Os Mutantes é o autointitulado álbum de estreia da banda brasileira Os Mutantes. O lançamento aconteceu em junho de 1968, através do selo Polydor. A produção ficou a cargo de Manuel Barenbein.
Origens
A
história dos Mutantes é simultaneamente um relato de
invenção juvenil e de encontro com um momento cultural que exigia
rupturas — estanques e barulhentas — no tecido sonoro brasileiro.
Formados em São Paulo no melancólico fim da década de 1960, os
Mutantes encarnaram uma síntese rara: rock elétrico e
psicodélico impregnado de música popular brasileira, temperado por
humor e por métodos de estúdio pouco ortodoxos.
Durante o curto período que vai da gênese do trio até o lançamento do primeiro disco homônimo em 1968, eles passaram de experimentos caseiros a protagonistas do que se veio a chamar de Tropicália — um movimento que sacudiu as premissas estéticas e políticas do país. Vou traçar essa trajetória, explicando as raízes pessoais e sonoras do grupo, as circunstâncias culturais que os envolveram e as escolhas técnicas e artísticas que marcaram seu álbum de estreia.
Influências
e as oficinas musicais de São Paulo
A
gênese dos Mutantes está enraizada em círculos juvenis de
São Paulo: adolescentes imersos na cultura pop transnacional
(Beatles, Rolling Stones, surf rock, o rock psicodélico
e também o rock de garagem) mas com uma convivência íntima com
repertórios locais, do samba ao baião. Arnaldo Baptista, Sérgio
Dias e Rita Lee — os três nomes hoje inseparáveis do nascimento
do grupo — vinham de trajetórias precoces com instrumentos e coros
escolares, bandas de garagem e festivais locais. Essa base juvenil
explica duas características centrais do início dos Mutantes:
o gosto pela paródia e pelo pastiche, e a disposição para
“brincar” com dispositivos eletrônicos e ruídos — atitudes
típicas de quem experimenta sem a reverência do academicismo.
Musicalmente,
pode-se dizer que houve duas correntes que se cruzaram nesses jovens
paulistas. A primeira, internacional, vinha da onda britânica e
americana: arranjos pop, guitarras distorcidas, exploração do
timbre e a noção do estúdio como instrumento. A segunda era um
repertório nacional que não lhes foi imposto como tradição
sacralizada, mas sim como matéria-prima para brincar e recombinar —
folclore urbano e regional, canções populares, ritmos do Nordeste e
do samba que poderiam ser deslocados para contextos elétricos. Essa
convivência explicita por que os Mutantes soam, desde cedo,
tanto “pop” quanto “estranhos”: a estranheza não é pedante
— é hibridização entre o vernaculizar e a estética elétrica.
Do The Wooden Faces aos Mutantes
Antes
de adotarem o nome definitivo, os músicos passaram por várias
denominações e formações — um movimento comum em bandas jovens
que vão testando identidades. No percurso anterior aos Mutantes
houve nomes como The Wooden Faces e Six Sided Rockers, sinalizando
tanto o diálogo com a cena internacional quanto a busca por uma
identidade própria. Essas mutações de nome e formação ajudam a
entender o caráter fluido do grupo: as arestas do trio original
foram moldadas por perdas, desistências e reencontros, o que
deixaria a pauta de colaboração sempre aberta.
O
nome “Os Mutantes” (inspirado no romance de ficção
científica O Império dos Mutantes, de Stefan Wul, segundo relatos
difundidos) já apontava para uma consciência estética: a ideia de
mutação como programa, isto é, a possibilidade de metamorfose
sonora como princípio orientador — transformar timbres, formas e
funções musicais. Há algo de profético nisso: a mutação
implicava não apenas mistura, mas também um projeto de deslocamento
estético, do que era “próprio” a cada registro sonoro.
A
cena e o manifesto tropicalista
O
contato com a cena carioca e com os tropicalistas foi decisivo para a
projeção dos Mutantes. Em 1967–1968, nomes como Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e compositores/poetas como Torquato
Neto e Capinam vinham articulando uma resposta estética ao Brasil
autoritário: a Tropicália propunha reinvenção cultural por meio
de apropriações, ironia e choque de linguagens. Para os Mutantes,
a associação ao movimento significou acesso a produtores,
arranjadores e a um público crítico que via naquela “nova MPB”
um projeto modernizador — tanto estético quanto, em perspectiva,
político. A participação do grupo no célebre disco-coletivo
Tropicália ou Panis et Circencis (1968) — o
“disco-manifesto” do movimento — foi um primeiro salto de
visibilidade e sinergia criativa: ali, sua psicodelia se encontrou
com letras e arranjos que buscavam abrir espaço para rupturas.
Importante notar que, embora muitas vezes se fale da
Tropicália como um bloco homogêneo, tratava-se de uma rede frágil
de afinidades: músicos com orientações distintas que concordavam
em usar choque e colagem como estratégia. Para os Mutantes,
tal rede ofereceu interlocutores e um cenário de contestação
estética onde suas experimentações soavam menos anômalas e mais
programáticas.
Primeiros
registros
Ao
se projetarem para um registro fonográfico, os Mutantes
encontraram colaboradores que ajudaram a transformar suas gambiarras
e ruídos em linguagem de estúdio. O álbum de estreia, lançado em
1968, foi gravado sob produção de Manoel Barenbein com arranjos de
Rogério Duprat — nome quase sinônimo do acabamento orquestral e
da manipulação timbrística no universo tropicalista.
Duprat, formado em tradição erudita mas adepto de procedimentos avulsos, contribuiu decisivamente para o desenho sonoro do disco: cordas e sopros ora mimetizam, ora desestabilizam as guitarras; os efeitos de estúdio são tratados como ornamento narrativo, quase cinematográfico.
A
própria gravação do álbum de estreia revela uma escolha estética:
a atenção à textura, às intermitências e a uma dramaturgia
sonora que mistura canção pop, ruído e peças de “música
concreta”. O uso de objetos não convencionais (desde baterias
tratadas até ruídos casados em sobreposição) e as manipulações
de fita produzem efeitos que remetam tanto ao trabalho experimental
europeu quanto a uma tradição brasileira de “colagem sonora” —
uma ponte entre a vanguarda técnica e a canção popular. Esses
procedimentos legitimavam, em estúdio, a tese mutante de que tudo
podia ser reinventado: timbres, estruturas formais e funções
instrumentais.
Repertório
do disco
O
repertório do álbum de estreia é exemplar da postura híbrida do
grupo. Convive no disco tanto composições originais quanto
reinterpretações de canções populares — o que demonstra a
postura de apropriação subversiva: em vez de respeitar cânones, o
trio (e seus colaboradores) desloca canções a novos contextos.
Faixas como uma versão eletro-acústica de “A Minha Menina”
(original de Jorge Ben) e intervenções que transitam entre samba,
baião e psicodelia são exemplos de como o álbum reconfigura
materiais nacionais sob uma estética elétrica e experimental. A
presença de participações, como a de Jorge Ben em “A Minha
Menina”, reforça o caráter de diálogo entre gerações e
estilos.
Do
ponto de vista formal, as canções frequentemente exploram mudanças
bruscas de andamento, interrupções e inserções de ruído que
quebram expectativas pop. É como se o grupo levasse ao extremo a
ideia de que a canção poderia ser um espaço de surpresa e choque
estético, não apenas de reconciliação emocional ou entretenimento
direto. Esse cálculo deu ao disco uma inocência de laboratório, ao
mesmo tempo que o tornou imprevisível e, para alguns, difícil de
classificar.
Vamos às faixas:
PANIS AT CIRCENSES
O espírito inovador da banda já está presente nesta linda faixa de abertura, com arranjos orquestrais muito legais.
A letra fala sobre alienação:
Mandei fazer
De puro aço luminoso, um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na Avenida Central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
A MINHA MENINA
Música muito interessante, com a participação de Jorge Ben (que a compôs).
A letra fala sobre amor:
Pois ela é minha menina
E eu sou o menino dela
Ela é o meu amor
E eu sou o amor todinho dela
O RELÓGIO
Nesta música, o grupo aposta em uma sonoridade mais introspectiva em seu início, com destaque para a atuação vocal de Rita, eletrificando-se a partir da metade.
A letra fala sobre tempo e ausência:
Que vantagem eu levei?
Em ter um relógio
Que é suíço ou inglês
Sem andar
A hora que você vai chegar
MARIA FULÔ
A banda brinca com a musicalidade do baião como uma espécie de base, mas fazendo uma transformação da faixa.
A letra remete ao sertão nordestino:
Adeus, vou me embora Maria
Fulô do meu coração
Eu voltarei qualquer dia
E só chover no sertão
Lá longe as horas da volta
Eu conto na minha mão
Maria fulô
BABY
Com letras de Caetano Veloso, o grupo traz mudanças abruptas de ritmos e alternâncias de andamentos típicos do rock progressivo.
A letra fala sobre consumismo:
Você
Precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais
SENHOR F
Os teclados de Arnaldo Baptista estão bem presentes nesta canção interessante.
A letra é uma crítica social:
O Senhor "X"
É o herói
Que na TV
Nunca perde o seu chapéu
E faz o Senhor "F" sonhar
BAT MACUMBA
Em “Bat Macumba”, a banda experimenta com as influências africanas na música brasileira.
A letra é divertida:
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
LE PREMIER BONHEUR DU JOUR
A canção é bem mais sóbria, contida, seguindo uma abordagem mais minimalista.
A letra é uma ode ao amor:
Mais bien vite tu revien
Et ma vie retorn son course
Le dernier bonheur du jour
C`est la lampe qui s`aten
TREM FANTASMA
“Trem Fantasma” é bem intrigante, com toques de Jazz e imprevisibilidade, podendo seguir qualquer caminho. Bem legal!
A letra fala sobre medos juvenis:
Quatrocentos cruzeiros
Velhos compram com medo
Das mãos do bilheteiro
As entradas do trem fantasma
Ele e a namorada
Ele não pensa em nada
Ela fica assustada
TEMPO NO TEMPO
Esta é a música mais curtinha do disco, com um toque gregoriano no começo.
A letra fala sobre a transitoriedade da vida:
Já houve um tempo em que o tempo parou de passar
E um tal de homo sapiens não soube disso aproveitar
Chorando, sorrindo, falando em calar
Pensando em pensar quando o tempo parar de passar
AVE GENGIS KHAN
A derradeira faixa do disco encerra o álbum com a mesma inventividade da primeira.
A letra brinca com a figura histórica de Gengis Khan:
Ave Gengis Khan, Ave Gengis Khan
Considerações
Finais
O
álbum homônimo foi lançado em 1968 — ano fungível da
contracultura mundial e da escalada repressiva no Brasil — e
rapidamente passou a figurar como referência entre críticos e
músicos atentos. Relatos e resenhas posteriores pontuam a inovação
do disco: sua mistura de elementos locais com técnicas psicodélicas
e de estúdio impressionou colunistas e abriu caminho para que a
banda fosse reconhecida como um dos núcleos mais inventivos do
tropicalismo.
Ao
mesmo tempo, a recepção não foi unânime: a mistura de
irreverência e experimentação abria espaço tanto para o encanto
quanto para a incompreensão. Parte do público tradicional da MPB
viu com estranhamento a incursão por ruídos e colagens; setores da
crítica não musicalizadora também perceberam no gesto um
“desrespeito” a repertórios canônicos. Mas para a geração que
se beneficiou de ambientes de show alternativos e da cena jovem, o
álbum oferecia, sobretudo, latitude: uma forma de fugir ao
maniqueísmo estético.
Além
das decisões de estúdio, havia traços de personalidade que
tornaram os Mutantes imediatamente reconhecíveis: a voz versátil de
Rita Lee (capaz de docilidade e de artifício cômico), os timbres
recortados das guitarras de Sérgio Dias e a base harmônica
inventiva de Arnaldo Baptista. Esses elementos, conjugados a visuais
e performances que flertavam com o grotesco e o teatral, construíram
uma imagem de banda que não se levava ao pé da letra. O riso —
irônico, nervoso, sarcástico — era parte do arsenal estético.
É
preciso situar o disco dentro de 1968, ano explosivo que viu no
Brasil o endurecimento do regime militar (AI-5 causaria profundas
consequências em dezembro daquele ano) e no mundo a intensificação
de processos contraculturais. A Tropicália, embora estética, jamais
foi totalmente “apolítica”: sua ironia frente à tradição e
sua celebração do hibridismo cultural tinham efeito subversivo, e
os Mutantes, por meio da sua estranheza, se tornaram um dos vetores
dessa subversão.
O
impacto do disco se manifestaria de formas variadas e ao longo do
tempo. Nos anos seguintes, sua reverberação alcançaria músicos
brasileiros e estrangeiros, e a redescoberta internacional nas
décadas seguintes (sobretudo com críticos e artistas alternativos)
consolidaria a imagem do álbum como um dos marcos do rock
psicodélico sul-americano.
Criticamente, o disco entrou em listas de referência e passou a ser estudado como um exemplo de inventividade técnica aplicada à canção popular. Em linhas mais práticas, abriu portas para que os Mutantes gravassem álbuns subsequentes, aprofundando a experimentação e, ao mesmo tempo, enfrentando tensões internas e transformações de formação.
Formação:
Arnaldo Baptista - baixo, teclados, voz
Rita Lee - voz, flauta doce, percussão
Sérgio Dias - guitarras, voz
Músicos Adicionais:
Dr. César Baptista - voz em "Ave Gengis Khan"
Dirceu de Medeiros - bateria
Jorge Ben - voz e violão em "A Minha Menina"
Faixas:
01. Panis et Circenses (Gil/Veloso) - 3:38
02. A Minha Menina (J. Ben) - 4:42
03. O Relógio (Baptista/Lee/Dias) - 3:30
04. Maria Fulô (Teixeira/Sivuca) - 3:04
05. Baby (Veloso) - 3:01
06. Senhor F (Baptista/Lee/Dias) - 2:33
07. Bat Macumba (Veloso/Gil) - 3:10
08. Le Premier Bonheur du Jour (Gérald/Renard) - 3:36
09. Trem Fantasma (Baptista/Lee/Dias/Veloso) - 3:16
10. Tempo no Tempo (Phillips/Baptista/Lee/Dias) - 1:47
11. Ave Gengis Khan (Baptista/Lee/Dias) – 3:48
Letras:
O conteúdo integral das letras pode ser visto em:
https://www.letras.mus.br/mutantes/
Opinião do Blog:
É difícil determinar um estilo musical para o álbum de estreia dos Mutantes, e na falta de tal, Rock Progressivo acaba sendo a ‘menos pior’ forma que se encontra para o definir. Talvez Tropicalismo seja um termo melhor.
Embora o rock funcione como um amálgama para o disco, a profusão de musicalidades que o grupo atravessa por suas 11 canções são inúmeras, passando por Jazz, Baião, Bossa Nova, etc. E isto provoca mudanças de andamento, interrupções abruptas, quebras de dinâmicas que, além dos ruídos, colagens e uso de vinhetas, são características do Prog Rock. Aliás, há que se destacar a boa produção e os arranjos de Drupat para as músicas.
Os músicos que acompanham a banda são ótimos e Arnaldo Baptista e Sérgio Dias formam a base coesa sobre a qual Rita Lee canta excepcionalmente bem. Eles constroem verdadeiras paisagens sonoras, as quais são recheadas de psicodelismo e de imprevisibilidade. É quase impossível adivinhar qual caminho a faixa vai tomar.
Elege-se como as favoritas “Relógio” e “Baby”, embora não existam músicas sequer medianas no trabalho. E “Panis et Circenses” é um clássico.
Enfim, Mutantes é um disco vanguardista, não só pelo seu lirismo revolucionário, mas por sua sonoridade única e pioneira. A fusão de ritmos e de musicalidades tão diferentes, o uso do estúdio como mais um instrumento e abordagem corajosa (e acessível) constroem um dos melhores álbuns não só do Rock, mas da música brasileira.
Fontes:
AllMusic, Wikipedia, Discogs, Discografia Brasileira, Treble,
Wax-Poetics, Rolling Stone Brasil







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