11 de outubro de 2014

KANSAS - LEFTOVERTURE (1976)


Leftoverture é o quarto álbum de estúdio da banda norte-americana chamada Kansas. Seu lançamento oficial aconteceu em outubro de 1976, através do selo Kirshner. As gravações ocorreram entre o final de 1975 e o início de 1976, no estúdio chamado Studio in the Country, em Bogalusa, Louisiana, nos Estados Unidos. A produção ficou a cargo de Jeff Glixman e do próprio Kansas.

Juntar diferentes influências musicais e referências sonoras de seu país está no DNA do Kansas, banda a qual se tornou um dos principais grupos do Rock Progressivo norte-americano. O Blog vai passar rapidamente pela história do conjunto para depois abordar o álbum propriamente dito.

Em 1969, Lynn Meredith, Don Montre, Dan Wright e o guitarrista/tecladista Kerry Livgren tocavam em uma banda chamada The Reasons Why, em sua cidade natal, Topeka, no estado norte-americano chamado Kansas.

Depois de mudarem o nome da banda para Saratoga, eles começaram a tocar material original de Livgren com Scott Kessler no baixo e Zeke Lowe na bateria.

Em 1970, eles mudaram o nome da banda para Kansas e se fundiram com membros da “banda rival” de Rock Progressivo, também de Topeka, White Clover.

Membros do White Clover, Dave Hope (baixo) e Phil Ehart (bateria, percussão) se juntaram com Livgren, os vocalistas Meredith e Joel Warne, os tecladistas Montre e Wright e o saxofonista Larry Baker.

Kerry Livgren
Esta foi uma versão prévia do Kansas, que durou até 1971, quando Ehart, Hope e alguns dos outros membros saíram para reformar o White Clover, e é muitas vezes referida como “Kansas I”.

Ehart foi substituído por Zeke Lowe e posteriormente por Brad Schulz enquanto Hope foi substituído por Rod Mikinski (no baixo); e Larry Baker, por sua vez, por John Bolton no saxofone e flauta. Essa formação é muitas vezes referida como “Kansas II”, e 30 anos mais tarde, viria a ser reformada com o nome Proto-Kaw.

Em 1972, após Ehart retornar da Inglaterra (onde ele tinha ido procurar por outros músicos), ele e Hope mais uma vez reformaram o White Clover, desta feita com Robby Steinhardt (vocal, violino e violoncelo), Steve Walsh (vocais, teclados, sintetizadores e percussão) e Rich Williams (guitarra).

Em 1973, o então White Clover recrutou Kerry Livgren do grupo “Kansas II”, que, em seguida, acabou encerrando suas atividades. Finalmente o White Clover recebeu um contrato de gravação com o selo (de mesmo nome) de Don Kirshner, e decidiram adotar o nome de Kansas.

O primeiro auto-intitulado álbum veio ao mundo em março de 1974, quase um ano depois de ter sido gravado em New York. Ele definiu o som característico da banda, uma mistura do estilo norte-americano “Boogie Rock” com complexos arranjos sinfônicos, tudo isto aliado à várias mudanças de tempo, uma assinatura do conjunto.

O violino de Steinhardt foi um elemento distintivo da sonoridade do grupo, que foi definido mais pelo estilo “Heartland Rock” (de músicos como a banda de Bruce Springsteen, por exemplo) que as influências clássicas e do Jazz que a maioria dos violinistas de rock progressivo normalmente seguiam.

A banda lentamente desenvolveu um grupo fiel de seguidores, devido à promoção feita por Kirshner e a uma extensa turnê para o seu álbum de estreia.

Em seu primeiro disco, o grupo apresenta faixas de fácil assimilação como “Can I Tell You” e outras com veia progressiva aflorada, como “Aperçu”.

Em fevereiro de 1975 veio o segundo disco do grupo, Song For America. Nele estão duas excelentes canções da banda, as longas faixa-título e “Incomudro - Hymn to the Atman”. O álbum acabou atingindo a 57ª posição da parada Pop da Billboard.

Já em setembro daquele mesmo ano surgiu Masque, o terceiro álbum de estúdio do Kansas, com faixas preciosas como “Child of Innocence” e “The Pinnacle”. O trabalho acabou atingindo a 70ª posição da parada norte-americana de álbuns.

Os 3 álbuns lançados em sequencia juntamente com suas respectivas turnês iam fomentando o surgimento de fãs para a banda, mesmo que no movimento underground.

Steve Walsh
Quando o Kansas começou a trabalhar para seu próximo álbum, Steve Walsh começou a experimentar um bloqueio criativo, antes da gravação, e sua contribuição para o álbum acabaria por limitar-se a co-autoria de três músicas.

Assim, a responsabilidade caiu sobre Kerry Livgren que notou o problema e se pôs a preencher o vazio. As novas composições mantiveram grande parte da complexidade de inspiração clássica dos trabalhos anteriores de Livgren no conjunto.

O Kansas gravou o álbum no Studio in the Country, em Bogalusa, Louisiana. O nome do estúdio foi assim chamado porque, como Kerry Livgren descreveu posteriormente, "estava no meio de um pântano. Caminhávamos para fora do estúdio e havia jacarés em frente do estúdio, mosquitos do tamanho de B-52 e, por vezes, tatus corriam para a sala de controle", afirmava em meio a risadas.

A capa é belíssima. Vamos às faixas:

CARRY ON WAYWARD SON

"Carry On Wayward Son" é um grande clássico do Kansas o qual abre o álbum Leftoverture. Embora um tanto quanto mais acessível, por flertar mais abertamente com o Hard Rock setentista e também um pouco com uma pegada mais pop, a canção apresenta características da banda como a mudança repentina de ritmo e andamento, passagens mais intrincadas e complexas. Faixa sensacional.

Com letras belíssimas, a canção versa sobre a desobediência juvenil dos filhos e suas consequências:

Masquerading as a man with a reason
My charade is the event of the season
And if I claim to be a wise man, well
It surely means that I don't know

“Carry On Wayward Son” é um grande clássico não apenas do Kansas, mas também do Rock em geral.


Lançada como single, atingiu a excelente 11ª posição da parada desta natureza nos Estados Unidos, assim como a 5ª colocação na sua correspondente canadense e a 51ª no Reino Unido.

Mais que isto, o sucesso comercial do single “Carry On Wayward Son” é indiscutível, com o mesmo superando a casa de 1,5 milhão de cópias vendidas.

Presença garantida nos shows da banda, também está nas principais coletâneas do grupo. Foi eleita na 96ª posição da lista '100 Greatest Hard Rock Songs', do canal de televisão VH1.

Entre as versões cover, destaca-se a recente feita pela banda Gwar.



THE WALL

O Kansas continua apostando em sua veia bem melódica e cativante já no início de "The Wall". A música é praticamente uma bela balada, com um solo muito bonito de Kerry Livgren. Também merece destaque os teclados de Steve Walsh. Bela canção.

A letra é ótima e versa com uma história sobre perseverança:

The treasures that I seek are waiting on the other side
There's more that I can measure in the treasure of the love that I can find
And though it's always been with me, I must tear down the wall and let it be
All I am, and all that I was ever meant to be, in harmony
Shining true and smiling back at all who wait to cross
There is no loss



WHAT'S ON MY MIND

Desta feita a banda aposta em um riff mais simples e direto, com uma boa pegada Hard Rock. Mas tudo é feito com belas passagens melódicas. O refrão é ótimo e o solo de Livgren melhor ainda. Outro momento incrível do álbum.

A letra é uma declaração de amor como poucas:

You came from nowhere and you just jumped in my life
And I know it never will be the same
You made me love you and now I'm home once again
No, I never want to leave you no more
'Caus I'm attached to the better half of myself
And there's nowhere else that I'd rather be
You filled an empty, you fixed a bad broken heart, and I know


Lançada como single, não repercutiu nas principais paradas de sucesso.



MIRACLES OUT OF NOWHERE

"Miracles Out Of Nowhere" começa com teclados mais que inspirados, construindo belíssimas passagens. Somam-se a elas, inspiradas linhas vocais, criando uma melodia suave, tocante e ao mesmo tempo contagiante. O lado progressivo do Kansas também se aflora com passagens influenciadas pela veia clássica do grupo, tornando a faixa ainda mais interessante.

A temática da letra é a fé:

Here I am, I'm sure to see a sign
All my life I knew that it was mine
It's always here, it's always there
It's just love and miracles out of nowhere



OPUS INSERT

Com um clima ainda bem envolvente, o Kansas aposta em uma nova canção na qual predomina a presença de uma belíssima e cativante melodia. A banda mescla elementos mais eruditos com uma sonoridade simples e direta, com os teclados fazendo um belo trabalho. Os vocais de Walsh também estão excelentes.

A letra é belíssima, refletindo sobre a existência humana:

But there's too many empty lives my friend
And we just can't let them waste away
For this life is a precious thing my friend
And we just can't wait another day



QUESTIONS OF MY CHILDHOOD

Em outra lindíssima canção, o Kansas mostra sua quase infinita capacidade em compor músicas que mesclem o Rock com passagens tocantes e suaves. Em "Questions Of My Childhood" o destaque vai para Robby Steinhardt e seu violino, o qual se casa maravilhosamente com os teclados de Walsh. Outro ponto altíssimo do disco!

A letra trata de como é compreender um amor:

I don't need to face a world of disillusion
I've come to one conclusion that I know you know is true
In the game of silent searching the cost of love is rising
And I'm just now realizing I'd be better of with you



CHEYENNE ANTHEM

Não há muitas palavras que possam descrever canções tão tocantes quanto "Cheyenne Anthem", um lindo monumento a toda uma nação indígena. Nela, o Kansas varia sua musicalidade, alternando passagens clássicas com outras menos rebuscadas, mas com seu toque único de musicalidade. Momento tocante!

A letra versa sobre a luta pela terra de origem:

It's my destiny to fight and die
Is there no solution, can we find no other way, Lord let me stay
Under the endless sky and the earth below
Here I was born to live and I will never go, oh no



MAGNUM OPUS

"Magnum Opus" é uma daquelas canções que sintetizam o que é uma banda. Neste caso, resume bem o Kansas dos anos 70: passagens instrumentais que demonstram apuro técnico, complexas e intrincadas, mas, ao mesmo tempo, a construção de melodias e linhas bastante suaves e tocantes. Uma faixa magnífica que encerra o álbum com chave-de-ouro.

A letra apresenta uma metalinguagem, ou seja, a música falando de si mesma:

This foolish game, oh it's still the same
The notes go dancin' off in the air
And don't you believe it's true, the music is all for you
It's really all we've got to share
Cause Rockin' and Rollin', it's only howlin' at the Moon
It's only howlin' at the Moon

“Magnum Opus” é uma longa faixa praticamente instrumental, com seus mais de 8 minutos, sendo dividia em 6 partes: a. "Father Padilla Meets the Perfect Gnat", b. "Howling At the Moon", c. "Man Overboard", d. "Industry On Parade", e. "Release the Beavers" e finalmente, f. "Gnat Attack".



Considerações Finais

Carregado pelo sucesso de “Carry On Wayward Son”, Leftoverture acabou se tornando o primeiro grande sucesso comercial do Kansas.

As críticas da imprensa especializada foram mistas. A revista Rolling Stone afirmou que Leftoverture era o melhor álbum do Kansas até então, colocando a banda junto a nomes como Styx e Boston, que surgiam com força naquele ano.

Já o crítico musical Robert Christgau detonou o lançamento, dizendo que não possuía a inteligência e a convicção do Rock Progressivo europeu, entre outras coisas.

Mesmo assim, Leftoverture atingiu a excepcional 5ª posição da parada norte-americana de álbuns, conseguindo a 2ª colocação em sua correspondente canadense.

Reafirmando seu grande sucesso comercial, Leftoverture supera a casa de 4 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.

A banda em 1976

Formação:
Steve Walsh - Órgão, Piano, Vocal (todas as faixas), Vibrafone
Robby Steinhardt - Violino, Backing Vocals, Vocais em (“Miracles Out of Nowhere” e “Cheyenne Anthem”)
Kerry Livgren - Guitarra, Clavinet, Moog, Sintetizador, Piano
Phil Ehart - Bateria, Percussão
Dave Hope - Baixo
Rich Williams - Guitarra e Violão
Músicos Adicionais:
Toye LaRocca – Vocais
Cheryl Norman – Vocais

Faixas:
01. Carry On Wayward Son (Livgren) - 5:23
02. The Wall (Livgren/Walsh) - 4:51
03. What's On My Mind (Livgren) - 3:28
04. Miracles Out of Nowhere (Livgren) - 6:28
05. Opus Insert (Livgren) - 4:30
06. Questions of My Childhood (Walsh/Livgren) - 3:40
07. Cheyenne Anthem (Livgren) - 6:55
08. Magnum Opus (Livgren/Walsh/Williams/Hope/Ehart/Steinhardt) - 8:25
a. "Father Padilla Meets the Perfect Gnat"
b. "Howling At the Moon"
c. "Man Overboard"
d. "Industry On Parade"
e. "Release the Beavers"
f. "Gnat Attack"

Letras:
Para o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a: http://letras.mus.br/kansas/

Opinião do Blog:
O Kansas é uma das mais famosas bandas norte-americanas que se arriscou na musicalidade do Rock Progressivo, mas sem nunca perder sua influências locais. O toque "Pop" e suave ajudou a criar a sonoridade que ficaria mais famosa nos anos 80, conhecida por AOR.

O grupo conseguia mesclar bem músicas mais complexas e longas com outras que tinham claro direcionamento mais direto e popular, sem, no entanto, perder nada de dignidade e nem soar apelativa.

Em Leftoverture, talvez, o Kansas tenha conseguido alcançar seu ápice criativo. Não há muitas palavras para defini-lo sem soar muito bajulador.

Não há como destacar um único músico da banda. Todos são de alta categoria e a audição do álbum demonstra todo o valor técnico de todos que compõem a banda. Seja guitarra, teclados, violino, tudo está bem acima da média comum.

Assim como as linhas vocais criadas por Steve Walsh são belíssimas e enriquecem a qualidade do disco. Brilhante.

Outro ponto alto do trabalho são as letras, muito inteligentes. Mesmo que por vezes a temática possa soar mais religiosa, em nenhum momento há o teor de pregação, soando mais como um convite à reflexão.

É claro que a música mais famosa presente no álbum é mesmo "Carry On Wayward Son", que soa de maneira encantadora. Mas todas as faixas soam no mínimo ótimas. Há as belas "Cheyenne Anthem" e "Opus Insert", além da complexa e interessante "Magnum Opus" e a estupenda "The Wall".

Enfim, o Kansas é uma banda que merece muita atenção pelo leitor do Blog, devendo este procurar conhecer especialmente seus discos lançados na década de 70. Leftoverture é um clássico do Rock, álbum mais que recomendado. Até o próximo post!

3 comentários:

  1. Excelente, um dos melhores álbuns que ouvi na vida.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelo comentário, Andreo. Já que curtiu o álbum, que é realmente incrível, sugiro que ouça o Point of Know Return, também do Kansas, lançado um ano depois e segue mais ou menos a mesma linha.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  3. Um dos meus álbuns preferido, clássicooooooo.

    ResponderExcluir