13 de outubro de 2026

KEVIN AYERS - JOY OF A TOY (1969)

 


Joy of a Toy é o primeiro álbum de estúdio da carreira solo do músico britânico Kevin Ayers, lançado originalmente em novembro de 1969, pelo selo Harvest. O álbum foi gravado no Abbey Road, em Londres, com produção de Kevin Ayers e Peter Jenner.





Em seus primeiros anos de faculdade, Kevin Ayers se envolveu com a florescente cena musical da área de Canterbury. Ele foi rapidamente convocado para a The Wilde Flowers, uma banda que contava com Robert Wyatt e Hugh Hopper, bem como futuros membros do grupo Caravan.


Ayers afirmou em entrevistas que o principal motivo pelo qual foi convidado a ingressar foi que provavelmente tinha o cabelo mais comprido. No entanto, isso o levou a começar a compor canções e a cantar.


Ayers e Wyatt deixaram o Wilde Flowers e eventualmente se juntaram ao tecladista Mike Ratledge e ao guitarrista Daevid Allen para formar o Soft Machine. Ayers mudou para o baixo (e mais tarde para a guitarra e o baixo após a saída de Allen do grupo) e compartilhou os vocais com o baterista Robert Wyatt.


Kevin Ayers



O som do grupo contrastava entre o barítono de Ayers e o canto tenor de Wyatt, além de uma mistura de rock e jazz. A banda frequentemente dividia palcos (principalmente no UFO Club) com o Pink Floyd. Eles lançaram seu single de estreia em fevereiro de 1967, tornando-se uma das primeiras gravações do novo movimento psicodélico britânico. Seu álbum de estreia, The Soft Machine, foi lançado em 1968.


Depois de uma turnê da Soft Machine pelos EUA com o grupo Jimi Hendrix Experience, Ayers decidiu se aposentar do mundo da música. Hendrix, no entanto, presenteou Ayers com uma guitarra acústica Gibson J-200 com a condição de que ele continuasse compondo.


O disco


Ayers foi para um pequeno apartamento em Londres, onde compôs e arranjou um LP inteiro, o qual foi apresentado ao incipiente selo Harvest, de Malcolm Jones, através do qual foi produzido por Peter Jenner pela então exorbitante soma de 4 mil libras.


Ayers é acompanhado, no LP, pelo pianista e arranjador David Bedford, bem como por seus antigos colegas da Soft Machine, Robert Wyatt e Mike Ratledge, e seu eventual substituto, Hugh Hopper, que já havia trabalhado com ele na banda semi-profissional Wilde Flowers.


Entre os músicos de sessão estão o violoncelista e arranjador Paul Buckmaster, o baixista de jazz Jeff Clyne, o oboísta Paul Minns e o baterista Rob Tait. O disco foi gravado entre 17 de junho e 11 de setembro de 1969, no Abbey Road, em Londres.


Ayers em ação



Joy of a Toy apresenta muitas das canções mais duradouras de Ayers, de "The Lady Rachel" a "Girl on a Swing", esta última ainda tocada regularmente por artistas como Candie Payne e como a The Ladybug Transistor.


Foi em Joy of a Toy que Ayers desenvolveu sua entrega vocal sonora, uma construção musical vanguardista e um carinho por instrumentação incomum, que teria uma influência profunda da década de 1970 e até o final de sua carreira. Ele foi auxiliado nesta última tarefa por David Bedford, que forneceu os arranjos musicais para o álbum, bem como tocou piano e outros teclados.


Uma curiosidade: para a gravação do primeiro álbum solo de Syd Barrett, The Madcap Laughs, de 1968, a Soft Machine foi contratada para fazer overdubs em algumas faixas de Barrett. Foi nessa época que Barrett gravou uma parte de guitarra para a faixa "Religious Experience" (mais tarde intitulada "Singing a Song in the Morning"); esta versão não foi lançada até a reedição de Joy of a Toy, em 2003.


JOY OF A TOY CONTINUED


A faixa funciona como uma espécie de abertura de cortina para o universo de Joy of a Toy. O título retoma "Joy of a Toy", composição que Ayers havia associado ao Soft Machine, mas aqui a ideia é transformada em algo completamente diferente. Musicalmente, a canção assume uma atmosfera de parada circense ou desfile de brinquedos, com metais e madeiras produzindo um clima festivo e deliberadamente infantil. A letra praticamente não existe no sentido convencional: Ayers utiliza vocalizações, especialmente "la-la-la", como mais um elemento instrumental.


TOWN FEELING


Uma composição mais contida, com uma atuação impecável de Ayers nos vocais, acompanhando melodias tocantes. É uma das primeiras demonstrações da extraordinária capacidade de Ayers de fazer uma canção aparentemente simples soar estranha e sofisticada. O andamento é lânguido, a guitarra elétrica aparece de maneira discreta e o oboé de Paul Minns acrescenta uma cor pastoral muito peculiar. "Town Feeling" descreve uma cidade aparentemente tranquila, observada por alguém que caminha pelas ruas enquanto percebe pessoas fechadas em seus próprios mundos.


THE CLARIETTA RAG


O piano/teclado, o órgão psicodélico de Mike Ratledge, o trombone e o caráter sincopado dão à música uma aparência de ragtime psicodélico, algo muito pouco convencional para um disco de rock de 1969. A letra mistura romantismo, fantasia e uma espécie de nonsense deliberadamente ingênuo.


GIRL ON A SWING


David Bedford constrói uma base delicada de piano e cravo, enquanto guitarra e outros efeitos psicodélicos criam uma espécie de névoa sonora em torno da melodia. A música retoma a garota que havia aparecido em "Town Feeling" e transforma aquela observação casual em uma espécie de retrato impressionista.


SONG FOR INSANE TIMES


"Song for Insane Times" é uma das grandes peças do álbum e talvez a que melhor sintetize o lado psicodélico, surrealista e socialmente desencantado de Ayers. Ayers reuniu praticamente o núcleo do Soft Machine: Robert Wyatt na bateria, Mike Ratledge no órgão e Hugh Hopper no baixo, com David Bedford nos arranjos/piano. O resultado é uma canção de estrutura relativamente pop, mas tocada por músicos que trazem consigo toda a linguagem experimental de Canterbury. A letra apresenta uma sucessão de situações absurdas.





STOP THIS TRAIN (AGAIN DOING IT)


Musicalmente, a própria gravação reproduz a ideia do trem. Há efeitos de fita acelerada, guitarras com comportamento quase locomotivo e um ritmo insistente. O órgão de Mike Ratledge acrescenta uma dimensão psicodélica bastante agressiva. O trem é uma metáfora para uma existência que parece seguir automaticamente, sem que seus passageiros saibam para onde estão indo.


ELEANOR’S CAKE (WHICH ATE HER)


A música é delicada, baseada em violão acústico e flauta/madeiras, e funciona quase como uma pequena balada folk. A letra se dirige a uma mulher que parece estar sofrendo emocionalmente. Em vez de aprofundar o sofrimento, Ayers responde com uma espécie de consolo poético, sugerindo que talvez aquilo que ela acredita ter perdido ainda possa ser encontrado.


THE LADY RACHEL


Guitarras tratadas, metais, efeitos sonoros e uma atmosfera nebulosa fazem a música parecer situada entre sonho e pesadelo. A música apresenta Rachel subindo escadas à luz de uma vela, escondendo-se da escuridão, entrando posteriormente em uma espécie de mundo fantástico onde encontra um castelo e uma voz que a recebe. É praticamente uma canção de ninar gótica.


OLEH OLEH BANDU BANDONG


As palavras são extremamente reduzidas e repetitivas, funcionando mais como mantra ou canto ritual do que como narrativa. A partir daí, a música se transforma progressivamente em uma experiência instrumental. Há uma razão para essa sonoridade aparentemente exótica: a faixa é descrita como baseada em uma canção folclórica malaia.


ALL THIS CRAZY GIFT OF TIME


Uma música com uma feição essencialmente Dylanesca, abusando da influência folk e com presença maciça da Gaita. A canção mantém a atmosfera sonhadora de boa parte do álbum, mas existe algo mais crepuscular nela. É uma letra surpreendentemente existencial para um disco que passou boa parte do tempo falando de brinquedos, garotas em balanços, personagens mágicos, bolos que comem pessoas e trens que não param.


Considerações Finais


Em termos de vendas ou presença em paradas de sucesso, Joy of a Toy não causou maiores comoções.


Entretanto, Joy of a Toy estabeleceu Ayers como um talento único com uma música que variava desde a marcha circense da faixa-título até a pastoral "Girl on a Swing" e a sinistra "Oleh Oleh Bandu Bandong", baseada em uma canção folclórica malaia.


Ayers, novamente



Richie Unterberger, do AllMusic, dá uma nota 3,5 ao álbum (em 5), apontando:


“O domínio de Ayers sobre uma variedade de instrumentos é impressionante, e seus vocais graves profundos e esquetes de músicas divertidas e quase bobas são comoventes, mas eles realmente não aderem ao ouvinte. Não é por acaso que algumas das faixas lembram os primeiros Soft Machine: Robert Wyatt toca bateria na maioria das músicas, e “Song for Insane Times” é praticamente uma performance genuína do Soft Machine, com apoio real do próprio grupo. Um álbum agradável, mas leve, que está no seu melhor quando Ayers está no seu auge.”


Ayers era, para todos os efeitos, membro do Gong em 1971, quando a banda fez a primeira turnê pelo Reino Unido. Ele também desempenhou um papel instrumental na aparição de Steve Hillage com o Gong em 1972, enquanto Steve estava em turnê pela França como membro da banda de Ayers.


Um segundo álbum, Shooting at the Moon, logo se seguiu em 1970.





Formação:

Kevin Ayers – Guitarra, Baixo, Gaita, Vocal

Robert Wyatt – Bateria

David Bedford – Piano, Mellotron, Arranjos

Mike Ratledge – Órgão

Hugh Hopper – Baixo (1 e 5)

Paul Buckmaster – Violoncelo

Jeff Clyne - Baixo (2 e 7)

Rob Tait – Bateria (6 e 9)

Paul Minns – Oboé


Faixas: (todas compostas por Kevin Ayers)

01. Joy of a Toy Continued - 2:53

02. Town Feeling - 4:51

03. The Clarietta Rag - 3:20

04. Girl on a Swing - 2:49

05. Song for Insane Times - 4:01

06. Stop This Train (Again Doing it) - 6:06

07. Eleanor's Cake (Which Ate Her) - 2:53

08. The Lady Rachel - 5:17

09. Oleh Oleh Bandu Bandong - 5:35

10. All This Crazy Gift of Time - 3:53


Opinião do Blog:

A incontestável categoria de Kevin Ayers em diferentes instrumentos musicais sempre foi algo muito admirável e esta proficiência está presente no saboroso Joy of a Toy.


E toda esta habilidade como instrumentista – refletida enquanto compositor – também explica como o álbum passeia por diferentes musicalidades com a mesma eficiência: há Rock Progressivo, Psicodelia, Folk, Pop, enfim, muita diversidade.


Acompanhado por músicos de primeira linha, em especial, por seus ex-companheiros de Soft Machine, a forma, muitas vezes contida, de cantar de Ayers é muito cativante e competente.


Em que pese ser um álbum muito bom, os momentos em que Ayers se movimenta rumo ao Rock Progressivo são os nossos preferidos: faixas como “Oleh Oleh Bandu Bandong”, “Stop This Train (Again Doing it)” e, principalmente, a ótima “Song for Insane Times” são os pontos mais altos do disco.


Mas não é apenas isto: temos a melancólica “Town Feeling”, a folk e Dylanesca “All This Crazy Gift of Time” e a lúdica “Girl on a Swing” são outros destaques deste ótimo trabalho.


Concluindo: é impressionante que Joy of a Toy seja tão pouco comentado, pois se trata de um retrato fiel de um músico de primeira linha como foi o Kevin Ayers.

0 Comentários:

Postar um comentário