Snegs é o álbum de estreia da banda brasileira Som Nosso de Cada Dia. O lançamento oficial aconteceu no ano de 1974, pelo selo Continental. As gravações ocorreram em maio de 1974, nos estúdios Sonima em São Paulo, no Brasil. A produção ficou a cargo de Peninha Schmidt.
Hora de visitarmos outro clássico do Rock Nacional.
Formação do grupo
A
formação do Som Nosso de Cada Dia costuma centrar-se em três
nomes que se tornarão indissociáveis: Manito (teclados, sopros e
arranjos), Pedrão — Pedro Baldanza (baixo e viola) — e Pedrinho
Batera (bateria e vocais). As biografias e entrevistas indicam que o
núcleo fundador nasceu a partir de encontros na cena musical de São
Paulo, a partir do início da década de 1970, quando músicos vindos
de outras experiências — de bandas de baile, rock e formações
psicodélicas dos anos 60 — procuravam novos formatos coletivos e
sonoridades mais elaboradas. A referência ao papel de Manito como
ex-membro d’Os Incríveis aparece repetidamente nas fontes
que documentam a genealogia do grupo.
Há,
no relato oral (entrevistas e textos de fanzines/jornais
especializados), um padrão de pequena saga: projetos prévios (como
um projeto de Manito chamado “Cabala”) que se dissolvem e
permitem o aparecimento de uma formação mais enxuta e conceitual.
Uma entrevista com integrantes rememora reuniões informais em casas
e repúblicas estudantis na região da Grande São Paulo, onde traços
de psicodelia, improvisação e uma vontade de fugir ao repertório
padrão dos bailes foram fundindo-se em repertório próprio.
Essas memórias ajudam a explicar por que o Som Nosso de Cada Dia se consolidou rapidamente como um trio com forte ênfase em arranjos de teclados e timbres experimentais, ao mesmo tempo em que preservava uma ligação com grooves mais densos — um casamento entre a tradição rítmica brasileira e a estética do rock progressivo.
Importante
notar que as datas exatas de formação variam entre fontes: há quem
situe o encontro inicial já em 1970, outros em 1971 ou 1972. Essa
imprecisão não é incomum em relatos sobre bandas que nasceram fora
dos grandes centros de imprensa e antes da sistematização da
imprensa cultural dedicada ao rock. Pesquisas acadêmicas e textos
críticos tendem a apontar para o início da década de 1970 como
marco geral, com a cristalização do trio já por volta de
1971–1972.
A
São Paulo do início dos
anos 70
Para
compreender as opções estéticas do Som Nosso de Cada Dia é
preciso lembrar o cenário brasileiro: início dos anos 1970, regime
militar com forte censura, mas também uma efervescência cultural
que buscava novas linguagens. No campo musical, a polaridade entre a
canção de protesto, a MPB mais sofisticada (com artistas que
dialogavam com jazz e erudito) e a emergência do rock como gênero
autônomo criava terreno fértil para experimentos.
No Rio, movimentos como os Novos Baianos buscavam uma síntese entre tradição e contraposição urbana; em São Paulo, a paisagem era marcada por uma cena de rock mais associada a circuitos de shows, bailes e festivais universitários, e também por músicos que vinham de formações populares e se voltavam para repertório autoral mais complexo. O Som Nosso inseriu-se nesse cenário híbrido: com a rigidez melódica de arranjos pensados ao detalhe e com uma propensão para improvisação instrumental.
Essa
tensão entre criação artística e limites políticos explica em
parte a relativa invisibilidade comercial inicial do grupo: não se
tratava de música concebida para as rádios pop, mas para a escuta
atenta — um aspecto que preservou Snegs como obra cultuada
entre apreciadores do progressivo. Ao mesmo tempo, o uso de elementos
rítmicos que dialogavam com o funk, soul e com a rica tradição
percussiva brasileira deu ao disco uma resistência rítmica que
evitaria que fosse mero exercício hermético.
Entre
teclados, sopros e groove
Musicalmente,
o Som Nosso de Cada Dia é frequentemente classificado como
rock progressivo, mas este rótulo deve ser lido com nuance. O trio
explorava estruturas ampliadas — faixas com desenvolvimentos
instrumentais, mudanças de clima e seções que remetem ao jazz-rock
—, porém mantinha um pé no groove e na canção.
Manito, com seus teclados e sopros, foi figura central para a paisagem sonora do grupo: sua formação e experiência anterior (incluindo passagens por projetos mais comerciais) forneceram o arcabouço técnico e o repertório de timbres que distinguem o disco de estreia. A guitarra, quando presente, muitas vezes figura como elemento de percussão harmônica; o baixo de Pedrão e a bateria de Pedrinho costuram padrões que respiram tanto o rock pesado quanto o balanço de origem negra — uma combinação que enriquece a textura sonora.
No
plano composicional, Snegs articula-se entre temas
instrumentais extensos e canções com letra: essa alternância
permite que o ouvinte experimente o disco tanto como obra narrativa
(com suas paisagens sonoras) quanto como conjunto de temas que
poderiam, em outros arranjos, frequentar palcos mais amplos. Essa
ambivalência é uma das razões pelas quais o álbum resistiu às
vicissitudes do mercado e encontrou depois audiências mais
segmentadas e fiéis.
Produção,
gravadora e repertório
O
disco Snegs, lançado originalmente em 1974 pela Continental,
representa o primeiro registro fonográfico do trio e foi produzido
num momento em que a indústria brasileira — mesmo dominada por
parâmetros comerciais — ainda abria espaço para lançamentos que
hoje catalogamos como experimentais.
A edição original em LP contém faixas que já hoje são consideradas clássicas pelo circuito do rock progressivo nacional: canções como “Sinal da Paranoia”, “Bicho do Mato”, “O Som Nosso de Cada Dia”, “Snegs de Biufrais”, “Massavilha”, “Dirección de Aquarius” e “A Outra Face” formam um percurso sonoro que varia entre o denso e o etéreo. A duração das faixas e a disposição em lados do vinil reforçam a concepção do álbum como unidade.
Documentos discográficos (fichas técnicas e reedições)
confirmam a autoria coletiva em muitos momentos e apresentam créditos
que revelam parcerias, arranjos e a presença de músicos
colaboradores. Registros de discografia e sites especializados
descrevem Snegs como obra lançada pela Continental em 1974,
com edições posteriores e relançamentos em CD e vinil, o que
atesta um interesse de colecionadores e selos independentes pela
preservação do registro.
Vamos às faixas:
SINAL DA PARANOIA
A primeira canção do disco é bastante prog, com bastante espaço para demonstração dos talentos individuais, especialmente órgão e sintetizadores.
A letra fala sobre ansiedade:
Esse eterno pensar nas coisas eternas
Que não duram mais que um dia
Que não duram mais que um dia
BICHO DO MATO
“Bicho do Mato” é menor e mais direta, sendo dominada pelos teclados e pela viola.
A letra fala sobre a dicotomia de cidade e campo:
Gosto daqui
Do sertão, desses postes de ferro
Que teimem a subir
Dos barulhos estranhos
O SOM NOSSO DE CADA DIA
Na canção que leva o nome da banda, o rock bastante inventivo do grupo se reveste de influências brasileiras.
A letra fala sobre um mal-estar de uma geração:
Eu quero botar pra fora minha dor
Poluída pelo século do desespero
Pero si no tienes millones
No me vengas a hablar
De um novo amanhecer
No, no me vengas a hablar
De um novo amanhecer
SNEGS DE BIUFRAIS
Música curtinha, predominantemente suave e com uma letra muito interessante.
A letra faz uma exaltação à vida:
Só sei que eu quero
Beber a vida num gole só
Segurando a barra
Até o fim
Esforçando amar
Até o sim
Sempre muito snegs de biufrais
MASSAVILHA
Faixa que supera a casa dos 6 minutos, com alternância de dinâmicas e passagens instrumentais caprichadas.
A letra é um convite à reflexão:
Desinventa a massa cinzenta
Hey, bicho
Vê se enfrenta a praça sangrenta
Hey, bicho
Vê se arrebenta a cara cinzenta
Hey, bicho
DIRECCION DE AQUARIUS
Esta música traz toques latinos e orientais em sua sonoridade, com a Viola sendo destacada e um toque acústico cativante.
A letra é uma reflexão sobre a recuperação do mundo:
Hablo de un sol más caliente
Where people smile
And turn their faces
Na busca de lo imaginario
Na busca de lo imaginario
Na busca de lo imaginario
A OUTRA FACE
Esta é uma obra incrível, com influências que vão do Yes ao Secos e Molhados.
O tema da canção é a autenticidade:
Difícil é ser o que se é
E sentir apenas
O roçar do vento nos cabelos
Considerações Finais
Na época do lançamento, a recepção de Snegs foi limitada a críticos especializados e à cena de rock progressivo — uma recepção que se acentuou ao longo das décadas seguintes, à medida que leitores e colecionadores passaram a resgatar e reelaborar o cânone do rock brasileiro dos anos 70. O próprio fato de o álbum ter sido objeto de reedições (em CD nos anos 90 e em novos selos nos anos 2000 e 2010) é sintomático: o disco construiu uma reputação de “cult”, sendo indicado por críticos e entusiastas como um dos momentos altos do progressivo nacional.
O
grupo ainda gravaria outro álbum, Som Nosso (1977), antes de
alternar ciclos de atividade e interrupção. As mortes e saídas de
integrantes — eventos que afetaram a capacidade do trio de manter
continuidade em turnês e gravações — contribuíram para que a
discografia oficial se reduzisse a esses dois marcos fonográficos,
algo que ampliou a aura de raridade em torno de Snegs. Relatos
de shows, entrevistas posteriores e concertos de reativação nos
anos 90 e 2000 confirmam que a banda manteve relevância entre
públicos especializados, mesmo sem presença massiva na mídia
convencional.
Do ponto de vista historiográfico, o Som Nosso de Cada Dia exemplifica como o Brasil dos anos 70 produziu experimentos que, longe de ocupar o centro midiático do período, influenciaram gerações futuras por vias menos visíveis: através de reedições, da circulação em meios especializados e da citação por músicos que, posteriormente, retomaram elementos do progressivo nacional. Ao ler Snegs com atenção, percebe-se não apenas um disco de época, mas um nó entre tradição popular, exotismo eletrônico e ambição composicional.
É importante alertar o leitor — e especialmente o público mais exigente — sobre a fragmentação das fontes quando se trata de biografias de bandas menos documentadas pela grande imprensa: datas de formação, pequenas alterações de formação e detalhes de produção por vezes divergem entre entrevistas, fichas discográficas e reminiscências dos próprios músicos.
Formação:
Pedrinho Batera: Vocal, Bateria, Backing Vocals
Pedrão Baldanza: Vocal, Baixo, Viola, Backing Vocals
Manito: Flauta, Saxofone, Violino, Piano, Órgão, Sintetizador, Backing Vocals
Músicos Adicionais:
Marcinha: Backing Vocals
Faixas:
1. Sinal Da Paranóia (Cimara/Pedrão) – 6:00
2. Bicho Do Mato (G. Neto) – 3:52
3. O Som Nosso De Cada Dia (Paulinho/Pedrão) – 5:10
4. Snegs De Biufrais (Paulinho/Pedrinho/Pedrão) – 2:20
5. Massavilha (Paulinho/Pedrão) – 6:00
6. Direccion De Aquarius (Paulinho/Pedrão) – 5:37
7. A Outra Face (Pedrinho/Pedrão) – 7:54
Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a:
https://www.letras.mus.br/som-nosso-de-cada-dia/
Opinião do Blog:
O status ‘cult’ que Snegs atingiu no decorrer das décadas seguintes é, para mim, uma espécie de compensação por ser um disco pouco conhecido e ouvido. A realidade é que o álbum não é apenas um dos melhores álbuns de Rock brasileiro da década de 1970, mas sim, da história do rock em língua portuguesa.
O álbum de estreia do Som Nosso de Cada Dia traz uma sonoridade fluida, etérea e ao mesmo tempo impactante. A influência de bandas como Yes e King Crimson fica nítida, mas a banda carrega, também, fortes traços da música brasileira do final dos anos 1960 e início da década seguinte, como Mutantes, por exemplo.
Os vocais revezados por Pedrão Baldanza e Pedrinho Batera são ótimos, bem como na atuação de ambos formando a seção rítmica: baixo e bateria dão o pulso rítmico das canções, criando a base sobre a qual Manito expressa sua incrível habilidade musical, seja na flauta, no violino, no saxofone, entre outros, e, muito especialmente, no piano e no órgão. A capacidade que Manito têm em construir passagens sonoras em camadas etéreas é assombrosa.
As letras são outro destaque, quase sempre trazendo um conceito de existencialismo e questionamentos sobre a sociedade.
Sem faixas de enchimento, Snegs é muito homogêneo e suas canções são, no mínimo, boas. Escolhe-se como preferida a excelente “Massavilha”.
Concluindo, Snegs é uma verdadeira obra-prima do rock nacional que por muito tempo ficou relegada a um segundo plano e cujo resgate é fundamental para a memória da música brasileira e de como existe rock de qualidade produzido por aqui – em todas as décadas.
Fontes: Discogs, ProgArchives, Wikipedia, Artigo acadêmico: “A banda Som Nosso de Cada Dia e o Brasil da década de 1970” (de Eduardo Antônio Brambilla).







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