16 de setembro de 2017

FOGHAT - FOOL FOR THE CITY (1975)


Fool for the City é o quinto álbum de estúdio da banda britânica chamada Foghat. Seu lançamento oficial aconteceu em 15 de setembro de 1975, através do selo Bearsville. As gravações ocorreram durante o ano de 1974, nos estúdios Suntreader Studios em Sharon, Vermont, nos Estados Unidos. A produção ficou por conta de Nick Jameson.

Como é nossa tradição, o RAC vai contar um pouco da história da banda Foghat antes de abordar o álbum propriamente dito, com o objetivo de contextualizar o momento pelo qual o grupo passava quando este disco foi lançado.


Savoy Brown

Para se começar a contar a história do Foghat, é obrigatório voltar-se ao ano de 1970.

Em março de 1970, foi lançado o álbum Raw Sienna, o quinto disco de estúdio da banda britânica Savoy Brown.

O Savoy Brown foi formado em 1965, pelo guitarrista Kim Simmonds e pelo homem da gaita/harmônica John O'Leary. Ao longo do tempo, o conjunto foi amadurecendo uma sonoridade que caminhava entre o Blues e o Rock.

Em Raw Sienna, a banda estava formada pelo vocalista Chris Youlden, o guitarrista Kim Simmonds, o guitarrista-base 'Lonesome' Dave Peverett, o baixista Tony Stevens e o baterista Roger Earl.

Peverett era um ávido fã do Blues e do Rock baseado no Blues, dominando estes formatos durante suas apresentações. Nos anos “pré-Beatles” da década de 1960, ele foi o vocalista e guitarrista principal de um grupo chamado The Nocturnes, o qual incluía seu irmão John Peverett (mais tarde, o gerente de turnês de Rod Stewart antes de se tornar um pastor batista nos EUA) na bateria, Keith Sutton na guitarra-base e Al 'Boots' Collins (mais tarde, editor de revistas de turismo nas Índias Ocidentais e Oriente Médio) no saxofone.

Lonesome Dave Peverett

O The Nocturnes alcançou a popularidade em Londres como uma banda de pubs e clubes noturnos, além de fornecer apoio para outros artistas em um estúdio de gravação na região de Soho, em Londres.

Depois de uma breve turnê com uma banda suíça de Blues chamada Les Questions (com a qual Peverett foi creditado como 'Lonesome Dave Jaxx'), Dave se juntou ao Savoy Brown como guitarrista-base, eventualmente assumindo o papel de vocalista.

Já o londrino Tony Stevens, adentrou o Savoy Brown em 1968, quando tinha apenas 19 anos de idade. O baterista Roger Earl também entrou no conjunto no mesmo ano que Stevens, mas já com 22 anos de idade. Além disso, Earl participou de uma audição para integrar a lendária The Jimi Hendrix Experience.

Voltamos para 1970 e o lançamento de Raw Sienna.

Infelizmente, o líder Kim Simmonds perderia o seu maior trunfo quando o vocalista Chris Youlden, após a gravação do disco, deixou o grupo para seguir em uma carreira-solo. Youlden tinha uma das vozes mais distintivas do blues britânico e o Savoy Brown nunca se recuperaria completamente de sua saída.

Raw Sienna marcou a primeira vez em que a mesma formação da banda havia gravado álbuns consecutivamente sem mudanças no pessoal. O grupo gravou seu próximo álbum, Looking In, de 1970, como um quarteto.

Looking In atingiu a 39ª posição da principal parada de álbuns dos Estados Unidos, sendo bem-sucedido comercialmente. “Leavin' Again” é uma das famosas canções do disco.

Depois de uma turnê de concertos nos EUA, para apoiar Looking In, Kim Simmonds, o líder de fato do Savoy Brown, dissolveu esta versão do grupo.

Formação do Foghat

O vocalista/guitarrista Dave Peverett, o baixista Tony Stevens e o baterista Roger Earl decidiram continuar juntos e formaram uma nova banda.

Simultaneamente, em 1969, também era lançado Barbed Wire Sandwich, o único álbum do grupo Black Cat Bones.

O Black Cat Bones era uma banda também voltada para a sonoridade Blues/Rock e que teve em suas prévias formações o guitarrista Paul Kossoff e o baterista Simon Kirke. Ambos deixariam o grupo para formarem o lendário Free.

Quem substituiu Paul Kossoff nas guitarras e gravou o único registro do conjunto, Barbed Wire Sandwich, foi o guitarrista Rod Price.

Roderick Michael "Rod" Price, nascido em Willesdem, ao norte de Londres, entrou no Black Cat Bones com apenas 21 anos de idade.

O álbum foi gravado no Tangerine Studios e no Decca Studios, lançado em novembro de 1969, no novo selo da Decca, chamado Nova, dedicado à música rock progressiva.

Rod Price

Quando o álbum foi incapaz ganhar a aclamação da crítica, os membros Brian Short, Rod Price e Phil Lenoir deixaram a banda, efetivamente encerrando sua existência.

Primeiros movimentos

Rod Price, o guitarrista, juntou-se ao grupo depois que deixou o Black Cat Bones, em dezembro de 1970. A nova formação foi chamada de Foghat (uma palavra sem sentido, a qual era um jogo de infância de Peverett e seu irmão), em janeiro de 1971.

O álbum de estreia surgiu em julho de 1972, Foghat, e foi produzido por Dave Edmunds. O trabalho apresenta um cover para “I Just Want To Make Love to You”, do bluesman Willie Dixon, e que recebeu considerável divulgação, especialmente nas estações de FM. (Nota do Blog: William James Dixon foi um músico, vocalista, compositor, arranjador e produtor de discos americano. Vencedor do Prêmio Grammy, era proficiente tanto no baixo como na guitarra e vocal, talvez seja mais conhecido como um dos compositores mais prolíficos de seu tempo. Ao lado de Muddy Waters, Dixon é reconhecido como a pessoa mais influente na formação do som pós-Segunda Guerra Mundial conhecido por Chicago blues).

O álbum também incluiu uma versão do clássico do Savoy Brown, “Leavin 'Again (Again!)”, e a ótima “Sarah Lee”, um estonteante blues em que desperta o brilho de Rod Price.

O disco atingiu a modesta 127ª posição da principal parada norte-americana de álbuns.

Em março de 1973, saiu o segundo autointitulado álbum do grupo, Foghat, mas que por conta de sua capa, ficou conhecido entre os fãs como Rock and Roll. Além do cover para “I Feel So Bad”, de Chuck Willis, o Blog destaca a boa “Road Fever”. O disco atingiu a 67ª colocação na principal parada norte-americana de discos.

Em janeiro de 1974 sai o terceiro álbum do grupo, Energized, o qual mantém o viés de crescente da popularidade do grupo. O álbum atingiu a 34ª posição da parada norte-americana e contém as ótimas faixas “Step Outside”, “Golden Arrow” e “Nothin' I Won't Do”.

Aproveitando a boa fase, ainda em 1974, o grupo compõe, grava e lança seu quarto disco de estúdio, Rock and Roll Outlaws. Foi a primeira vez que a banda contou com a produção de Nick Jameson, o qual havia produzido os primeiros álbuns do cantor Tim Moore.

O trabalho ficou com a 40ª colocação na parada norte-americana e contava com a ótima “Dreamer”.

Rock and Roll Outlaws também marca a despedida da formação inicial do grupo que se mantinha a mesma desde o início.

Fool for the City

Em 1975, Tony Stevens deixou a banda, devido ao seu calendário de turnê infinito. Stevens foi substituído temporariamente pelo produtor Nick Jameson, ainda no mesmo ano, especialmente para a gravação de Fool for the City, o vindouro quinto álbum de estúdio do grupo.

Contando com uma pegada diferente, o disco foi gravado em 1974, nos estúdios Suntreader Studios, no estado norte-americano do Vermont.

Roger Earl

A capa do álbum mostra o baterista, Roger Earl, sentado, sozinho, em uma caixa de sabão, pescando uma bula no meio da East 11th Street (entre 2ª e 3ª Avenida) em Nova York, perto do endereço do escritório americano do Foghat.

A capa traseira apresenta espectadores céticos, observando a atividade incomum de Earl, e os outros membros da banda perguntando o que ele está fazendo e/ou tentando dissuadi-lo daquilo.

Em uma entrevista, de 2014, Earl explicou como a foto foi tirada:

“Foi uma manhã de domingo e não havia dormido. Foi ideia de Nick Jameson... pois eu tenho essa propensão para a pesca. De qualquer forma, levantamos a tampa do bueiro e estou sentado em uma caixa. Quase imediatamente, uma dupla da polícia de New York veio em seu patrulhamento. Eles estão olhando para nós e desceram a janela. Agimos como “Oh merda”. Eles gritaram: 'Ei, você tem uma licença de pesca?' e começaram a rir. Então eles vieram e disseram: 'Que merda você está fazendo?' Eles tiraram algumas fotos... Eu amo a polícia de Nova York”.

Vamos às faixas:

FOOL FOR THE CITY

Com um ritmo divertido e um bom riff, este, repleto de malícia e um inegável swing; "Fool for the City" é uma canção contagiante e que demonstra as qualidades do Foghat. A presença indelével da guitarra de Rod Price e os vocais talentosos de Dave Peverett são os destaques deste início muito mais que promissor para o disco.

A letra fala de liberdade:

I'm like a fish out of water, I'm just a man in a hole
The city lights turn my blues into gold
I ain't no country boy, I'm just a homesick man
I'm gonna hit the grit just as fast as I can

Lançada como single, não repercutiu nas principais paradas de sucesso de álbuns.



MY BABE

A guitarra de Rod Price aparece ainda mais pesada em "My Babe". O baixo de Nick Jameson e, principalmente, a bateria de Roger Earl constroem uma base Bluesy saborosa para a guitarra de Rod Price brilhar, com peso e melodia nas doses corretas. Excelente versão.

A letra tem sentido cordial:

I love the way she walks, I love the way she talks,
She makes me feel so good, just like a young man should,
She never make me cry, that's why, she's my babe, she's my babe

“My Babe” é um cover para a canção de mesmo nome, composta por Willie Dixon e originalmente gravada por Little Walter em 1955.



SLOW RIDE

Com mais de 8 minutos, "Slow Ride" é a mais extensa faixa do álbum Fool for the City. A sonoridade da canção é um clássico Hard Rock, mas que aposta muito mais em uma melodia repleta de lascividade que propriamente no peso. O trabalho da seção rítmica é fabuloso, permitindo que a ousada guitarra de Rod Price seja a protagonista. Música incrível!

A letra é repleta de sensualidade:

Oh come on baby, take a slow ride with me,
Come on baby, take a slow ride
Oh feels good, mmmm, feels so good, I like it yea,
I feel good, oh I feel alright!


“Slow Ride” é um dos grandes clássicos do Foghat.

Lançada como single, atingiu a 20ª posição da principal parada norte-americana desta natureza.

Existem 5 versões desta música no mercado. A versão do LP original, Fool for the City, tem duração de 8 minutos e 14 segundos. A versão do single, encontrada em várias coletâneas, foi encurtada para 3:56, com um final em maldito fade-out.

Segundo o baterista Roger Earl, a música foi criada durante uma jam session, com o novo baixista Nick Jameson:

“Nick tinha um tocador de (fitas) cassetes e ele gravaria tudo o que tocaria lá. Quando me lembro, toda a música foi criada - a parte do meio, as linhas do Baixo e o final, foram ,todas, ideias de Nick. Basicamente, Nick escreveu a música, mas acabamos por encaixá-la, e ele cortou as coisas até a canção fazer sentido. E, então, Dave disse: 'Eu tenho algumas palavras'. Foi assim que aconteceu (risos)”.

Em 2009, a faixa foi nomeada pelo canal VH1 a 45ª colocada na lista Best Hard Rock Songs de todos os tempos.



TERRAPLANE BLUES

Em "Terraplane Blues", a banda aposta em uma excelente sonoridade Blues Rock, mas com uma inegável roupagem Hard, esta, desenvolvida pelas guitarras de Price e Peverett. Os solos são bem legais e repletos de feeling, com ótima atuação do vocalista. Outra versão bem interessante. 

A letra é sobre a vida simples no campo:

The coils ain't even buzzin' - the generator won't get that far
All in a bad condition, I gotta have the batteries charged.
I'm cryin', please - plea-hease don't do me wrong,
Who been drivin' my Terraplane …

A canção é um cover para “Terraplane Blues”, um clássico composto pelo mestre dos Blues, Robert Johnson, e lançado originalmente em 1937.



SAVE YOUR LOVING (FOR ME)

Já em "Save Your Loving (For Me)", o grupo aposta em uma faixa mais curta e direta, um Hard Rock em roupagem original, com uma musicalidade que remete ao Led Zeppelin. O resultado é uma canção empolgante e envolvente, com o protagonismo total das guitarras. 

A letra é em tom de flerte sexual:

C'mon, show me the games you play,
Rock on until the break of day, hey-hey
Let me come on over spend some time with you,
I know a lot of things that we can do,
C'mon, don't give it all away



DRIVE ME HOME

As guitarras continuam brilhando e com a dose certa de peso em "Drive Me Home", mas com um teclado muito envolvente ao fundo, tocado pelo baixista Nick Jameson. A roupagem Bluesy da composição lhe dá um sabor ainda mais especial. Outra música muito contagiante.

A letra é em tom de flerte e sensualidade:

Drive me home, drive me home,
I can't make it on my own, drive me home,
Baby won't you drive me, honey won't you drive me home



TAKE IT OR LEAVE IT

A sétima - e última - faixa de Fool for the City é "Take It or Leave It". O ouvinte deve vir para esta canção derradeira do disco com o espírito aberto. A banda abandona tudo aquilo que construiu nas 6 músicas anteriores. Aqui, o Foghat aposta em uma sonoridade mais intimista e suave, com influências da escola Soul, mas com um resultado bem interessante. Ótima atuação vocal de Peverett e do baixista Jameson.

A letra é quase uma declaração de amor:

Take it or leave it, can't I make you understand?
If you can believe it, you hold the future in your hand
If the choice was up to me girl, you would stay by my side,
Our world would be a free world, ain't no lie



Considerações Finais

Fool for the City elevou o Foghat de patamar, conquistando uma nova audiência para a banda.

Em termos da principal parada norte-americana de álbuns, o disco conquistou a 23ª posição, o ponto mais alto do grupo até então.

Fool for the City agradou a crítica. Donald A. Guarisco, do AllMusic, em uma revisão retrospectiva, dá ao trabalho uma nota 4,5 de um máximo de 5 possíveis. E atesta: “Esta gema do Hard Rock não é apenas versos riff-driven com um refrão alto eficaz, mas também apresenta alguns momentos surpreendentes onde as guitarras são retiradas completamente da mixagem e ao baixo de Nick Jameson é permitido assumir a liderança em uma explosão funky”. E continua: ““Fool for the City” também produziu um clássico de rádio duradouro em “Slow Ride”, uma música de rock pisoteante que transcende os clichés inerentes de suas letras de “amor é como um carro”, com uma performance furiosa da banda e um arranjo inteligente, a qual funciona perfeitamente com seus efeitos em sons automotivos bem cronometrados durante os versos e reproduz a capacidade da banda de trabalhar (…) no estilo R&B com seu som de balanço forte”.

Por fim, Guarisco conclui: “Em suma, Fool for the City é a melhor conquista do Foghat no estúdio e um dos pontos altos do Hard Rock dos anos 70”.

Durante o ano seguinte, Jameson foi substituído por Craig MacGregor e o grupo lançou seu sexto álbum de estúdio, Night Shift, em novembro de 1976.

Fool for the City supera a casa de 1 milhão de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.



Formação:
Lonesome Dave Peverett - Vocal, Guitarra
Rod "The Bottle" Price - Guitarra, Slide Guitar, Steel Guitar, Backing Vocals
Roger Earl - Bateria, Percussão
Nick Jameson - Baixo, Teclados, Violão, Backing Vocals

Faixas:
01 - Fool for the City (Peverett) – 4:33
02 - My Babe (Hatfield/Dixon/Medley) - 4:35
03 - Slow Ride (Peverett) – 8:11
04 - Terraplane Blues (Johnson) – 5:42
05 - Save Your Loving (For Me) (Price/Peverett) – 3:31
06 - Drive Me Home (Peverett) – 3:54
07 - Take It or Leave It (Jameson/Peverett) – 4:54

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/foghat/

Opinião do Blog:
O Foghat não é das mais conhecidas bandas pelas terras tupiniquins pelo público em geral. Até mesmo conseguir informações sobre o grupo, em português, não é das tarefas mais fáceis. Mas isto não corresponde à qualidade da música que o conjunto inglês construiu.

O mais interessante sobre a sonoridade do Foghat é que, mesmo apostando em um Hard Rock malicioso e melódico, sua base Bluesy sempre está presente nas formas como as composições são construídas.

A categoria de alto nível de Fool for the City só é conquistada porque a formação do conjunto neste disco é formidável. O trabalho das guitarras é muito bom, destacando o guitarrista Rod Price. Roger Earl é um grande baterista e Nick Jameson é um dos destaques do álbum, tanto no baixo quanto nos teclados (e na produção, é claro!). Lonesome Dave Peverett brilha nos vocais bem como na guitarra.

Em Fool for the City, o Foghat aposta na musicalidade Hard Rock, mas sem jamais abrir mão de sua base Bluesy. Isto é ainda mais óbvio na escolha dos dois covers excelentemente executados no disco, "My Babe" e "Terraplane Blues".

As letras são simples, mas valem uma conferida.

A veia Hard é bem exposta em faixas contagiantes como o clássico "Fool for the City" e o petardo direto "Save Your Loving (For Me)".

"Drive Me Home" é um Hard repleto da veia Bluesy do grupo em uma composição saborosa. E a excêntrica (para a proposta do disco) "Take It or Leave It" é uma composição interessante, com uma abordagem Soul e R&B de muito bom gosto.

Mas o Blog elege a incrível "Slow Ride" como a melhor música, não apenas do álbum, mas, bem possivelmente, de toda a carreira do Foghat.

Enfim, Fool for the City talvez seja o ponto mais alto da carreira dos ingleses do Foghat. Uma amostra perfeita da qualidade da banda e também de como o Hard Rock setentista é um estilo riquíssimo e absolutamente conquistador. Disco e banda altamente recomendados!

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