período que ocorreram mudanças significativas na formação.
Segundo
registros biográficos e entrevistas posteriores, Phil Sandoval
deixou a banda durante as sessões de gravação de Delirious
Nomad. A saída não foi motivada por um único episódio isolado
amplamente detalhado na imprensa da época, mas está associada a
tensões internas e dificuldades pessoais, incluindo desgaste
emocional decorrente da pressão da indústria e da própria dinâmica
do grupo naquele momento.
Formação:
John Bush – Vocal
Dave Prichard – Guitarra-solo
Phil Sandoval – Guitarra-solo
Joey Vera – Baixo
Gonzo Sandoval – Bateria
Faixas:
01. March of the Saint - 4:11
02. Can U Deliver - 3:34
03. Mad House - 3:53
04. Take a Turn - 3:50
05. Seducer - 3:49
06. Mutiny on the World - 3:29
07. Glory Hunter - 5:09
08. Stricken by Fate - 3:30
09. Envy - 2:56
10. False Alarm - 4:14
Opinião do Blog:
Eu penso que boa parte do pequeno reconhecimento que a banda Armored Saint possui não é devido ao seu inegável talento em fazer um Heavy Tradicional – e empolgante – nos anos 1980 e, sim, pela presença do ótimo vocalista John Bush.
Fato é que os riffs afiados, com uma certa pegada de NWOBHM, empolgam e dão um diferencial ao grupo dentro da cena norte-americana do Heavy Metal que, naquela época, estava mais voltada ao Thrash (e o mainstream ao Glam).
Isto fez com que um álbum tão incrível quanto March of the Saint passasse praticamente despercebido e músicos talentosos como os guitarristas Dave Prichard e Phil Sandoval ficassem no anonimato.
Claro, John Bush já demonstrava do que era capaz, com sua voz poderosa e sua capacidade incrível de interpretar as canções. Realmente, ele é o maior destaque do disco.
O peso e ferocidade de “Glory Hunter” merecem destaque. “False Alarm” encerra o disco com um pequeno flerte com o Thrash Metal mais tradicional e o tom épico de “March of the Saint” é uma reverência ao metal britânico.
Mas escolhemos nossas preferidas com o peso e a cadência envolvente da belíssima “Take a Turn” e o riff afiadíssimo e potente da grandiosa “Can U Deliver”, uma composição maiúscula.
Enfim, é uma pena que uma obra tão bem-feita quanto March of the Saint tenha sido quase que esquecida e suas qualidades fiquem restritas apenas a aqueles que escavem as pérolas perdidas do metal oitentista. Se a produção poliu o som do grupo, não sei, mas March of the Saint é um ótimo álbum de Metal.








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