20 de janeiro de 2026

OS MUTANTES - OS MUTANTES (1968)

 


Os Mutantes é o autointitulado álbum de estreia da banda brasileira Os Mutantes. O lançamento aconteceu em junho de 1968, através do selo Polydor. A produção ficou a cargo de Manuel Barenbein.





Origens


A história dos Mutantes é simultaneamente um relato de invenção juvenil e de encontro com um momento cultural que exigia rupturas — estanques e barulhentas — no tecido sonoro brasileiro. Formados em São Paulo no melancólico fim da década de 1960, os Mutantes encarnaram uma síntese rara: rock elétrico e psicodélico impregnado de música popular brasileira, temperado por humor e por métodos de estúdio pouco ortodoxos.


Durante o curto período que vai da gênese do trio até o lançamento do primeiro disco homônimo em 1968, eles passaram de experimentos caseiros a protagonistas do que se veio a chamar de Tropicália — um movimento que sacudiu as premissas estéticas e políticas do país. Vou traçar essa trajetória, explicando as raízes pessoais e sonoras do grupo, as circunstâncias culturais que os envolveram e as escolhas técnicas e artísticas que marcaram seu álbum de estreia.


Influências e as oficinas musicais de São Paulo


A gênese dos Mutantes está enraizada em círculos juvenis de São Paulo: adolescentes imersos na cultura pop transnacional (Beatles, Rolling Stones, surf rock, o rock psicodélico e também o rock de garagem) mas com uma convivência íntima com repertórios locais, do samba ao baião. Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee — os três nomes hoje inseparáveis do nascimento do grupo — vinham de trajetórias precoces com instrumentos e coros escolares, bandas de garagem e festivais locais. Essa base juvenil explica duas características centrais do início dos Mutantes: o gosto pela paródia e pelo pastiche, e a disposição para “brincar” com dispositivos eletrônicos e ruídos — atitudes típicas de quem experimenta sem a reverência do academicismo.


Musicalmente, pode-se dizer que houve duas correntes que se cruzaram nesses jovens paulistas. A primeira, internacional, vinha da onda britânica e americana: arranjos pop, guitarras distorcidas, exploração do timbre e a noção do estúdio como instrumento. A segunda era um repertório nacional que não lhes foi imposto como tradição sacralizada, mas sim como matéria-prima para brincar e recombinar — folclore urbano e regional, canções populares, ritmos do Nordeste e do samba que poderiam ser deslocados para contextos elétricos. Essa convivência explicita por que os Mutantes soam, desde cedo, tanto “pop” quanto “estranhos”: a estranheza não é pedante — é hibridização entre o vernaculizar e a estética elétrica.


Sérgio Dias



Do The Wooden Faces aos Mutantes


Antes de adotarem o nome definitivo, os músicos passaram por várias denominações e formações — um movimento comum em bandas jovens que vão testando identidades. No percurso anterior aos Mutantes houve nomes como The Wooden Faces e Six Sided Rockers, sinalizando tanto o diálogo com a cena internacional quanto a busca por uma identidade própria. Essas mutações de nome e formação ajudam a entender o caráter fluido do grupo: as arestas do trio original foram moldadas por perdas, desistências e reencontros, o que deixaria a pauta de colaboração sempre aberta.


O nome “Os Mutantes” (inspirado no romance de ficção científica O Império dos Mutantes, de Stefan Wul, segundo relatos difundidos) já apontava para uma consciência estética: a ideia de mutação como programa, isto é, a possibilidade de metamorfose sonora como princípio orientador — transformar timbres, formas e funções musicais. Há algo de profético nisso: a mutação implicava não apenas mistura, mas também um projeto de deslocamento estético, do que era “próprio” a cada registro sonoro.


Rita Lee



A cena e o manifesto tropicalista


O contato com a cena carioca e com os tropicalistas foi decisivo para a projeção dos Mutantes. Em 1967–1968, nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e compositores/poetas como Torquato Neto e Capinam vinham articulando uma resposta estética ao Brasil autoritário: a Tropicália propunha reinvenção cultural por meio de apropriações, ironia e choque de linguagens. Para os Mutantes, a associação ao movimento significou acesso a produtores, arranjadores e a um público crítico que via naquela “nova MPB” um projeto modernizador — tanto estético quanto, em perspectiva, político. A participação do grupo no célebre disco-coletivo Tropicália ou Panis et Circencis (1968) — o “disco-manifesto” do movimento — foi um primeiro salto de visibilidade e sinergia criativa: ali, sua psicodelia se encontrou com letras e arranjos que buscavam abrir espaço para rupturas.

Importante notar que, embora muitas vezes se fale da Tropicália como um bloco homogêneo, tratava-se de uma rede frágil de afinidades: músicos com orientações distintas que concordavam em usar choque e colagem como estratégia. Para os Mutantes, tal rede ofereceu interlocutores e um cenário de contestação estética onde suas experimentações soavam menos anômalas e mais programáticas.


Arnaldo Baptista



Primeiros registros


Ao se projetarem para um registro fonográfico, os Mutantes encontraram colaboradores que ajudaram a transformar suas gambiarras e ruídos em linguagem de estúdio. O álbum de estreia, lançado em 1968, foi gravado sob produção de Manoel Barenbein com arranjos de Rogério Duprat — nome quase sinônimo do acabamento orquestral e da manipulação timbrística no universo tropicalista.


Duprat, formado em tradição erudita mas adepto de procedimentos avulsos, contribuiu decisivamente para o desenho sonoro do disco: cordas e sopros ora mimetizam, ora desestabilizam as guitarras; os efeitos de estúdio são tratados como ornamento narrativo, quase cinematográfico.


A própria gravação do álbum de estreia revela uma escolha estética: a atenção à textura, às intermitências e a uma dramaturgia sonora que mistura canção pop, ruído e peças de “música concreta”. O uso de objetos não convencionais (desde baterias tratadas até ruídos casados em sobreposição) e as manipulações de fita produzem efeitos que remetam tanto ao trabalho experimental europeu quanto a uma tradição brasileira de “colagem sonora” — uma ponte entre a vanguarda técnica e a canção popular. Esses procedimentos legitimavam, em estúdio, a tese mutante de que tudo podia ser reinventado: timbres, estruturas formais e funções instrumentais.


Repertório do disco


O repertório do álbum de estreia é exemplar da postura híbrida do grupo. Convive no disco tanto composições originais quanto reinterpretações de canções populares — o que demonstra a postura de apropriação subversiva: em vez de respeitar cânones, o trio (e seus colaboradores) desloca canções a novos contextos. Faixas como uma versão eletro-acústica de “A Minha Menina” (original de Jorge Ben) e intervenções que transitam entre samba, baião e psicodelia são exemplos de como o álbum reconfigura materiais nacionais sob uma estética elétrica e experimental. A presença de participações, como a de Jorge Ben em “A Minha Menina”, reforça o caráter de diálogo entre gerações e estilos.


Do ponto de vista formal, as canções frequentemente exploram mudanças bruscas de andamento, interrupções e inserções de ruído que quebram expectativas pop. É como se o grupo levasse ao extremo a ideia de que a canção poderia ser um espaço de surpresa e choque estético, não apenas de reconciliação emocional ou entretenimento direto. Esse cálculo deu ao disco uma inocência de laboratório, ao mesmo tempo que o tornou imprevisível e, para alguns, difícil de classificar.


Vamos às faixas:


PANIS AT CIRCENSES


O espírito inovador da banda já está presente nesta linda faixa de abertura, com arranjos orquestrais muito legais.


A letra fala sobre alienação:


Mandei fazer

De puro aço luminoso, um punhal

Para matar o meu amor e matei

Às cinco horas na Avenida Central

Mas as pessoas na sala de jantar

São ocupadas em nascer e morrer


A MINHA MENINA


Música muito interessante, com a participação de Jorge Ben (que a compôs).


A letra fala sobre amor:


Pois ela é minha menina

E eu sou o menino dela

Ela é o meu amor

E eu sou o amor todinho dela


O RELÓGIO


Nesta música, o grupo aposta em uma sonoridade mais introspectiva em seu início, com destaque para a atuação vocal de Rita, eletrificando-se a partir da metade.


A letra fala sobre tempo e ausência:


Que vantagem eu levei?

Em ter um relógio

Que é suíço ou inglês

Sem andar

A hora que você vai chegar


MARIA FULÔ


A banda brinca com a musicalidade do baião como uma espécie de base, mas fazendo uma transformação da faixa.


A letra remete ao sertão nordestino:


Adeus, vou me embora Maria

Fulô do meu coração

Eu voltarei qualquer dia

E só chover no sertão

Lá longe as horas da volta

Eu conto na minha mão

Maria fulô


BABY


Com letras de Caetano Veloso, o grupo traz mudanças abruptas de ritmos e alternâncias de andamentos típicos do rock progressivo.


A letra fala sobre consumismo:


Você

Precisa aprender inglês

Precisa aprender o que eu sei

E o que eu não sei mais

E o que eu não sei mais


SENHOR F


Os teclados de Arnaldo Baptista estão bem presentes nesta canção interessante.


A letra é uma crítica social:


O Senhor "X"

É o herói

Que na TV

Nunca perde o seu chapéu

E faz o Senhor "F" sonhar





BAT MACUMBA


Em “Bat Macumba”, a banda experimenta com as influências africanas na música brasileira.


A letra é divertida:


Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh


LE PREMIER BONHEUR DU JOUR


A canção é bem mais sóbria, contida, seguindo uma abordagem mais minimalista.


A letra é uma ode ao amor:


Mais bien vite tu revien

Et ma vie retorn son course

Le dernier bonheur du jour

C`est la lampe qui s`aten


TREM FANTASMA


Trem Fantasma” é bem intrigante, com toques de Jazz e imprevisibilidade, podendo seguir qualquer caminho. Bem legal!


A letra fala sobre medos juvenis:


Quatrocentos cruzeiros

Velhos compram com medo

Das mãos do bilheteiro

As entradas do trem fantasma

Ele e a namorada

Ele não pensa em nada

Ela fica assustada


TEMPO NO TEMPO


Esta é a música mais curtinha do disco, com um toque gregoriano no começo.


A letra fala sobre a transitoriedade da vida:


Já houve um tempo em que o tempo parou de passar

E um tal de homo sapiens não soube disso aproveitar

Chorando, sorrindo, falando em calar

Pensando em pensar quando o tempo parar de passar


AVE GENGIS KHAN


A derradeira faixa do disco encerra o álbum com a mesma inventividade da primeira.


A letra brinca com a figura histórica de Gengis Khan:


Ave Gengis Khan, Ave Gengis Khan


Considerações Finais


O álbum homônimo foi lançado em 1968 — ano fungível da contracultura mundial e da escalada repressiva no Brasil — e rapidamente passou a figurar como referência entre críticos e músicos atentos. Relatos e resenhas posteriores pontuam a inovação do disco: sua mistura de elementos locais com técnicas psicodélicas e de estúdio impressionou colunistas e abriu caminho para que a banda fosse reconhecida como um dos núcleos mais inventivos do tropicalismo.


Ao mesmo tempo, a recepção não foi unânime: a mistura de irreverência e experimentação abria espaço tanto para o encanto quanto para a incompreensão. Parte do público tradicional da MPB viu com estranhamento a incursão por ruídos e colagens; setores da crítica não musicalizadora também perceberam no gesto um “desrespeito” a repertórios canônicos. Mas para a geração que se beneficiou de ambientes de show alternativos e da cena jovem, o álbum oferecia, sobretudo, latitude: uma forma de fugir ao maniqueísmo estético.


Além das decisões de estúdio, havia traços de personalidade que tornaram os Mutantes imediatamente reconhecíveis: a voz versátil de Rita Lee (capaz de docilidade e de artifício cômico), os timbres recortados das guitarras de Sérgio Dias e a base harmônica inventiva de Arnaldo Baptista. Esses elementos, conjugados a visuais e performances que flertavam com o grotesco e o teatral, construíram uma imagem de banda que não se levava ao pé da letra. O riso — irônico, nervoso, sarcástico — era parte do arsenal estético.


É preciso situar o disco dentro de 1968, ano explosivo que viu no Brasil o endurecimento do regime militar (AI-5 causaria profundas consequências em dezembro daquele ano) e no mundo a intensificação de processos contraculturais. A Tropicália, embora estética, jamais foi totalmente “apolítica”: sua ironia frente à tradição e sua celebração do hibridismo cultural tinham efeito subversivo, e os Mutantes, por meio da sua estranheza, se tornaram um dos vetores dessa subversão.


O impacto do disco se manifestaria de formas variadas e ao longo do tempo. Nos anos seguintes, sua reverberação alcançaria músicos brasileiros e estrangeiros, e a redescoberta internacional nas décadas seguintes (sobretudo com críticos e artistas alternativos) consolidaria a imagem do álbum como um dos marcos do rock psicodélico sul-americano.


Criticamente, o disco entrou em listas de referência e passou a ser estudado como um exemplo de inventividade técnica aplicada à canção popular. Em linhas mais práticas, abriu portas para que os Mutantes gravassem álbuns subsequentes, aprofundando a experimentação e, ao mesmo tempo, enfrentando tensões internas e transformações de formação.





Formação:

Arnaldo Baptista - baixo, teclados, voz

Rita Lee - voz, flauta doce, percussão

Sérgio Dias - guitarras, voz

Músicos Adicionais:

Dr. César Baptista - voz em "Ave Gengis Khan"

Dirceu de Medeiros - bateria

Jorge Ben - voz e violão em "A Minha Menina"


Faixas:

01. Panis et Circenses (Gil/Veloso) - 3:38

02. A Minha Menina (J. Ben) - 4:42

03. O Relógio (Baptista/Lee/Dias) - 3:30

04. Maria Fulô (Teixeira/Sivuca) - 3:04

05. Baby (Veloso) - 3:01

06. Senhor F (Baptista/Lee/Dias) - 2:33

07. Bat Macumba (Veloso/Gil) - 3:10

08. Le Premier Bonheur du Jour (Gérald/Renard) - 3:36

09. Trem Fantasma (Baptista/Lee/Dias/Veloso) - 3:16

10. Tempo no Tempo (Phillips/Baptista/Lee/Dias) - 1:47

11. Ave Gengis Khan (Baptista/Lee/Dias) – 3:48


Letras:

O conteúdo integral das letras pode ser visto em:

https://www.letras.mus.br/mutantes/


Opinião do Blog:

É difícil determinar um estilo musical para o álbum de estreia dos Mutantes, e na falta de tal, Rock Progressivo acaba sendo a ‘menos pior’ forma que se encontra para o definir. Talvez Tropicalismo seja um termo melhor.


Embora o rock funcione como um amálgama para o disco, a profusão de musicalidades que o grupo atravessa por suas 11 canções são inúmeras, passando por Jazz, Baião, Bossa Nova, etc. E isto provoca mudanças de andamento, interrupções abruptas, quebras de dinâmicas que, além dos ruídos, colagens e uso de vinhetas, são características do Prog Rock. Aliás, há que se destacar a boa produção e os arranjos de Drupat para as músicas.


Os músicos que acompanham a banda são ótimos e Arnaldo Baptista e Sérgio Dias formam a base coesa sobre a qual Rita Lee canta excepcionalmente bem. Eles constroem verdadeiras paisagens sonoras, as quais são recheadas de psicodelismo e de imprevisibilidade. É quase impossível adivinhar qual caminho a faixa vai tomar.


Elege-se como as favoritas “Relógio” e “Baby”, embora não existam músicas sequer medianas no trabalho. E “Panis et Circenses” é um clássico.


Enfim, Mutantes é um disco vanguardista, não só pelo seu lirismo revolucionário, mas por sua sonoridade única e pioneira. A fusão de ritmos e de musicalidades tão diferentes, o uso do estúdio como mais um instrumento e abordagem corajosa (e acessível) constroem um dos melhores álbuns não só do Rock, mas da música brasileira.


Fontes: AllMusic, Wikipedia, Discogs, Discografia Brasileira, Treble, Wax-Poetics, Rolling Stone Brasil

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