17 de julho de 2016

WHITESNAKE - LOVEHUNTER (1979)


Lovehunter é o segundo álbum de estúdio da banda inglesa Whitesnake. Seu lançamento oficial aconteceu em outubro de 1979, através do selo United Artists Records. As gravações ocorreram em maio daquele mesmo ano, no Clearwell Castle, em Gloucestershire, no Reino Unido, com o auxílio dos estúdios móveis do Rolling Stones (Mobile Studio). A produção ficou por conta de Martin Birch.


Após (quase) 5 anos, o Whitesnake volta ao Blog. Vai-se fazer um breve histórico do grupo antes de se focar no álbum propriamente dito, como sempre.

Em março de 1976, o Deep Purple terminava a turnê que divulgava o álbum Come Taste the Band (1975).

Pouco antes do último show da turnê, os dois membros remanescentes do Purple, o baterista Ian Paice e o tecladista Jon Lord, haviam decidido que o melhor a se fazer era encerrar as atividades do grupo.

O fim do conjunto foi finalmente tornado público em julho de 1976. Disse Coverdale em uma entrevista: “Eu estava com medo de deixar a banda. O Purple era a minha vida, Purple me deu a minha carreira, mas, ao mesmo tempo, eu queria sair”.

Após o desaparecimento do Deep Purple, Coverdale embarcou em uma curta carreira solo. Ele lançou seu primeiro álbum em fevereiro de 1977, intitulado White Snake.

Todas as músicas do disco foram escritas por Coverdale e o guitarrista Micky Moody.

Como seu primeiro trabalho solo, Coverdale mais tarde admitiu: "É muito difícil pensar para trás e falar sensatamente sobre o primeiro álbum. White Snake foi um esforço muito introspectivo, reflexivo e discreto, em muitos aspectos, e escrito e gravado no rescaldo do colapso do Deep Purple”.

Mesmo que o álbum não tenha sido bem-sucedido comercialmente, o seu título inspirou o nome da futura banda de Coverdale.

David Coverdale

Em 1978 Coverdale lançou seu segundo álbum solo, Northwinds, que foi recebido muito melhor que o seu anterior. Mas, antes do lançamento do disco, David já havia formado uma nova banda.

David Coverdale fundou o Whitesnake em 1978, em Middlesbrough, Cleveland, no nordeste da Inglaterra.

O núcleo da primeira formação do conjunto estava trabalhando como a banda de apoio de Coverdale, nomeada The White Snake Band, desde a turnê para promoção do primeiro álbum solo do vocalista e manteve o nome antes mesmo de ser oficialmente conhecida como Whitesnake.

Conforme dito, eles excursionaram com Coverdale como sua banda de apoio para os dois álbuns solo por ele lançados, White Snake (1977) e Northwinds (1978), entre sua saída do Deep Purple e a fundação do Whitesnake.

Naquele momento, a banda era composta por David Coverdale, pelos guitarristas Bernie Marsden e Micky Moody, pelo baixista Neil Murray, pelo baterista David "Duck" Dowle e ainda com o tecladista Brian Johnston.

Johnston logo seria substituído pelo responsável pelo órgão e teclados do Procol Harum, Pete Solley. Mas, por causa de seus inúmeros compromissos, Solley foi substituído pelo ex-tecladista do Deep Purple, Jon Lord, durante as sessões para o primeiro álbum do grupo.

O Whitesnake lançou um EP, chamado Snakebite, em junho de 1978. O EP continha 4 faixas, sendo 3 autorais e um cover, “Ain't No Love in the Heart of the City”, originalmente apresentada pelo bluesman norte-americano Bobby Bland.

Este EP, com apenas 4 canções, jamais foi lançado nos Estados Unidos. Uma versão dupla do mesmo EP, contendo mais 4 outras canções retiradas do álbum Northwinds (da carreira solo de Coverdale), totalizando 8 faixas, foi lançado em setembro de 1978.

Aproveitando o sucesso do EP, e, especialmente da faixa “Ain't No Love in the Heart of the City”, a banda resolveu gravar e lançar o seu primeiro álbum de estúdio.

Gravado e mixado em 10 dias, Trouble foi lançado em outubro de 1978.

Jon Lord

O trabalho possui boas canções como “Take Me with You”, “Lie Down (A Modern Love Song)” e a própria faixa-título, todas com uma pegada bastante Blues Rock.

O álbum acabou atingindo a 50ª posição da principal parada britânica deste tipo lançamento.

O segundo álbum viria aproximadamente um ano depois, Lovehunter.

A capa causaria uma certa controvérsia, pois contava com uma ilustração de uma mulher nua montando em uma serpente enrolada. Obra do artista Chris Achilleos.

Os trabalhos artísticos originais de Lovehunter foram roubados na década de 1980.

Vamos às faixas:

LONG WAY FROM HOME

Com um ritmo cadenciado e com um peso comedido, o álbum se inicia de forma rítmica e bastante melódica. A interpretação de Coverdale é muito sóbria e a sonoridade é envolvente. O solo é simples e com feeling. Ótimo início.

A letra é em tom de flerte:

I would do anything to be near you,
You're everything any man could claim
I see your face in the night,
I hear you calling my name


Lançada como single, atingiu a 55ª posição na principal parada britânica desta natureza, tendo até boa divulgação nas rádios do Reino Unido.



WALKING IN THE SHADOW OF THE BLUES

Um riff muito bom, pesado e intenso dita o ritmo em "Walking in the Shadow of the Blues". Evidente, como o próprio nome denuncia, trata-se de um Hard Rock setentista extremamente carregado da influência do Blues. Os teclados estão evidentes com a categoria de sempre por parte de Jon Lord. Ótimos vocais, incrível intensidade e excelente presença das guitarras formam uma das melhores composições de toda a carreira do Whitesnake. Clássico!

A letra pode ser entendida como uma ode ao estilo musical a que se refere:

I love the blues
They tell my story
If you don't feel it I will tell you once again
All of my life I've been caught up in a crossfire
'Cos I've been branded with the devil mark of Cain



HELP ME THRO' THE DAY

Nesta faixa, a pegada bluesy continua intensa, mas há um forte toque de melancolia e suavidade. As guitarras estão bastante presentes, abusando do feeling, acabando por se tornarem os grandes destaques da canção.

A letra fala sobre uma mulher:

Help me through the day,
Help me through the night
Baby your sweet loving
Will make everything all right

Trata-se de um cover para uma canção originalmente composta pelo músico norte-americano Leon Russell.



MEDICINE MAN

"Medicine Man" possui um riff forte e criativo, remetendo diretamente ao que Coverdale (e Lord) faziam no Deep Purple. Hard Rock setentista de primeira, com peso e melodia, destacando os teclados do mestre Jon Lord!

A letra é uma brincadeira romântica:

I'm the medicine man,
Your doctor of love
Medicine man,
Doctor of love



YOU 'N' ME

Em "You 'n' Me", o Whitesnake continua com o ritmo forte, repleto de melodia e malícia. Tanto as guitarras quanto o teclado contribuem decisivamente para este efeito malemolente da canção. Os vocais de Coverdale são muito bons. Boa faixa!

A letra é romântica:

I know those page three girls
In the playboy books,
Ain't got nothing on you
In the way that you look
But, an eye for an eye
A tooth for a tooth
When you get home
You better give me some truth



MEAN BUSINESS

Já "Mean Business" possui um sentimento de urgência. O ritmo é mais acelerado, rápido mesmo, com as guitarras ditando o andamento. Impossível não sentir um quê de Deep Purple, especialmente nos momentos em que Jon Lord é o protagonista.

A letra fala de uma garota:

I've got my love gun loaded
I've got you in my sight
I never take no for an answer
So you'd better say yes tonight
I told you the score
Right from the start
You'll never get to heaven
If you break my heart



LOVE HUNTER

O ritmo cadenciado e cheio de melodia, mas dotado de boa dose de peso, é a marca registrada deste clássico setentista. O grupo apresenta um Hard Rock que possui boas doses de Blues, com destaque para o baixo onipresente de Neil Murray. A atuação impecável de David Coverdale é fator decisivo para o sucesso da música.

A letra é em teor sexy:

But, I've given all I can.
I don't want no woman
To weep or moan,
I'm looking for a sweet
Heartbreaker



OUTLAW

"Outlaw" apresenta um ritmo cadenciado e direto, com as guitarras atuando em conjunto para ditar a intensidade da canção. O solo de teclado de Jon Lord é ótimo. Os vocais nesta canção são feitos pelo guitarrista Bernie Marsden.

A letra é em teor de rebeldia:

I never find it easy trying to keep the feeling alive,
I've always been a dreamer,
Dreamers find it hard to survive
When they're living in the bright lights of the big city,
A red hot town where the girls are pretty



ROCK 'N' ROLL WOMEN

"Rock 'n' Roll Women" é uma música bastante divertida, não apenas pelo teor de suas letras, mas pela criativa mistura do Rockabilly dos anos 50 com o Hard Bluesy típico do Whitesnake. A canção só não é melhor pela inexplicável passagem em que quase se torna uma balada.

A letra é divertida:

You can see in my face just what i'm hoping to find,
I want a twelve bar beauty
With a one track mind.
I don't drive babe, but, I can steer,
We got the green light
Let's get out of here



WE WISH YOU WELL

A décima - e última - faixa de Lovehunter é "We Wish You Well". A canção é bem curta, com pouco mais de 1 minuto e serviu como encerramento dos shows do Whitesnake por muito tempo. É apenas a bela voz de Coverdale e um ritmo suave e nostálgico.

A letra é em tom de despedida:

I'm sad to say
It's time to go
But until we meet again along the road
Remember this, on your journey home
When you hear the thunder roar, your not alone



Considerações Finais

Baseado em “Long Way from Home”, Lovehunter foi mais bem-sucedido que seu antecessor.

Conquistou a 29ª posição da principal parada britânica de álbuns, embora não tenha repercutido na sua correspondente norte-americana.

O álbum ganhou mais repercussão com o passar dos anos quando a banda conquistou o mundo e os, então, novos fãs começaram a procurar o material antigo do Whitesnake.

Tanto que “Walking in the Shadow of the Blues” acabou tornando-se um clássico e aparece com certa regularidade nos shows do grupo.

Eduardo Rivadavia, do AllMusic, dá ao álbum 3 de um máximo de 5 estrelas. E afirma: “Ainda assim, considerando todas as coisas, o registro é bastante consistente; a banda está igualmente em casa balançando através de “Long Way From Home”, e deslizando através da bluesy balada “Help Me Thru 'the Day””.

Pouco depois, o baterista Ian Paice substituiu David Dowle, dando ao Whitesnake três ex-membros do Deep Purple.

A nova formação entraria em ação para gravar o terceiro álbum de estúdio do grupo, o inesquecível Ready an' Willing, de 1980.



Formação:
David Coverdale - Vocais e Backing Vocals
Micky Moody - Guitarras, Slide Guitar, Backing Vocals
Bernie Marsden - Guitarras, Backing Vocals e Vocal principal em 8
Jon Lord - Teclados
Neil Murray - Baixo
Dave Dowle - Bateria

Faixas:
01. Long Way from Home (Coverdale) – 4:58
02. Walking in the Shadow of the Blues (Coverdale/Marsden) – 4:26
03. Help Me Thro' the Day (Russell) – 4:40
04. Medicine Man (Coverdale) – 4:00
05. You 'n' Me (Coverdale/Marsden) – 3:25
06. Mean Business (Coverdale/Moody/Marsden/Murray/Lord/Dowle) – 3:49
07. Love Hunter (Coverdale/Moody/Marsden) – 5:38
08. Outlaw (Coverdale/Marsden/Lord) – 4:04
09. Rock 'n' Roll Women (Coverdale/Moody) – 4:44
10. We Wish You Well (Coverdale) – 1:39

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/whitesnake/

Opinião do Blog:
O Whitesnake caracteriza-se por duas fases bem distintas em sua carreira: a primeira, na qual a banda baseava sua sonoridade no Hard Rock setentista com uma inconfundível influência do Blues norte-americano. A segunda fase, o grupo abraçou o Hard Rock dos anos 80, flertando deliberadamente com o Glam Metal. Em ambas o Blog consegue ver qualidades e trabalhos memoráveis.

Lovehunter está localizado na primeira fase e conta com uma coleção de canções que satisfazem gloriosamente os fãs do Hard Rock setentista.

Naquele ponto, logo após sair do Deep Purple, arriscar-se em uma pouco repercutida carreira-solo, Coverdale resolveu criar uma nova banda e o sucesso comercial chegaria novamente em sua profissão. Nem tanto nesta fase, mas, ao mesmo tempo, alguns de seus trabalhos mais marcantes aconteceram neste momento.

Com um time de peso o acompanhando, o resultado não poderia ser outro.

A seção rítmica é onipresente e eficiente, composta pelo baixista Neil Murray e o baterista Dave Dowle. As guitarras também funcionam de maneira ótima, tanto nos solos quanto nos riffs. Bernie Marsden ainda se arrisca nos vocais em "Outlaw", com um resultado bem mediano.

Mas os destaques são os vocais sempre eficientes de David Coverdale, portador de uma inconfundível e bela voz. E o mestre dos teclados Jon Lord que, se não possui o mesmo protagonismo que havia no Deep Purple, quando é chamado a trabalhar, mostra a categoria que lhe é peculiar.

As letras são na média geral.

Lovehunter é um álbum bem coeso. A maior parte de seu conteúdo é muito acima da média normal, trazendo brilho aos ouvintes fãs de seu estilo.

A melodiosa "Long Way from Home" e a direta "Mean Business" são ótimas amostras da versatilidade do grupo. Neste patamar também entra a ótima versão para "Help Me Thro' the Day".

A bluesy "Medicine Man" é uma grande composição. Assim como a maliciosa faixa-título, uma das melhores músicas desta fase inicial do Whitesnake. E ainda temos "Walking in the Shadow of the Blues", fortíssima candidata a melhor música da carreira da banda.

Enfim, é dispensável realçar ainda mais como o Whitesnake é uma das grandes bandas do Hard Rock em todos os tempos. Lovehunter é uma amostra do potencial de fogo que o conjunto possuía nos seus primórdios e como a fusão de peso e melodia podia ser bem costurada. Álbum mais que recomendado!

9 de julho de 2016

METALLICA - MASTER OF PUPPETS (1986)


Master of Puppets é o terceiro álbum de estúdio da banda norte-americana Metallica. Seu lançamento oficial aconteceu em 3 de março de 1986 através do selo Elektra Records. Suas gravações ocorreram entre 1º de setembro e 27 de dezembro de 1985, no Sweet Silence Studios, em Copenhagen, na Dinamarca. A produção ficou por conta da própria banda e de Flemming Rasmussen.

Este post especial é uma homenagem aos 30 anos de lançamento deste álbum e, também, uma comemoração pelos 5 anos do Blog Rock: Álbuns Clássicos.

O Metallica retorna mais uma vez ao Blog para se contar a história de um dos álbuns mais influentes da história do Heavy Metal. Como sempre, um breve histórico antecederá o tradicional faixa a faixa do disco em questão.


Em 27 de julho de 1984, o Metallica lançava seu segundo álbum de estúdio, Ride The Lightning.

O álbum já apontava para um apuro maior nas composições da banda, intensificando a incorporação de elementos do Heavy Metal mais tradicional ao Thrash Metal, este, a sonoridade inicial do grupo californiano.

Neste trabalho há faixas emblemáticas do Metallica como “For Whom The Bell Tolls”, “Fade to Black” e “Creeping Death”.

Avesso à mídia e ao Mainstream, naquela época, o disco atingiu o 87º lugar na parada britânica, conquistando a 100ª posição na correspondente norte-americana. Entretanto, a crítica especializada e o público headbanger consagrou o trabalho.

Michael Alago, diretor da gravadora Elektra Records A&R, e o cofundador da Q-Prime Management, Cliff Burnstein, assistiram a um show do Metallica em setembro de 1984. Eles ficaram impressionados com o desempenho do grupo e tanto a Elektra quanto a Q-Prime firmaram contrato com a banda.

James Hetfield
O sucesso crescente do Metallica foi tal que o selo britânico Music for Nations lançou “Creeping Death” como um single de edição limitada, o qual vendeu 40 mil cópias. Nele havia dois covers, “Am I Evil”, do Diamond Head e “Blitzkrieg”, do grupo de mesmo nome.

O Metallica embarcou em sua primeira grande turnê europeia com a banda inglesa Tank, com um público médio de 1300 pessoas.

Retornando para os EUA, o grupo continuou em turnê, desta vez em conjunto com o W.A.S.P. e o Armored Saint.

O Metallica tocou seu maior show, até então, no festival Monsters of Rock, em Donington Park, Inglaterra, em 17 de Agosto de 1985, com Bon Jovi e Ratt, para um público na casa de 70 mil pessoas.

Outro grande show ocorreu em Oakland, Califórnia, no festival Day on the Green, quando a banda tocou para uma multidão de 60 mil pessoas.

Desta forma, o Metallica estava motivado para gravar um novo álbum, o qual impressionaria aos críticos e fãs, começando a escrever novo material em meados de 1985.

O baterista Lars Ulrich e o frontman James Hetfield foram os principais compositores do novo álbum, já intitulado Master of Puppets. Ambos desenvolveram suas ideias em uma garagem, em El Cerrito, Califórnia, antes de convidarem o baixista Cliff Burton e o guitarrista Kirk Hammett para complementarem os ensaios.

Hetfield e Ulrich descrevem o processo de composição a partir de riffs de guitarras, trabalhados até soarem como uma canção.

Master of Puppets foi o primeiro álbum do Metallica a não apresentar contribuições do ex-guitarrista Dave Mustaine. Mustaine alegou que tinha coescrito “Leper Messiah”, baseado em uma velha canção chamada “The Hills Ran Red”. A banda negou, embora tenha admitido que, em uma seção, incorporou ideias do ex-guitarrista.

A banda não estava satisfeita com a acústica dos estúdios americanos os quais consideraram para a gravação e assim decidiram realizar o processo na terra natal de Lars Ulrich, a Dinamarca.

Ulrich teve aulas de bateria e Hammett trabalhou com o grande guitarrista Joe Satriani para aprimorarem o ato de gravar de forma mais eficiente. Ulrich também esteve em negociações com Geddy Lee, baixista do Rush, para produzir o álbum, mas a colaboração nunca se concretizou por causa de diferenças nas agendas.

O Metallica gravou o álbum com o produtor Flemming Rasmussen, no Sweet Silence Studios, em Copenhaguen, na Dinamarca, de 1º de Setembro a 27 de dezembro de 1985.

A composição de todas as músicas, excetuando-se “Orion” e “The Thing That Should Not Be”, foi concluída antes da chegada da banda em Copenhagen. Rasmussen afirmou que a banda trouxe demos bem preparadas das canções e apenas pequenas mudanças no estúdio foram feitas para as composições.

A gravação demorou mais que a do álbum anterior, porque o Metallica havia desenvolvido um senso de perfeccionismo e também possuía ambições maiores para este trabalho. O grupo também evitou a produção e os sintetizadores, em voga na época, para álbuns de Hard Rock e Heavy Metal então contemporâneos, como usados por Bon Jovi, Iron Maiden e Judas Priest.

Apesar de uma reputação de consumidores ávidos de bebidas alcoolicas, a banda permaneceu sóbria durante os dias de gravação.

O guitarrista Kirk Hammett recordou que, na época, o grupo estava “apenas fazendo um outro álbum”, concluindo que “não fazia idéia de que o registro teria essa grande influência que passaria a ter”.

Kirk Hammett
Rasmussen e Metallica não conseguiram concluir as mixagens como planejado. Assim, as fitas master foram enviadas em janeiro de 1986 para Michael Wagener, que terminou a mixagem do álbum.

A capa foi idealizada pelo Metallica e por Peter Mensch e desenhada e executada por Don Brautigam. Ela retrata um campo de cemitério com cruzes brancas amarradas com cordas, manipuladas por um par de mãos em um céu vermelho. Ulrich explicou que a obra de arte resumiu o conteúdo das letras do álbum: pessoas que estão sendo inconscientemente manipuladas.

A obra de arte original foi vendida, no Rockefeller Plaza, em New York City, por 28 mil dólares, em 2008.

Vamos às faixas:

BATTERY

A introdução acústica e suave embala o ouvinte, mas não se engane: você está diante de um dos hinos do Thrash Metal em todos os tempos. Velocidade alucinante e seção rítmica galopante são marcas registradas de "Battery". Os vocais agressivos de Hetfield são intensos. O andamento é veloz, embalados por um riff classudo da melhor escola californiana do Thrash Metal. O solo de guitarra de Hammett é ótimo. Um clássico!

A letra se refere à raiva e agressão:

Smashing through the boundries
Lunacy has found me
Cannot stop the Battery
Pounding out aggression
Turns into obsession
Cannot kill the Battery
Cannot kill the family
Battery is found in me
Battery



MASTER OF PUPPETS

"Master of Puppets" se inicia com um dos mais brilhantes riffs de guitarra de todos os tempos. E uma pequena variação dele é a condução principal deste hino do Heavy/Thrash Metal. A intensidade e rapidez da canção combinam com a interpretação nervosa de Hetfield nos vocais. O refrão é sensacional. O meio da música reserva uma considerável passagem instrumental, a primeira, mais cadenciada, com boa influência do Rock setentista. Outra, uma trilha Thrash como quase nunca se ouve, embalada pelo solo alucinante da guitarra de Hammett. Espetacular!

A letra fala sobre o vício em cocaína:

Taste me you will see
More is all you need
You're dedicated to
How I'm killing you

Indubitavelmente, “Master of Puppets” é um dos grandes clássicos da história do Metallica.


Lançada como single principal para promover o álbum, não atingiu nenhuma das principais paradas de sucesso deste tipo de lançamento.

No entanto, com o passar do tempo, a canção acabou ganhando o reconhecimento necessário. Tanto que o single ultrapassa a marca de 500 mil cópias comercializadas.

É tida como a canção mais executada pela banda em seus shows, mesmo que durante os anos 90 tenha ficado um certo período fora do set list, ou mesmo sendo executada parcialmente nas apresentações do grupo.

Várias são as premiações recebidas pela canção. O canal de TV norte-americano VH1 colocou “Mater of Puppets” na 3º posição de sua lista greatest heavy metal song ever. Já a revista britânica Q Magazine, coloca a música na 22ª colocação na lista 100 Greatest Guitar Tracks.

O jornalista e crítico musical canadense, Martin Poppof, posicionou “Master of Puppets” no 2º lugar em seu livro The Top 500 Heavy Metal Songs of All Time.

Incontáveis são as versões cover existentes para a faixa. Como exemplo, citam-se bandas como Trivium e Dream Theater, além do violonista David Garrett.

A canção também aparece como trilha sonora nos filmes Old School, de 2003, e The Big Short, de 2015. Além disso aparece na série animada Simpsons, no episódio The Mook, the Chef, the Wife and Her Homer, além de estar no game Guitar Hero: Metallica.



THE THING THAT SHOULD NOT BE

Já em "The Thing That Should Not Be", o Metallica continua com sua jornada pesada e intensa, mas de modo um pouco mais cadenciado. Aqui a influência do Heavy Metal mais tradicional é bem perceptível, contando com um riff bem 'a la Black Sabbath'. O refrão é, outra vez, um show à parte. Tanto o baixo de Cliff Burton quanto a bateria de Lars Ulrich se destacam em outra faixa impressionante.

A letra é baseada no conto do escritor H. P. Lovecraft, The Shadow over Innsmouth:

Fearless wretch
Insanity
He watches
Lurking beneath the sea
Great old one
Forbidden site
He searches
Hunter of the shadows is rising
Immortal
In madness you dwell



WELCOME HOME (SANITARIUM)

"Welcome Home (Sanitarium)" é a 'balada' do álbum. Na verdade, sua primeira parte conta com uma melodia suave, mas ao mesmo tempo triste e densa e, claro, belíssima. O solo de abertura, de Hammett, é curto, mas exuberante. A interpretação de Hetfield é assustadoramente perfeita para combinar com a massa sonora. Quando a faixa se transforma em um Thrash Metal típico, a banda acerta mais uma vez, com um ritmo alucinante. Kirk Hammett nunca mais foi tão incrível quanto nesta composição. Um espetáculo!

A letra é baseada no romance One Flew Over the Cuckoo's Nest, de Ken Kesey:

Sleep, my friend, and you will see
That dream is my reality
They keep me locked up in this cage
Can't they see it's why my brain says "rage"



DISPOSABLE HEROES

"Disposable Heroes" retorna com a fúria do Thrash Metal típico do Metallica. A banda oscila em andamentos ora mais contidos em uma sonoridade mais tradicional e outras vezes mais veloz e agressivo, como fez em Kill 'Em All. Não há momentos calmos ou menos intensos. O refrão é ótimo. O solo de guitarra de Hammett aos 4:30 é muito legal!

A letra mostra uma mensagem contra a guerra:

Soldier boy, made of clay
Now an empty shell
Twenty one, only son
But he served us well
Bred to kill, not to care
Do just as we say
Finished here, Greeting Death
He's yours to take away



LEPER MESSIAH

Mais cadenciada e arrastada, mas não menos brilhante. Esta é "Leper Messiah". Outro riff bem 'sabáthico' e o baixo de Cliff Burton ditando o ritmo são marcas impressivas da canção. A atuação precisa e envolvente de Hetfield nos vocais também engrandecem uma das melhores composições da discografia do Metallica. Pena que não seja tão reverenciada quanto deveria. O solo de Hammett é de arrepiar.

A letra fala sobre fé cega:

Time for lust
Time for lie
Time to kiss your life goodbye
Send me money, send me green, heaven you will meet
Make a contribution and you'll get a better seat
Bow to Leper Messiah

O título da música deriva do clássico de David Bowie “Ziggy Stardust”.



ORION

Como era costume nos primeiros álbuns do grupo, sempre havia uma faixa instrumental. Esta é "Orion". O baixo de Cliff Burton é que dá as cartas por aqui, desde a introdução da música. A canção apresenta um conjunto de melodias, ora tendendo ao Heavy Metal tradicional, em outras vezes flertando com até mesmo com o Hard Rock setentista. Alternando peso e suavidade, "Orion" encanta por manter sua unidade melódica ao longo de toda sua extensão de maneira brilhante.



DAMAGE, INC.

A oitava - e última - faixa de Master of Puppets é "Damage, Inc.". Após uma introdução de pouco mais de 1 minuto o ouvinte estará diante da mais pura fúria Thrash Metal que o Metallica já produziu. O andamento é rápido e com uma absurda intensidade. Hetfield casa seus vocais perfeitamente com a massa sonora. Umas das - senão a melhor - melhores atuações de Lars Ulrich em um álbum do grupo. Fecha o álbum com chave-de-ouro.

A letra é sobre a violência sem sentido e represália a um alvo não especificado:

Dealing out the agony within
Charging hard and no one's gonna give in
Living on your knees, conformity
Or dying on your feet for honesty
Inbred, our bodies work as one
Bloody, but never cry submission
Following our instinct not a trend
Go against the grain until the end



Considerações Finais

Em comparação aos trabalhos antecedentes, Master of Puppets foi bem melhor em relação a paradas de sucesso.

Atingiu a 41ª colocação na principal parada britânica, conquistando a 29ª posição na correspondente norte-americana. Ainda ficou com 18º lugar na parada da Suíça.

O álbum permaneceu cerca de 72 semanas na Billboard 200 e deu à banda sua primeira certificação de ouro.

A Billboard informou que o álbum vendeu 300 mil cópias em suas três primeiras semanas. Apesar de praticamente nenhum airplay de rádio e não existirem videoclipes, de acordo com a atitude anti-mainstream propagada, então, pelo Metallica, o álbum vendeu mais de 500 mil cópias em seu primeiro ano.

Master of Puppets foi aclamado pela crítica especializada em música. O editor Tom King disse que Metallica estava em seu ápice de composição durante as sessões de gravação, em parte porque o baixista Cliff Burton contribuiu com as canções.

O álbum foi aclamado como uma obra-prima pela crítica fora do público Heavy Metal e citado por alguns como o maior álbum do gênero.

Cliff Burton
Em uma revisão contemporânea, Tim Holmes, da revista norte-americana Rolling Stone, afirmou que a banda havia redefinido o Heavy Metal com a habilidade técnica e a sutileza exibidos no álbum, que ele descreveu como “o som da paranoia global”.

A revista inglesa Kerrang! escreveu que Master of Puppets “finalmente colocou o Metallica nas grandes ligas a que pertence”.

Já Steve Huey, do AllMusic, vê Master of Puppets como o melhor álbum do Metallica e observou que, embora não fosse tão inesperado quanto Ride the Lightning, é um disco mais musical e tematicamente consistente. Greg Kot, do jornal Chicago Tribune, disse que as canções da banda ficaram mais intensas nesse ponto, apontando para uma “tendência progressiva do Rush”.

Para não dizer que tudo são flores, a revista Spin e o crítico Robert Christgau não fizeram críticas positivas ao trabalho.

Master of Puppets tem aparecido em listas de melhores álbuns de várias publicações. Ele foi classificado como número 167 na lista 500 greatest albums of all time, da revista Rolling Stone.

A revista Time o incluiu em sua lista dos 100 melhores álbuns de todos os tempos, com Josh Tyrangiel, afirmando que o disco reforça a velocidade em se tocar Heavy Metal e diminui alguns dos seus clichês.

A Slant Magazine colocou o álbum na 90ª posição de sua lista dos melhores álbuns da década de 1980. O álbum é destaque no livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die. O site IGN chama Master of Puppets de “o melhor álbum de heavy metal de todos os tempos”. A revista Guitar World o elegeu como o quarto melhor álbum de guitarra de todos os tempos, em 2006.

Em 2016, o álbum foi considerado “culturalmente, historicamente ou esteticamente significante” pela Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, sendo selecionado para preservação no National Recording Registry.

O Metallica optou por uma extensa turnê em vez de liberar um videoclipe para promover o álbum. O grupo passou entre março e agosto de 1986 em turnê como banda de abertura para Ozzy Osbourne, nos Estados Unidos, sendo sua primeira turnê para plateias de grandes arenas.

O grupo costumava tocar riffs do Black Sabbath durante as passagens de som, sendo que Osbourne percebia como um escárnio para com ele.

Referindo-se a essa ocasião, Ulrich afirmou que o Metallica teve a honra de tocar com Osbourne, o qual o tratou muito bem durante a turnê. De acordo com Ulrich, o público em grandes cidades já estava familiarizado com a música do Metallica, ao contrário das cidades menores que visitou.

Ulrich afirmou: “Nos mercados menores, as pessoas realmente não nos conheciam. Mas, depois de 45 ou 50 minutos, nós podemos dizer que já o conquistamos. E os fãs que vinham para ouvir Ozzy iam para casa gostando do Metallica”.

A turnê serviu para lentamente ser o início de estabelecer um público mainstream para a banda.

Nesta época, o Metallica ganhou reputação da mídia por seu hábito de beber em excesso, durante as turnês, ganhando o apelido de Alcoholica. Os membros da banda, ocasionalmente, usavam camisetas com os dizeres Alcoholica/Drink 'em All, brincando com o nome de seu álbum inicial.

A turnê, no entanto, foi marcada por vários incidentes. Hetfield quebrou o pulso em um acidente de skate, e seu técnico de guitarra, John Marshall, tocou a guitarra-base em diversas datas.

A parte europeia da Damage, Inc. Tour teve início em setembro de 1986, com o Anthrax como a banda de apoio, e acabaria se tornando uma tragédia inesquecível.

Após o show de 26 de setembro em Estocolmo, o ônibus da banda rolou em um trecho da estrada recoberto por gelo, na manhã seguinte. O baixista Cliff Burton foi jogado por uma janela e morreu instantaneamente.

Cliff Burton faleceu com apenas 24 anos de idade.

O motorista do ônibus afirmou que atingiu um pedaço de gelo negro, mas Hetfield não concordou com isto. O motorista foi acusado de homicídio, mas não foi condenado.

A banda voltou para San Francisco e, após algumas audições, contratou o baixista Jason Newsted, ex-Flotsam and Jetsam, para substituir Burton. Muitas das canções que apareceriam no próximo álbum da banda, ...And Justice for All, foram compostas enquanto Burton ainda estava vivo.

Master of Puppets supera a casa dos 6 milhões de álbuns vendidos apenas nos Estados Unidos.



Formação:
James Hetfield - Vocal, Guitarra-Base
Kirk Hammett - Guitarra
Cliff Burton - Baixo, Backing Vocals
Lars Ulrich - Bateria

Faixas:
01. Battery (Hetfield/Ulrich) - 5:12
02. Master of Puppets (Hetfield/Ulrich/Burton/Hammett) - 8:36
03. The Thing That Should Not Be (Hetfield/Ulrich/Hammett) - 6:37
04. Welcome Home (Sanitarium) (Hetfield/Ulrich/Hammett) - 6:27
05. Disposable Heroes (Hetfield/Ulrich/Hammett) - 8:17
06. Leper Messiah (Hetfield/Ulrich) - 5:40
07. Orion (Hetfield/Ulrich/Burton) - 8:28
08. Damage, Inc. (Hetfield/Ulrich/Burton/Hammett) - 5:29

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/metallica/

Opinião do Blog:
Em Kill 'Em All e Ride The Lightning, o Metallica já havia provado que não era apenas mais uma banda surgida na década de 80, a mais fundamental na história do Heavy Metal. Os dois primeiros discos do grupo são essenciais para fãs de estilos mais pesados dentro do Rock.

Mas a banda quis ir além. E o passo definitivo para entrar na história foi dado em seu terceiro álbum. Master of Puppets eleva o nível do grupo a patamares estratosféricos.

Provando estar no ápice de seu entrosamento e criatividade, o Metallica entrega uma atuação impecável de todos os seus membros. Dispensável mencionar a categoria de Cliff Burton no baixo da banda. Lars Ulrich também tem sua melhor atuação em um álbum do grupo.

O grande diferencial do grupo é mesmo as guitarras. Tanto a base de Hetfield quanto os solos de Hammett estão impecáveis, intensos e precisos. Não há passagens supérfluas, tudo é feito de modo a tornar as composições melhores.

Até mesmo é possível perceber a melhora da atuação de James Hetfield como vocalista, atuando de maneira muito mais confiante e segura, especialmente quando comparado aos álbuns anteriores do conjunto.

As letras fogem dos lugares comuns, questionam e instigam. Merecem uma conferida atenta, especialmente a faixa-título e "Leper Messiah".

Master of Puppets é daqueles casos em que não há canção de enchimento e mais se parece a uma coletânea, pois seu conteúdo é de qualidade poucas vezes igualado. Mas a tradição do Blog manda destacar algumas faixas e é isto o que temos que fazer!

A fúria Thrash descomunal de "Battery" e "Damage, Inc." encanta qualquer fã do estilo Thrash Metal com ambas estando entre as melhores composições da história desta vertente do Heavy Metal.

Mas o Blog destaca a faixa-título, como uma amostra perfeita da genialidade do Metallica em seus primeiros anos. O DNA da banda está ali, escancarado a todos.

"Welcome Home (Sanitarium)" é uma faixa atemporal, belíssima e tocante, ao mesmo tempo em que se apresenta agressiva e intensa. "Orion" é de uma beleza inquietante e "Leper Messiah" traz peso e intensidade em uma execução absolutamente extraordinária.

Enfim, seria Master of Puppets o melhor álbum de Heavy Metal de todos os tempos? Pergunta dificílima, mas quem o aponta como tal não está cometendo nenhuma heresia. Trata-se de um disco que influenciou praticamente todas as bandas de Metal que surgiriam após seu lançamento. Candidato fortíssimo ao posto e presença obrigatória em qualquer lista de melhores álbuns de todos os tempos, independente do estilo musical. Obrigatório, essencial e necessário!

Nada como uma obra-prima deste quilate para comemorar os 5 anos do Blog e agradecer a todos os nossos poucos, mas fiéis, leitores. Muito obrigado e continuem conosco!

1 de julho de 2016

ACCEPT - BALLS TO THE WALL (1983)


Balls to the Wall é o quinto álbum de estúdio da banda alemã Accept. Seu lançamento oficial aconteceu em 5 de dezembro de 1983, através do selo RCA Records. As gravações ocorreram no Dierks Studios, em Colônia, na Alemanha, entre julho e agosto daquele mesmo ano. A produção ficou com a própria banda.


Após 4 anos, o Accept retorna ao Blog com outra pérola de sua discografia. Brevemente, o Blog vai atentar aos fatos que antecederam o lançamento do disco para depois se ater ao próprio álbum.

Restlessand Wild, quarto álbum de estúdio do Accept, foi lançado em outubro de 1982.

O álbum contava com grandes clássicos como “Restless and Wild” e “Fast as a Shark”, mas não foi um grande sucesso comercial na época. Conquistou a 98ª posição na principal parada de álbuns britânica e também obteve a 27ª posição na parada sueca correspondente.

Entretanto, Restless And Wild foi um definidor do estilo a se seguir pelo Accept e possibilitou uma maior abertura de novos mercados para a banda.

Udo Dirkschneider
O guitarrista Herman Frank, contratado pouco tempo antes do lançamento de Restless And Wild, agora tomaria parte da composição e gravação do novo trabalho do grupo, o que se tornaria Balls to the Wall.

Liricamente, o álbum seria mais conceitual e incluiria temas líricos sobre política, sexualidade e relacionamentos humanos.

A capa de Balls to the Wall, idealizada pela gerente (e letrista) da banda, Gaby “Deaffy” Hauke e posta em prática pelo artista Jean Lessenich, traria certa polêmica.

Alguma repercussão do álbum pode, sem dúvida, ser atribuída à publicidade gerada a partir de uma pequena controvérsia que eclodiu logo após o lançamento do mesmo nos Estados Unidos. O disco estaria associado ao homoerotismo.

Devido ao seu título e sua capa, o trabalho foi considerado por uma minoria como homoerótico, bem como as letras das canções "London Leatherboys" e "Love Child", que supostamente teriam por objeto os homossexuais.

No entanto, o guitarrista Wolf Hoffmann deixou de lado a polêmica, afirmando anos mais tarde: “Vocês americanos são tão tensos sobre isso. Na Europa, nunca foi um grande negócio... só queríamos ser controversos e diferentes, e tocarmos sobre estes assuntos delicados, porque nos daria boa publicidade e funcionou maravilhosamente, você sabe”.

Já o baterista Stefan Kaufmann explicou que muitos dos temas do álbum foram sobre minorias oprimidas, em geral. "London Leatherboys" era realmente sobre motociclistas, citando, por exemplo:

“Eles são pessoas normais, eles só se aparentam diferentes e se comportam de modo diferente. Mas eles são pessoas normais, outra minoria. E 'Love Child' era sobre gays, é verdade, mas é basicamente sobre as pessoas que são oprimidas", afirmou Kaufmann.

No que diz respeito a si mesmo e às questões da homossexualidade, Kauffmann disse em entrevista à revista francesa Enfer (n° 7, 1983): “É um fenômeno que deve ser levado em consideração. Porque ele existe, em grande escala, e deve ser desmistificado. Na verdade, este é um fenômeno da sociedade que deve ser tomado como tal. Por um longo tempo, as pessoas homossexuais têm sido consideradas como doentes ou loucas. E, no entanto, é hora de respeitar essas pessoas, abrir nossas mentes que muitas vezes estão fechadas”.

Stefan Kaufmann
Já a manager e letrista da banda, Gaby Hauke, afirmou, em entrevista: “Deixe-me responder esta (e a próxima) pergunta em uma, ok? Tenho sido muito rebelde e de nenhuma forma eu teria escrito nada “normal”! Nunca! A questão sexual sobre o contexto de determinadas letras são jogos mentais e pura interpretação de estranhos. Esta é uma banda que se porta individualmente – e que pouco tem a ver com a controvérsia e absolutamente nada em particular com qualquer coisa, mas se mantendo muito direta”.

Claro, a polêmica trouxe mais repercussão à banda, mas ao Blog o que importa é a música. Então, vamos às faixas:

BALLS TO THE WALL

A bateria de Stefan Kaufmann pulsante e um brilhante riff de guitarras são algumas das marcas de "Balls to the Wall". O ritmo é cadenciado e arrastado, mas nunca deixa de lado o peso intenso do Heavy Metal clássico. A atuação brilhante de Udo Dirkschneider faz tudo ficar mais grandioso. Um clássico!

A letra fala sobre minorias:

Too many people do not know
Bondage is over the human race
They believe slaves always lose
And this fear keeps them down


“Balls to the Wall” é um dos maiores clássicos de toda a carreira do Accept.

Também foi o principal single lançado para promover o álbum. Seu videoclipe teve boa circulação na MTV norte-americana durante a época de lançamento do disco.

Foi a 38ª colocada na lista 40 Greatest Metal Songs, do canal musical de TV norte-americano VH1. Também aparece nos games Grand Theft Auto: Vice City Stories e Guitar Hero Encore: Rocks the 80s.

Entre as versões cover, citam-se como exemplos as de bandas como Fozzy, Warrant e Amon Amarth. A canção é trilha sonora do filme The Wrestler, de 2008, dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Mickey Rourke.

A banda da carreira solo do vocalista Udo Dirkschneider, a UDO, também apresenta “Balls to the Wall” regularmente em suas apresentações.



LONDON LEATHERBOYS

O Accept mantém a pegada mais arrastada e lenta da faixa de abertura, mas sem abrir mão do peso. Desta feita, o baixo de Peter Baltes está mais presente, auxiliando na manutenção do ritmo. Também é destaque outro criativo riff.

A letra fala sobre juventude:

Walking down the main street
I see the city's face
Boys dressed in leather
Girls dressed in lace
See the easy riders
They're roaring down their way
They need to give full speed ahead



FIGHT IT BACK

Já em "Fight it Back", a banda ameniza (bem pouco, é verdade) o peso, apostando em um andamento um tanto quanto mais veloz, lembrando a pegada do álbum anterior, Restless and Wild. O ritmo urgente, em uma canção bem direta, contagia.

A letra fala sobre profetas:

Always been the prophets
Who make the world evolve
Always been the average breaking it down
Majority, the unknown
Giving us the rules
It's more than luck to get the standard



HEAD OVER HEELS

O baixo de Peter Baltes volta a ser destaque na faixa "Head Over Heels". O riff forte e intenso das guitarras e o andamento cadenciado remetem diretamente ao Judas Priest oitentista e, também, à NWOBHM. Não menos espetacular é a atuação do vocalista Udo Dirkschneider. O baixinho abusa de sua voz agressiva, elevando a qualidade da composição. Ótimo momento do álbum!

A letra reflete medo:

Late at night in the park
I saw them slipping in the dark
For heaven's sake what's going on
It's like someone is here
Gotta follow now
Like being in a trance for me
There's silence here
More than all the noise
Spurting in the dark head over heels



LOSING MORE THAN YOU'VE EVER HAD

Outro ótimo riff, que sobrevive na tênue linha entre Hard e Heavy, é a base da música. A banda mantém o ritmo mais lento, mas, desta feita, a pegada Hard Rock é um pouco mais acentuada, entretanto, o nível permanece muito alto.

A letra fala sobre dor e vingança:

Man, why are you running blind for the past
Why don't you try to understand
When I found her she' was dying
Trying to kill herself



LOVE CHILD

A urgência do Heavy Metal tradicional está presente na diretíssima "Love Child", faixa na qual os guitarristas Wolf Hoffmann e Herman Frank são os destaques. Os solos são bem executados e o riff principal da composição traz peso e intensidade a esta ótima canção.

A letra fala sobre aceitação:

Don't know what I am
A woman or a man
Many troubles behind me
I'm doing all I can
But I'm what I am



Foi outro single retirado do álbum para sua promoção.



TURN ME ON

Um extraordinário riff de guitarra é a base da excelente "Turn me On". Peso e intensidade são as tônicas desta música, sendo elevados a outro patamar graças a uma atuação soberba de Udo Dirkschneider, dosando sua voz agressiva até mesmo no refrão. Uma composição com o DNA do Accept.

A letra é sobre sexualidade:

All what you've gotta give
I'm coming to the point - where I can't hold myself
You shouldn't hold it back - it has to be done
Please, turn me on, turn me on, I can't hold it



LOSERS AND WINNERS

"Losers and Winners" possui um riff principal que bebeu na fonte da NWOBHM, lembrando bandas como Iron Maiden e Saxon, por exemplo, A bateria frenética de Kaufmann dita o ritmo, o qual, desta feita, é bem mais acelerado. Outro momento memorável do álbum.

A letra fala sobre conquistar uma garota:

You told me that you like her
But she doesn't wanna know
You tried so much to take her
But there's no way to go



GUARDIAN OF THE NIGHT

O início suave de "Guardian of the Night" pode até enganar o ouvinte com sua levada suave, mas a composição segue a linha de um Heavy Metal pesado e cadenciado. Ótima presença do baixo de Baltes e outra atuação impactante de Udo. Ótima canção.

A letra é uma crítica à sociedade:

I don't like people working all day
Only working just to see next tomorrow
But they are happy while they're living that way
In that world I gotta beg, steal or borrow



WINTERDREAMS

A décima - e última - faixa de Balls to the Wall é "Winterdreams". O início da canção possui um ritmo lento e arrastado e o peso está praticamente ausente. Udo Dirkschneider dá uma amostra de sua versatilidade com uma atuação mais contida, abandonando sua agressividade característica. Fecha o trabalho em grande estilo.

A letra passa um sentimento de nostalgia:

There's snow on the mountain
And fog in the street
Flickering candles in the room
Hear the church bell ring
See the children playing
I feel their pure delight
And the snow is falling
Taking me away



Considerações Finais

Catapultado pelo sucesso de sua faixa-título, Balls to the Wall conseguiu um significativo sucesso comercial e foi aclamado pela mídia especializada.

O álbum foi o primeiro a entrar na principal parada de sucessos norte-americana, atingindo o 74º lugar. Tambél alçou as 59ª e 10ª posições nas paradas da Alemanha e Suécia, respectivamente.

Balls to the Wall recebeu críticas muito positivas e foi elogiado por músicos contemporâneos e posteriores à banda. Ty Tabor, da banda norte-americana de Hard Rock King's X, era um fã do álbum e de sua produção, dizendo que: “definiu um novo padrão para como o rock pesado poderia soar em uma gravação”.

Doro Pesch, do Warlock, e Kai Hansen, do Helloween, eram fãs do grupo e consideram o Accept entre as suas principais influências musicais.

O crítico canadense Martin Popoff gostou da complexidade das letras combinadas com um limpo e contido som, que dão ao álbum “sofisticação sutil” e um “efeito singular”. Ele colocou Balls to the Wall no 1º lugar de sua lista Top 100 Heavy Metal Albums of the '80s.

Eduardo Rivadavia, do AllMusic, refere-se ao disco como um “álbum essencial do heavy metal”, apenas “um pouco mais melódico” e “menos agressivo” que Restless and Wild. Também considera a faixa-título “irresistível, uma obra-prima, que veio a resumir o moderno e lento hino do metal, como ficou conhecida”.

Durante um show de 1983, em sua cidade natal (Solingen, na Alemanha), a banda, por acaso, encontrou-se com seu antigo guitarrista Jörg Fischer e, por insistência da manager Gaby Hauke, Fischer retornou ao Accept.

Uma turnê mundial seguiu durante 1984, incluindo uma apresentação no festival Monsters of Rock. Por esta altura, o grupo era suportado pela banda Bad Steve, um conjunto que continha ex-membros do Accept: Dieter Urbach, Janko Emmet e Frank Friedrich.

Balls to the Wall supera a casa de 500 mil cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.



Formação:
Udo Dirkschneider - Vocal
Wolf Hoffmann - Guitarra
Herman Frank - Guitarra
Peter Baltes - Baixo
Stefan Kaufmann - Bateria

Faixas:
01. Balls to the Wall (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 5:45
02. London Leatherboys (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 3:57
03. Fight It Back (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 3:30
04. Head Over Heels (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 4:19
05. Losing More Than You've Ever Had (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 5:04
06. Love Child (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 3:35
07. Turn Me On (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 5:12
08. Losers and Winners (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 4:19
09. Guardian of the Night (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 4:25
10. Winterdreams (Deaffy/Udo/Hoffmann/Frank/Baltes/Kaufmann) - 4:45

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: https://www.letras.mus.br/accept/

Opinião do Blog:
Para o Blog, se existe uma banda dentro do Heavy Metal que deveria ser mais reconhecida do que de fato o é, esta é o Accept. Entre o final da década de 70 e mais da metade da seguinte, o grupo alemão lançou grandes álbuns em sequencia, auxiliando a moldar o estilo.

Claro, a década de 80 foi dourada para o Heavy Metal, com grande parte das bandas fundamentais para o estilo lançando seus principais álbuns. É neste contexto em que o Accept estava inserido.

Composta por músicos competentes e que faziam do conjunto seu maior destaque, a banda ainda contava com um vocalista único e de voz marcante, realçando a qualidade de suas próprias composições.

Se no trabalho anterior a banda lançou canções que ajudariam a moldar o Power Metal, como "Fast as a Shark", neste o grupo apostou em uma sonoridade mais tradicional, com fortes influências do Judas Priest e da NWOBHM.

Balls to the Wall pode ser considerado seu ápice de sucesso comercial e de crítica. Um trabalho coeso, calcado no Heavy Metal tradicional, mas com o inconfundível talento do Accept em criar riffs pesados e "pegajosos", os quais conquistam o ouvinte.

Também merecem destaques as letras, as quais, por vezes, abordam temáticas polêmicas e que não se contentam com lugares comuns.

Um álbum desta magnitude não possui canções fracas e nem de enchimento. Todas merecem a atenção do ouvinte. A audição é fácil e transcorre naturalmente, envolvendo e contagiando.

A aposta em um ritmo mais cadenciado, baseado no peso e intensidade é marcada por faixas de grande importância na carreira da banda como "London Leatherboys", "Head Over Heels" e "Losers and Winners".

Mas o Blog precisa reverenciar a grandeza de uma composição que traduz tudo o que é o Accept: "Balls to the Wall" é um dos hinos de toda a história do Heavy Metal. Além disso, a pesadíssima "Turn Me On" e a melancólica "Winterdreams"são faixas exuberantes.

Concluindo, Balls to the Wall é um dos principais álbuns da história do Heavy Metal, merecendo ser reverenciado e ouvido por todas as gerações de fãs da vertente mais pesada do Rock. Enfim, um dos álbuns que o blogueiro indica para quem quiser saber o que é Heavy Metal. Essencial e obrigatório!