ALICE IN CHAINS - FACELIFT (1990)


Facelift é o álbum de estreia da banda norte-americana chamada Alice in Chains. Seu lançamento oficial aconteceu em 21 de agosto de 1990, através do selo Columbia. As gravações se deram entre dezembro de 1989 e abril de 1990, no London Bridge Studio, em Seattle e no Capitol Recording Studio, em Hollywood, ambos nos Estados Unidos. O produtor foi Dave Jerden.

O Blog abordará a formação do Alice in Chains, de maneira breve, para depois se ater mais precisamente ao disco, como é o costume.


A história da banda começa no meio da década de 80, quando o até então baterista, Layne Staley, conseguiu seu primeiro show como vocalista, ao responder a um teste para cantar em uma banda de Glam Metal de Seattle, conhecida como Sleze.

Staley foi convencido a se tornar vocalista pela insistência de seu meio-irmão, Ken Elmer.

Outros membros deste grupo, naquela época, eram os guitarristas Johnny Bacolas e Zoli Semanate, o baterista James Bergstrom, e o baixista Byron Hansen.

Esta banda passou por várias mudanças de formação, culminando com Nick Pollock como único guitarrista e Bacolas migrando para baixo, antes mesmo do surgimento de discussões sobre a mudança do nome do conjunto para Alice in Chains. Esta mudança foi motivada por uma conversa que Bacolas tinha com um cantor de outro grupo sobre acesso a backstages.

Surgiram preocupações quanto ao nome, pois ele remete a questões sexuais e sexistas, e, assim, o grupo finalmente escolheu soletrá-lo de maneira diferente (Alice N' Chains) para dissipar quaisquer preocupações dos pais, embora a mãe de Staley, Nancy McCallum, não estivesse feliz com este nome inicialmente.

Staley conheceu o guitarrista Jerry Cantrell enquanto trabalhava com o Alice N' Chains nos estúdios de ensaio chamados Music Bank. Os dois músicos tornaram-se companheiros de quarto, vivendo no espaço de ensaio que compartilhavam.

O Alice N' Chains logo se desfez e Staley se juntou a uma banda de funk que também exigia um guitarrista no momento. Staley convidou Cantrell a se juntar ao grupo funk como músico de apoio e ele aceitou o convite desde que o vocalista se juntasse a sua própria banda.

Layne Staley
Na época, a banda de Cantrell incluía o baterista Sean Kinney e o baixista Mike Starr.

Eventualmente, o projeto funk de Staley se separou e, em 1987, Staley ingressou na banda de Cantrell em tempo integral, tocando em clubes de todo a região noroeste da Costa Oeste dos Estados Unidos, muitas vezes alongando os 15 minutos de material autoral em apresentações de 45 minutos.

A banda tocou em alguns shows, chamando-se de diferentes apelidos, incluindo Diamond Lie, o nome da banda anterior de Cantrell, antes de, eventualmente, adotar o nome do grupo anterior de Staley, Alice in Chains.

O promoter local, Randy Hauser, deu-se conta da banda em um show e acabou se oferecendo para bancar financeiramente gravações de uma demo. No entanto, um dia antes da banda gravar a demo no estúdio Music Bank, no estado de Washington, a polícia fechou o estúdio durante a maior incursão contra a cannabis na história do estado.

A demo final, concluída em 1988, foi nomeada The Treehouse Tapes e acabou chegando aos gestores musicais Kelly Curtis e Susan Silver, os quais gerenciavam outra banda de Seattle, o Soundgarden.

Curtis e Silver enviaram a demo para um representante ligado à Columbia Records, chamado Nick Terzo, que marcou um encontro com o presidente do selo, Don Ienner.

Jerry Cantrell
Com base na The Treehouse Tapes, Ienner contratou o Alice in Chains para a Columbia, em 1989.

A banda também gravou outra demo ao longo de um período de três meses em 1989. Esta gravação pode ser encontrado na versão bootleg, de nome Sweet Alice.

O Alice in Chains logo tornou-se uma prioridade da gravadora, a qual lançou a primeira gravação oficial da banda, em julho de 1990, um EP promocional chamado We Die Young.

O primeiro single do EP, "We Die Young", tornou-se um hit em rádios de metal. Depois de seu sucesso, o selo se apressou no trabalho com álbum de estreia do Alice in Chains, deixando a produção com Dave Jerden.

Vamos às faixas:

WE DIE YOUNG

"We Die Young" apresenta uma sonoridade bem pesada, baseada em um ótimo riff que conjuga peso, intensidade e uma certa dose de melodia. Ótimos vocais de Layne Staley que se casam perfeitamente com o sensacional trabalho da guitarra de Jerry Cantrell.

A letra possui uma perspectiva pessimista:

Another alley trip
Bullet seeks the place to bend you over
Then you got hit
And you shoulda known better

Lançada como single, não obteve maior repercussão em termos das principais paradas de sucesso.

“We Die Young” também estava em um EP, de mesmo nome, lançado um mês antes do lançamento de Facelift, para promover a banda. Era acompanhada das faixas “It Ain't Like That” e “Killing Yourself”. Este EP é, atualmente, um item raro e cobiçado por colecionadores.

Versões cover para a faixa foram feitas pelas bandas Stone Sour e Ektomorf.



MAN IN THE BOX

A sonoridade continua bem pesada em "Man in the Box", mas o ritmo desacelera, com um andamento mais cadenciado. O uso do Talkbox é bem dosado. Destaque para o ótimo refrão, com excelente interpretação de Staley e, também, para o onipresente baixo de Mike Starr. Grandioso momento do álbum.

A letra é em tom de negação:

Feed my eyes
Can you sew them shut?
Jesus Christ
Deny your maker

“Man in the Box” é um dos maiores clássicos do Alice in Chains.


Lançada como single, não obteve maior repercussão nas principais paradas de sucesso. Mas o videoclipe teve extensa veiculação na MTV norte-americana, especialmente a partir do ano de 1991.

Layne Staley revelou que a inspiração para as letras foi a censura presente nos veículos de comunicação de massa.

O videoclipe foi dirigido por Paul Rachman e foi indicado para o prêmio de melhor Vídeo de Heavy Metal/Hard Rock do MTV Video Music Awards, de 1991. Entre versões cover mais famosas estão as de nomes como Richard Cheese e David Cook.

“Man in the Box” está na 19ª posição da lista 40 Greatest Metal Songs, do canal VH1. O mesmo veículo a elegeu como 50ª colocada na lista 100 Greatest Songs of the 90s, de 2007. Seu solo foi o 77º lugar na lista greatest guitar solo, da revista Guitar World.

Além disso, “Man in the Box” recebeu uma indicação ao prêmio Grammy Award for Best Hard Rock Performance, de 1992, mas que foi vencido pelo Van Halen.



SEA OF SORROW

Nesta canção, o Alice in Chains opta por um andamento mais acelerado, certamente intenso, mas com uma levada consideravelmente mais leve que aquela das faixas que a precedem. A música tem uma inegável pegada 'roqueira' e é Cantrell quem continua dando as cartas.

A letra é novamente sombria:

You opened fire
And your mark was true
You opened fire
Aim my smiling skull at you
You opened fire


Foi lançada como single e também não obteve repercussão nas mais importantes paradas de sucesso. Existem dois videoclipes para a canção, um dirigido por Paul Rachman e outro por Martyn Atkins.



BLEED THE FREAK

Já em "Bleed The Freak", a banda opta por uma introdução mais curta e lenta, para depois deslanchar em uma composição intensa, com a guitarra de Cantrell ditando o ritmo. O solo do guitarrista é um dos mais marcantes de todo o disco. 

A letra apresenta ódio:

If you scorn my lover
Satan got your thigh
If you steal in hunger
I will kick you when you try

Lançada como single, também não obteve maior repercussão em termos das principais paradas de sucesso.

Um videoclipe com imagens da década de 90 foi feito quando a banda estava prestes a lançar o álbum ao vivo Live, de 2000.



I CAN'T REMEMBER

Em uma canção de andamento mais lento e contido, o destaque vai para o contraste entre as passagens quase acústicas e melodiosas e as em que o peso absurdo do riff de Cantrell preenchem o ambiente. Os vocais de Staley se adequam perfeitamente ao instrumental. Ponto altíssimo do trabalho.

A letra possui sentido de dor e sofrimento:

Bring me down you try
Feel the pain and keep it all in 'till you die
Without eyes you cannot cry
Who's the blame?



LOVE, HATE, LOVE

"Love, Hate, Love" é a maior faixa de Facelift, superando a casa dos 6 minutos de duração. A música apresenta um andamento mais arrastado, contando com uma acentuada presença de groove, e ótima atuação de Jerry Cantrell na guitarra. É uma perfeita amostra de como a banda une elementos do Rock com o Metal.

A letra fala de um relacionamento difícil:

Cheating myself, still you know more
It would be so easy with a whore
Try to understand me little girl
My twisted passion to be your world



IT AIN'T LIKE THAT

Muito groove e muito peso são as tônicas que constituem a música "It Ain't Like That". Staley tem uma atuação competente e o trabalho da seção rítmica composta por Mike Starr e o baterista Sean Kinney é fundamental para a intensidade da canção.

A letra remete a rebeldia:

Where I go is when I feel I'm able
How I fight is why I'm feelin' sore
In my mind, not forgotten
Feel as though, a tooth were rotten
Behind the smile, a tongue that's slippin'
Buzzards cry, when flesh is rippin'



SUNSHINE

"Sunshine" é uma faixa interessante, a qual, em suas passagens mais calmas possui um ar que chega a lembrar (bem remotamente) alguma coisa do Lynyrd Skynyrd. Mas logo a faixa se desenvolve mais no estilo do próprio Rock Alternativo, ou seja, com muito groove e andamento mais contido.

A letra reflete dor e doença:

Am I too contagious
Full of sick desire
Am I that I promise
Burning corpsed pyre



PUT YOU DOWN

"Put You Down" é mais curta e direta, contando com um riff que bebe na fonte do Hard Rock, mesmo que de maneira tímida. Mas só este fato já a distingue dentro do trabalho. O andamento é mais rápido e a faixa flui de maneira muito agradável.

A letra é simples:

I can see what the cost will be
You know I don't need you
I just can't put you down
I can see what it all means to me
Honey I don't need you
I just can't put you down



CONFUSION

"Confusion" é uma faixa mais longa dentro do trabalho e que aposta na fórmula de apresentar momentos leves, construídos com uma boa melodia e andamento absurdamente lento, sendo contraposto por momentos mais intensos, com a guitarra preponderante e vocais mais agressivos de Staley.

A letra é uma crítica à sociedade:

I want to set you free, recognize my disease
Love, sex, pain, confusion, suffering
You're there crying, I feel not a thing
Drilling my way deeper in your head
Sinking, draining, drowning, bleeding, dead



I KNOW SOMETHIN (BOUT YOU)

O grande destaque desta música é, sem sombra de dúvida, o baixo de Mike Starr. Além de ditar o ritmo e andamento da canção, sua nítida influência funky (o verdadeiro, obviamente) dá um sabor especial, especialmente nas passagens que precedem o refrão.

A letra é sobre vingança:

I'm gonna tell your mama
Yeh I'm gonna blackball your name
Ain't no way you'll go without me
Every chance I'll make you pay



REAL THING

A décima-segunda - e última - faixa de Facelift é "Real Thing". A música apresenta um bom riff principal, pesado e com uma melodia bem interessante e envolvente. Combinando o citado peso com muita intensidade e boa dose de agressividade nos vocais, a canção encerra bem o trabalho.

A letra fala sobre vício:

Under the hill, with just a few notches on my belt
Take it away, don't want no more
Even if you say just one more
I won't leave you alone, Oooh



Considerações Finais

O álbum, para uma banda novata, acabou fazendo sucesso, especialmente em 1991 com a explosão mundial do Grunge.

Em termos de paradas de sucesso, o álbum alcançou a 24ª posição na parada de sucessos britânica e a 42ª colocação na correspondente norte-americana. Também ficou com o 38º lugar na parada australiana.

O álbum foi um sucesso de crítica, com Steve Huey, do Allmusic, citando Facelift como “um dos registros mais importantes no estabelecimento de uma audiência para o grunge e o rock alternativo, e mesmo entre ouvintes de hard rock e de heavy metal”.

Foi também o primeiro álbum grunge a chegar no top 50 da Billboard 200 e o pioneiro a atingir mais de 1 milhão de cópias vendidas.

Facelift não foi um sucesso instantâneo, vendendo cerca de 40.000 cópias nos primeiros seis meses de lançamento. Tudo mudaria quando a MTV norte-americana passaria a dar ao videoclipe de "Man in the Box" uma rotação diurna regular.

A banda continuou a aumentar o seu público, abrindo para artistas como Iggy Pop, Van Halen, Poison e Extreme.

No início de 1991, Alice in Chains conseguiu a vaga de banda de abertura para a turnê Clash of the Titans com Anthrax, Megadeth e Slayer, expondo a banda para um público massivo de Heavy Metal.

Na turnê, o grupo se encontrou sujeito a algumas audiências hostis, no entanto o baixista Frank Bello, do Anthrax, lembra-se do Alice in Chains ganhando o respeito do público por si mesmo: “Se houvesse um cara começando merda, Layne saltaria até o público e bateria essa porra de cara!”.

Após a turnê, o Alice in Chains entrou no estúdio para gravar algumas demos para o próximo álbum, mas acabou registrando cinco músicas acústicas no lugar.

Enquanto estavam no estúdio, o baterista Sean Kinney teve um sonho sobre "fazer um EP chamado Sap". Desta forma, banda decidiu “não mexer com o destino”, e em 21 de março de 1992, Alice in Chains lançou seu segundo EP, Sap.

Facelift supera a casa de 2 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.



Formação:
Layne Staley - Vocal
Jerry Cantrell - Guitarra, Backing Vocals, Talkbox em "Man in the Box"
Mike Starr - Baixo, Backing Vocals em "Confusion"
Sean Kinney - Bateria, Percussão, Backing Vocals, Piano em "Sea of Sorrow"
Músicos Adicionais:
Kevin Shuss – Backing Vocals

Faixas:
01. We Die Young (Cantrell) - 2:32
02. Man in the Box (Staley) - 4:46
03. Sea of Sorrow (Cantrell) - 5:49
04. Bleed the Freak (Cantrell) - 4:01
05. I Can't Remember (Staley/Cantrell) - 3:42
06. Love, Hate, Love (Staley) - 6:26
07. It Ain't Like That (Cantrell/Starr/Kinney) - 4:37
08. Sunshine (Cantrell) - 4:44
09. Put You Down (Cantrell) - 3:16
10. Confusion (Staley/Cantrell/Starr) - 5:44
11. I Know Somethin (Bout You) (Cantrell) - 4:22
12. Real Thing (Staley) - 4:03

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/alice-in-chains/

Opinião do Blog:
Quem nos acompanha sempre sabe que o grunge não é um prato recorrente por aqui. Mas a estreia do Alice in Chains é um trabalho muito interessante e que marca a estreia deste relevante estilo nas páginas do nosso humilde Blog.

Facelift é um ponto de quebra interessante na cena musical dos Estados Unidos, especialmente ligada ao Rock: ele nasceu entre o colapso do Hard Rock/GLam Metal dominante e o nascedouro do Rock Alternativo/Grunge que seria hegemônico no início da década de 90.

Mas o Alice in Chains é mais que uma banda "apenas" baseada no Rock Alternativo. O grupo adiciona elementos do Heavy Metal a sua musicalidade, diferenciando-os de maneira destacada dentro da cena oriunda de Seattle.

Boa parte disto se dá pela musicalidade desenvolvida pelo guitarrista Jerry Cantrell. Em Facelift, ele é o destaque maior, apresentando riffs e solos que oscilam entre o peso e a melodia com a mesma competência.

Layne Staley também é outro ponto alto do álbum, com atuações impressivas e vocais que se combinam de maneira exata com a massa sonora. A seção rítmica é boa, com Mike Starr fazendo do baixo um elemento diferencial na música do Alice in Chains.

Outro ponto que merece atenção do leitor são as letras. A visão mais cruel da sociedade é bem interessante.

O álbum é um pouco longo e a sua segunda metade deixa a desejar quando comparada à primeira. Esta, portanto, conta com alguns clássicos do grupo como as excelentes "We Die Young" e "Sea of Sorrow".

Outras faixas muito interessantes e empolgantes são a 'grooveada' "I Can't Remember" e a interessante "Love, Hate, Love".

Mas é impossível não se render a "Man in the Box", não apenas um dos maiores clássicos do grupo, bem como a canção que define o DNA do Alice in Chains. Espetacular.

Enfim, Facelift é um álbum obrigatório para fãs de Rock, apresentando uma banda muito talentosa e com muita vontade de vencer. Além disso, grande parte das músicas que compõem o disco são incrivelmente acima da média e a atuação de Jerry Cantrell é empolgante. Extremamente recomendado!

2 Comentários

  1. Parabéns, como sempre mais um trabalho excepcional, sinceramente esse é um dos melhores blogs sobre Rock, Metal e suas vertentes, ainda espero uma analise sua sobre No More Tears, Ceremony (The Cult), The Great Radio Controversy e por ai vai .. rsrs Mais uma vez, Parabéns Daniel a sua interpretação das letras nos álbuns são excelentes ! Abraços !

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    1. Obrigado pelo seu comentário! São manifestações como essas que me fazem seguir em frente e continuar com o Blog. Valeu mesmo! É tudo feito com muita dedicação e vontade.

      Quanto aos seus pedidos, No More Tears e The Great Radio Controversy já estão na fila para serem analisados, mas é bem provável que só sejam postados no próximo ano. Adoro o Ceremony, mas ainda não tenho o CD e só posto álbuns que eu tenho. Ele vai ficar para quando o adquirir e espero que seja em breve. Grande abraço e muito obrigado novamente pela força!

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